Quinta-feira, Junho 25, 2009

Histórias que ecoam no hospício.

Bruno-maluco é um daqueles caras que você acha que só existem em histórias contadas em mesas de bar. Se sua inteligência tivesse trabalhado em prol da ciência, ele seria do tipo que ganharia um Nobel. Mas não era o caso. Bruno-maluco - como o nome já prevê - surpreendia pelas loucuras que inventava e protagonizava.

O conheci quando estudava no Anchieta. O Anchieta, para quem não conhece, é considerado o colégio mais puxado de Salvador. Em minha época, era o que mais aprovava no vestibular. 99,99% dos seus alunos buscavam estudar direito ou medicina. Eu fazia parte deste último time. Mas, lá pras tantas, resolvi que meu negócio era publicidade e passei pro grupo do 0,01% da escola.

Imagine um colégio onde não se falava em outra coisa a não ser as provas de sábado, concorrência, possíveis questões da UFBA, simulados. Enquanto em outras escolas a galera filava aula para jogar bola, durante o intervalo do Anchieta a máxima diversão dos alunos eram aprazíveis partidas de xadrez. Lembro de ter conhecido apartamentos de colegas meus que vinham do interior e que só tinham a cama e uma mesa para estudar – nada de televisão. Não por falta de recursos, mas sim por uma questão de foco. Esses caras chegavam a estudar mais de 8 horas por dia. Tinham vindo para cá com um único objetivo: vencer.

No meu colégio anterior, o São Paulo, eu fazia parte da aclamada equipe de demolição. Toda semana minha mãe estava na sala do S.O.E. Eu já tinha explodido um orelhão, colocado Vick Vaporub no ar condicionado, derrubado o ventilador de teto com um apagador de giz, posto um colega para cheirar um vapor tóxico de uma mistura que consegui no laboratório dizendo que eu tinha achado a fórmula do Azzaro e sempre era convidado a me retirar da sala por motivo de conversa. Agora, me via ali, num lugar onde nem a galera do fundão existia. Num lugar onde a minha espetacular habilidade de dobradura de aviõezinhos de papel não era reconhecida. Num lugar onde não eram os professores que faziam “shhh!!” quando alguém conversava: eram os alunos.

Bom, eu só abri esse parêntese para dar uma noção de como Bruno-maluco destoava naquele garantido portão de entrada para as melhores faculdades. Quando comecei a aceitar a terrível idéia de que aqueles seriam os anos mais chatos da minha juventude, eis que conheci o protagonista desse post e viramos grandes amigos.

Um belo dia, na primeira aula, 7 e pouca da manhã, eu aplacado por aquele sono incontrolável e o professor de literatura resolveu recitar Camões. Meus colegas vibravam como se estivessem diante de Durval Lelys numa Trivela em Arraial d’Ajuda. Foi então que o dia foi salvo: através de um forte estrondo que me fez despertar, a porta abriu com força e um carinha caiu dentro da sala, de costas, aos pés do professor. Era o então desconhecido Bruno-maluco. Diante daquela quebra de rotina, só eu ri. Os outros alunos o repreendiam veementemente. Ele se levantou, limpou a poeira do uniforme e disse:

- Bom dia, pessoal. Desculpem. É que eu estava passando diante desta sala e um colega irresponsável me empurrou aqui pra dentro. Peço desculpas a vocês e ao senhor, professor. Boa aula a todos.

Bateu a porta e saiu. Camões recomeçou para delírio dos alunos e eu fui ao banheiro lavar o rosto e tentar terminar de acordar. Ao passar pelo corredor, encontrei Bruno-maluco diante da porta de outra sala. Sem nos conhecermos, ele me perguntou:

- Fera, tem como você me dar um empurrão forte aqui?

Assenti com a cabeça e, com os dois braços e o peso do meu corpo, empurrei ele com violência para dentro da sala. O barulho da porta escancarando-se e o grito histérico de uma menina que sentava na primeira fila interromperam a aula. Ainda consegui ouvir:

- Bom dia, pessoal. Desculpem. É que eu estava passando diante desta sala e um colega irresponsável me empurrou aqui pra dentro. Peço desculpas a vocês e ao senhor, professor. Boa aula a todos.

Adivinhe quem passou a ser o tal colega irresponsável durante toda aquela manhã?

Amizade selada, começamos a sair juntos. Uma vez, estávamos na lavagem de Iemanjá no Rio Vermelho, aquela multidão, um monte de baianas com balaios enormes na cabeça, pescadores e populares carregando oferendas. Andávamos com dificuldade pela turba aglomerada. Do nada, Bruno começou a gritar enquanto movimentava os braços:

- Abre! Abre! Abre!

O povo foi se apertando uns contra os outros e abriram um pequeno corredor. Bruno não se contentou e continuou gritando alto:

- Abre mais! Abre mais!

Quem conhece essas festas de rua já sabe: quando “pedem pra abrir” ou é porque alguém está passando mal, ou é gente carregando gelo, ou é a polícia de choque. Depois de muitos empurrões e balaios caídos, conseguiram abrir uma roda. Todos olhavam pra ver o que iria passar por ali. Então, Bruno tomou impulso pra trás, veio correndo, lançou o corpo numa pirueta com a mão no chão, uma estrela muito mal dada, e caiu de pé com os braços levantados, buscando o aplauso dos espectadores. Quando eu vi a cara dos negões e baianas que carregavam os tachos, me embrenhei na multidão e me perdi do aspirante a defunto. Sei que ele sobreviveu pois depois me ligou:

- Cara, tava muito cheio lá no Rio Vermelho, não foi? Próxima vez a gente tem que tomar mais cuidado para não se perder.

Bruno-maluco não era lá uma beldade, mas sua cara-de-pau o fazia abordar qualquer mulher e elas sempre riam muito com ele. Até as que não costumam dar muito papo acabavam abrindo a guarda. Uma vez, estávamos os dois num barzinho e eu comentei sobre as belas garotas da mesa ao lado. Ele olhou para a tal mesa com umas 6 meninas e disse:

- Preste atenção no que eu vou fazer...

Uma abordagem dentro dos padrões é que não seria. Imediatamente, ele se levantou, andou em direção à mesa, chegou por trás de uma garota e tampou os olhos dela com as duas mãos.

- Adivinha quem é? – disse o louco, enquanto sorria para as outras meninas da mesa, buscando cumplicidade, fingindo que era amigo da garota.

- Léo?

- Não... – ele respondia com uma voz carinhosa.

- Nando?!

- Não...

- Rick?

- Também não...

- Lula?

- Não... - e descortinou os olhos da menina que virou-se para trás e, ao vê-lo, franziu a testa como se não o conhecesse.

Com uma bela interpretação, Bruno deu um pulo pra trás, levou a mão à boca e disse:

- Perdão! Mil perdões! Eu achei que você fosse Raquel, uma amiga minha. Como estou envergonhado...!

As garotas explodiram em riso. Daí, para passarmos para a mesa delas foi um tapa.

Noutra feita, nesse mesmo bar, ele aprontou de novo. Dessa vez, sem me avisar. Tinham duas meninas sozinhas numa mesa. Quando chegamos, ao passarmos por elas, Bruno as olhou e disse alto, com os braços abertos para a dupla:

- Pedro, olha quem tá aqui! Sabe quem é, não sabe?!

Diante das duas meninas nos olhando, busquei lembrar se eram do Anchieta. Não consegui chegar a nenhuma conclusão. Respondi sem graça:

- Não...

Ele disse tranquilamente na cara das meninas:

- Eu também não! Mas vamos conhecer nos próximos 5 segundos... prazer, meu nome é Bruno, esse aqui é Pedro...

E, mais uma vez, na base da maluquice, não terminamos a noite no 0x0.

Mas, tinha vezes que Bruno-maluco se passava. Ele resolvia dar umas cantadas “espanta-mulheres” que me davam medo de apanhar. Por exemplo: estávamos caminhando numa praça e passamos por uma garota andando com seu cachorrinho. Ele abaixou-se diante da menina, carinhosamente passou a mão no animal e perguntou:

- Morde?

- Não. – Ela respondeu sorrindo.

Então ele olhou pra garota e perguntou:

- E o cachorro?

A menina xingou tanto a gente que aquele dia eu aprendi uns 4 palavrões novos.

Outra vez, a gente passando de carro pela rua, eu estava dirigindo e de repente Bruno começou a gritar com o braço pra fora da janela:

- Pára aqui no ponto de ônibus! Pára aqui no ponto!

Eu encostei. Por um momento, achei que ele estivesse passando mal. Então, diante de um monte de gente embaixo da marquise esperando o ônibus, o sujeito mira uma menina com um caderno embaixo do braço e fala enquanto fazia cara de pura sedução:

- Gatinha... você está no ponto.

Ao ouvir a asneira, arranquei com o carro de lá. Ainda vi pelo retrovisor a menina mostrando o dedo do meio pra gente. Bruno reagia com naturalidade:

- Viu a carinha dela? A danada gostou.

E teve também o caso do estacionamento do shopping. Eu estava manobrando em uma vaga quando Bruno abriu a porta do carro e saiu correndo em direção a uma BMW. Fechei a porta que ele deixou aberta e me aproximei da cena. Tratava-se de uma linda garota no carrão. Meu amigo pedia insistentemente que ela abaixasse o vidro. Receosa, ela abaixou e ele, com os braços cruzados para dentro da janela, dizia:

- Você não vai acreditar... mas eu sonhei com você hoje. Eu não estou brincando, eu não sou de brincar assim...

A menina, assustada, pedia licença e tentava fechar o vidro. Bruno impedia a janela de subir, pendurado na porta, com os dois pés fora do chão buscando ajuda da gravidade. A garota tentou arrancar com o carro. Então, meu amigo se jogou de cabeça pela janela e ficou com as pernas pra cima, do lado de fora. Assombrada, a motorista abriu a porta e saiu correndo do seu BMW deixando Bruno se debatendo de cabeça pra baixo e chutando o ar. Fui ajudá-lo e sugeri que saíssemos rápido dali já que havia começado a juntar gente ao redor. Entrando no shopping, o sujeito só se limitou a dizer:

- Dessa vez não deu...

Muitas vezes, infelizmente, a vida se encarrega de separar grandes amigos. Um vai fazer faculdade disto, o outro daquilo, um resolve morar fora por uns tempos, o outro engata um namoro longo. E os caminhos distanciam-se. A última vez que o encontrei tem uns 4 anos. Foi dentro do Ferry Boat, a caminho da ilha. Ele estava correndo de um lado ao outro do barco com as mãos pra cima carregando um cachorro Pug. Celebramos aquela clássica festa de dois amigos que não se reencontram há muito tempo. Depois de saber brevemente das novidades, perguntei curioso:

- Que cachorro é esse, Brunão?

Antes que ele pudesse responder, um casal apressadamente surgiu esgueirando-se entre os carros e, ofegantes, gritavam ainda de longe:

- Por favor! Devolva o nosso cachorro...!

Sexta-feira, Junho 05, 2009

O deputado higiênico.

Além de atender clientes privados, na nossa agência de publicidade também fazemos marketing político. O trabalho vai desde a criação de campanhas eleitorais até a comunicação de governo propriamente dita, já com o político eleito. Apesar de hoje em dia a palavra “político” causar arrepio na maioria das pessoas, existem caras corretos, bons de se trabalhar, pessoas realmente empenhadas em fazer um trabalho sério e mudar esse triste cenário de falta de responsabilidade com o dinheiro público e os anseios do povo.

Mas, um dos desafios que a gente imediatamente encontra quando um político nos contrata é que ele vê em toda e qualquer pessoa um eleitor. Isso significa que um dos diagnósticos mais importantes que precisamos ter em mãos, que são suas fraquezas e dificuldades diante do cenário político em que se insere, jamais é confessado facilmente por ele. Esse é um dos motivos que faz da pesquisa a melhor amiga de quem faz marketing político.

E foi num desses dias de campanha iniciada antes mesmo do período eleitoral que aconteceu esse caso. A gente tinha acabado de mudar a sede da agência para um novo lugar e a sala estava um pandemônio: reforma acontecendo, caixas de mudança pelo chão, banheiros desmontados, lâmpadas penduradas. Foi então que um deputado estadual que queria tentar a reeleição nos telefonou:

- [voz impostada] Alô, Pedro? Boa tarde. É aí que vocês fazem homem feio ficar bonito? Vi o que fizeram com a foto de campanha do deputado Fulano de Tal, também quero remoçar uns 15 anos e acender meus belos olhos azuis. Temos que agradar o eleitorado feminino, não é verdade?

Certos políticos carregam consigo uma pitada de bom humor que os deixa bastante agradáveis. Isso é ponto positivo. Respondi no mesmo clima:

- Pois é, Deputado... fazemos umas cirurgias aqui que não doem nem no bolso.

- Isso é importante. Como eu já vim bonito de fábrica, sei que vocês vão me dar um bom desconto. Posso passar aí rapidinho na agência de vocês?

- Deputado, eu prefiro encontrar o senhor em algum outro lugar. Não poderia ser na Assembléia Legislativa amanhã pela manhã? – perguntei enquanto olhava o caos estabelecido pela mudança que ainda acontecia.

- É que eu estou passando aqui na rua de vocês, é coisa rápida. – ele respondeu.

- Vamos deixar para amanhã? É que a gente acabou de se mudar e aqui está uma bagunça terrível. – eu insisti.

- Eu sei como são essas coisas. Mas não tem problema. Já me sinto de casa, nem vou reparar. – ele insistiu.

Não houve outro jeito senão assentir com a ilustre visita. Desliguei o telefone e então comuniquei a Danilo, meu sócio, a iminente chegada do deputado à Boanova. Ele não assimilou bem a notícia:

- Tá louco? Como é que vamos receber o deputado nesse pardieiro? Liga de volta e diz que a gente passa no gabinete dele amanhã.

- Foi o que eu tentei argumentar. Mas o cara foi inflexível, disse que já está aqui na rua. – respondi.

- Aqui na rua?! – perguntou Danilo ao tempo em que, no desespero, iniciava uma tentativa de maquiar a bagunça generalizada.

O corre-corre foi grande e foi em vão. Não dava tempo de melhorar o cenário de guerra. Parecia que um furacão tinha passado por lá, seguido de um terremoto e do Tazmania.

- Rapaz... e o banheiro? – lembrou Danilo com um semblante de espanto.

- Xi...! Tá sem sabonete, sem papel-toalha... – dei-me conta.

- Agora é rezar pro cara não querer ir ao banheiro. – concluiu Danilo.

Tocou o meu ramal. Anunciaram que o deputado já estava nos aguardando na recepção. Pedi que o deixassem entrar.

Foi então que o parlamentar, seguido de um séquito de assessores engravatados, entrou em nossa sala. Alto, postura ereta, ar triunfante, seu corpo no terno tinha certas restrições de movimento. Pela sua aura de confiança, eu diria que o pré-candidato já estava eleito. Olhos fitados em Danilo, aproximou-se lentamente dele, a mão erguida, pronta para um cumprimento. Com um firme aperto de mãos, sem desviar os olhos de meu sócio, o deputado falou com certa solenidade:

- Vocês são bons. [pequena pausa na voz, mas não no olhar] Por isso estou aqui. – e só então terminou o cumprimento.

Outra característica de muitos desses nossos clientes é a facilidade que eles têm de inflar o seu ego. Isso requer muito cuidado. Caso contrário, depois de tantos elogios, você acaba fazendo o trabalho de graça – e ainda vota no cara.

- Obrigado, Deputado! Sentem-se, por favor. Vamos ficar devendo a vocês um cafezinho: como podem ver, ainda não nos instalamos direito. – disse Danilo. E continuou – No que podemos ajudar?

Sem perder a inclinação do rosto para cima e o olhar voltado para baixo, sinal clássico de austeridade, o deputado traçou um rápido panorama de sua situação política nos municípios baianos que compunham suas bases, descreveu brevemente algumas de suas realizações ao longo do primeiro mandato, não falou de suas fragilidades – o que a gente já esperava -, cobriu-se com um manto de nobres qualidades e, antes de falar de suas necessidades de campanha, interrompeu o seu discurso fora do palanque:

- Onde fica o banheiro?

Imediatamente, eu e Danilo cruzamos olhares. Depois de quase pedir que o deputado segurasse qualquer que fosse a sua necessidade fisiológica, falei:

- Deputado, saindo desta sala, vira à esquerda e depois é a primeira porta à direita.

Na ausência do parlamentar, os assessores, empolgados cabos-eleitorais, exaltavam as qualidades do seu candidato e faziam inúmeras perguntas a nós dois. Não consegui prestar atenção a absolutamente nada do que estava sendo dito. Só imaginava como o deputado estaria se virando dentro daquilo que ainda não passava de um projeto de banheiro.

Foi então que o inusitado aconteceu. Retornou o deputado à sala, com toda sua pose, seu andar de desfile de grife masculina, um olhar de estadista que mirava o horizonte e o rosto cheio de pequenas bolinhas de papel higiênico grudadas. Segurar o riso foi a maior prova de auto-controle que eu já imprimi a mim. Na falta do papel toalha, o pomposo senhor enxugou o rosto com o que havia disponível. Como também ainda não havia espelho, nosso cliente não teve a chance de ver o resultado da sua aventura no banheiro.

Ele sentou-se novamente diante de nós e continuou sua retórica. Jamais irei esquecer a cara de Danilo, misto de riso preso com tentativa de prestar atenção no que era dito. Os assessores, por sua vez, também não tiveram a iniciativa de comunicar ao deputado que ele parecia ter caído de cara na neve. Aliás, no Neve – salvo engano é a marca de papel higiênico oficial da Boanova.

Ao comentar empolgado um grande feito político seu, o deputado fez um gesto brusco com os braços que fez cair uma das bolinhas presas no seu rosto. O pequeno floco branco aterrissou em seu colo. O parlamentar, sem interromper sua bela fala, pegou a bolinha, friccionou-a com os dois dedos como quem dá forma a uma meleca e olhou para o teto buscando a origem daquela aparição. Deve ter pensado: “este lugar está realmente necessitando de uma reforma”.

Ao fim da reunião, marcada por um esforço sobre-humano de mantermos o foco nas explanações do deputado, nos comprometemos a enviar um orçamento ao seu gabinete. O elegante membro do legislativo baiano levantou-se da cadeira, nos cumprimentou cheio de papel higiênico na cara, voltou-se para as janelas que dão para a criação e, buscando vencer os vidros que o separavam dos nossos profissionais, disse gritando:

- OLÁ, PESSOAL! TUDO BOM COM VOCÊS?

O detalhe é que, por conta da reforma ainda não ter sido concluída, os vidros ainda não haviam sido colocados. Resultado: com o berro do deputado no pé do ouvido deles, todos se assustaram. E se assustaram ainda mais quando viraram para trás e viram um sujeito enfurnado num terno preto com a cara toda pinicada de papel higiênico acenando para eles.

- SÃO VOCÊS QUE VÃO FAZER NOSSA CAMPANHA, NÃO É? OS ARTISTAS! FICAM AÍ VIAJANDO E DEPOIS COMEÇAM A TER IDÉIAS MIRABOLANTES! PARABÉNS PELO TRABALHO, VIU? PARABÉNS! – o deputado continuou sua gritaria enquanto o pessoal da criação olhava atônito pra ele, sem entender quem era o louco.

Despediu-se de nós e saiu escoltado por seus assessores. Orgulhoso, disse que iria direto ao Palácio de Ondina encontrar o governador. Segurei a risada de novo. Será que dessa vez o pessoal do seu gabinete iria avisá-lo para que ele fosse poupado de constrangimento maior? Ou o deixariam passar algumas de suas bolinhas de papel para o rosto da primeira-dama quando o deputado a cumprimentasse? Mas, anotem aí: enxugar o rosto com o papel que limpa o bumbum às vésperas da campanha dá sorte, já virou simpatia. O deputado higiênico foi reeleito.

Terça-feira, Maio 12, 2009

Brevíssima vida e morte de um metrossexual e suas lamentáveis conseqüências.


Se uma pessoa em cada país tivesse metade da rebeldia que tem o meu cabelo, o mundo estaria perdido. O planeta, cheio de terroristas, viveria em constante guerra; batalhas seriam travadas a cada minuto. Assim como as batalhas que travo diariamente com o pente em punho.

Buscando acomodar os fios em fúria que habitam meu couro cabeludo, já tentei tudo quanto foi corte: “V.O.” ou o famoso “cuia”, bem curto, mullet ou pega-rapaz de Chitãozinho e Xororó, topete, moicano quando passei no vestibular e até mesmo cabelo comprido na fase adolescente-fã-do-Ramones. Vale ressaltar que esta última não foi a melhor das minhas idéias, fiquei a cara de Gal Costa.

O corte que mais me adaptei até hoje é o atual. Com ele, o cabelo fica meio grande, as pontas cacheiam um pouco e o peso dos fios acaba assentando a juba. É meio retrô, meio anos 70, mas é o único que não me faz sentir ridículo. Além do que, num particular dia de sorte, já assoviaram pra mim na rua e me chamaram de anjo barroco. Portanto, já está valendo. Esse é o corte.

Mas, certo dia, sem causa aparente, a cabeleira começou a ficar extremamente ressecada. Os fios pareciam não se entender, a textura ficou áspera, eu nunca conseguia penteá-los e comecei a temer que a alcunha de anjo barroco acabasse dando lugar mais uma vez à cantora da Tropicália. Procurei Rodriguez, o sujeito que corta meu cabelo. (Não pega bem chamar de cabeleireiro).

- Rodriguez, tô preocupado, meu cabelo tá uma palha. Dê uma olhada aí, por favor.

- É, Pedro, realmente... está bastante ressecado. Que xampu você está usando? – perguntou Rodriguez enquanto analisava minuciosamente os fios de arame em minha cabeça.

- Acho que é Pantene 2 em 1. – respondi, puxando pela memória.

- Então troque. Use um xampu e um condicionador. Caso não melhore você vai precisar fazer uma hidratação. – sentenciou Rodriguez.

- Hidratação? Tá doido? Vou ficar aqui no salão com uma touca na cabeça?

Rodriguez respondeu sorrindo:

- Relaxe, Pedro. Hoje em dia tem alguns produtos que a gente aplica no cabelo e só massageia. Daí lava e pronto. Não precisa colocar a touca.

- Tudo bem. Vou mudar o xampu e, se não der resultado, fazemos o que você disse. – respondi resignado.

Fiz exatamente o que Rodriguez mandou. Fui até uma farmácia e comecei a procurar na prateleira novos produtos que pudessem resolver meu problema. Dei prioridade aos frascos mais bonitos, com formatos diferenciados e mais caros. Que outro critério eu teria? Todos falavam de aloe vera, maciez, reparação intensa e profunda, toque aveludado e outros detalhes pouco masculinos do gênero.

Depois de tirar onda de boiola na fila do caixa com tanto cosmético na mão, voltei pra casa, tomei um banho e já substituí o antigo e pouco sofisticado 2 em 1 pelos novos e extorsivos produtos. Agora entendo porque mulher gasta tanto dinheiro. Tomara que Deus me dê uma esposa de cabelo bom. Aliás, ainda assim ela vai gastar tempo e dinheiro nos salões da vida, aposto.

Apesar de sentir uma grande diferença na própria textura do produto e também perceber meu cabelo bem mais liso durante o banho, quando saí do chuveiro e os fios secaram, a esponja de aço reapareceu em minha cabeça. Pensei: normal, deve melhorar daqui a uma semana usando tudo direitinho.

Uma semana se passou e nem sinal da maciez intensa. Duas semanas se passaram e nada do toque aveludado. O desespero me levou de volta ao salão de Rodriguez. Desta vez, com um boné na cabeça.

- Boa noite, Rodriguez tá aí? – perguntei no balcão.

- Ele não veio hoje, está adoentado. – respondeu a atendente. E completou – será que algum outro cabeleireiro poderia te ajudar?

Pensei em dizer que não e ir embora pra casa. Já não bastava o constrangimento de fazer hidratação, ainda tinha que ser com um desconhecido? Mas o cabelo já tinha chegado no limite: mais um fim de semana e eu viraria rastafari.

- Preciso fazer uma hidratação. – sussurrei.

- Hein? – perguntou a mulher.

- Eu preciso fazer... – diminuí o tom de voz - ... uma hidratação.

- Uma hidratação normal ou uma hidratação profunda? – berrou a atendente.

- Qualquer uma. – sussurrei de novo.

- Maicon! Este rapaz vai fazer uma hidratação com você. – o grito da infeliz atravessou o salão de beleza.

Maicon, um sujeito andrógino, meio homem, meio mulher, com um cachecol vermelho sangue em pleno calor da Bahia, cabelos arrepiados e descoloridos, me conduziu até a cadeira de lavagem. Tirei o boné e sentei. Enquanto massageava os fios, Maicon desmunhecou enquanto revirava os olhos:

- Me-ni-noooo.... que cabelo duuuuuuuuuro!

Quase que eu respondo: “- nesse caso é só o cabelo, amigo. Nem se anime”. Mas acabei respondendo:

- É por isso que eu tô aqui.

- Não se pre-o-cu-pe... vamos dar um jeito nisso. – disse Maicon, já aplicando um produto e, para meu desconforto, continuando uma espécie de cafuné feito por mãos masculinas. Se é que masculino seria o gênero mais apropriado para qualificar Maicon.

Àquela altura, muitos eram os olhares lançados sobre mim e Maicon. O salão estava repleto de mulheres fazendo as unhas, os cabelos, preparando-se para o final de semana. E eu ali, constrangido, fazendo parte do mesmo contexto que elas.

- Pronto. Agora vamos para a cadeira. – disse o cabeleireiro (esse sim é cabeleireiro) enquanto ajeitava a toalha branca sobre meus ombros.

Eis que, para minha surpresa, Maicon abre uma gaveta e retira de seu interior uma touca prateada, grande, reluzente, parecia um artefato alienígena. Sem graça, cercado de gente, perguntei em voz baixa:

- É necessário usar isso?

- Claaaaaaaro...! É isso que dá a reação química que vai deixar seu cabelo macio, sedoso, vai abrir o brilho... – e, entre um remelexo e outro, Maicon colocou a touca em minha cabeça.

Ao olhar no espelho, deparei-me com uma cena ridícula: o ser andrógino agora era eu. Jamais poderia imaginar que um dia eu pudesse ficar parecido com Dona Benta do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

- Agora é só aguardar 30 minutinhos. Volto já. – disse o cruzamento híbrido de David Bowie com Freddie Mercury enquanto sumia rebolativo pelo salão.

A vontade de tirar aquela touca e fugir com meu cabelo duro pra casa era grande. Mas, eu queria chamar a menor atenção possível. Desejava apagar ali e só acordar quando tudo terminasse. A única forma que encontrei de amenizar o constrangimento foi pegar uma Contigo que estava no balcão ao lado, abri-la no meio, erguê-la até a altura da cabeça e fingir que estava lendo a revista. Fiquei assim por meia hora. Sem passar a página.

Eu já sentia espasmos nos braços quando Maicon resolveu voltar. Retirou a touca e me levou para enxaguar o cabelo. O silêncio que agora fazia o sujeito e também a falta do trambolho em minha cabeça fez-me experimentar uma confortante sensação de alívio. Parecia que ninguém mais reparava que eu estava ali. Até que passou uma chamada da novela na televisão e o moçoilo resolveu dar um chilique:

- Cauã! Cauã! Que ser ma-ra-vi-lho-so... vixe, olhe o meu braço. Me arrepiei. – disse Maicon chamando mais uma vez a atenção para ele. E para mim.

As mulheres riram, alguns cochichos foram trocados e eu voltei para a cadeira em frente ao espelho. Imaginei que meu cabelo seria penteado e eu iria embora com o problema resolvido. Mas, não: Maicon retirou a touca da gaveta de novo e foi colocando em minha cabeça. Segurei seu braço impedindo o ato e perguntei:

- Peraí. De novo?

Demonstrando possuir um resquício de testosterona no corpo, Maicon forçou o braço pra baixo e logo eu me tornava Dona Benta mais uma vez.

- De novo sim! Senão a reação química não é finalizada. – e completou num irritante tom didático – Aí, você vai ter jogado fora o seu dinheiro e o pior de tudo: eu vou ter jogado fora o meu trabalho.

- Mais quanto tempo com isso? Mais meia hora eu não fico. Tenho que ir pra casa. – perguntei, já disposto a abandonar tudo aquilo e montar uma banda de reggae ou tocar no Ilê-Ayê.

- Só 10 minutinhos. Que homem agoniado, meu Deus! – respondeu o desaforado Maicon.

Resolvi que era melhor não discutir mais nada, que quanto mais resiliente eu fosse, menos chances de repuxos afetados do cabeleireiro e menos olhares sarcásticos lançados em minha direção.

Eu e a Contigo cumprimos os 10 longos minutos. Fui ao caixa, paguei, dei um aceno de longe para Maicon e abri a porta de vidro com uma satisfação que poucas vezes eu tive ao deixar um lugar.

No dia seguinte, liguei para o celular do dono do estabelecimento.

- ... pois então, Rodriguez, o cara colocou uma touca prateada em minha cabeça por duas vezes seguidas com o salão cheio de gente. Você me disse que era só uma massagem no cabelo e pronto. Se eu soubesse disso não teria feito essa hidratação. – falei chateado, com a propriedade de quem já é cliente há 12 anos.

Entre consternadas desculpas, Rodriguez disse não ter entendido o porquê da utilização da touca. Cerca de 15 dias depois, retornei ao salão para cortar cabelo. Ao pisar os pés no lugar, um grito chamou a atenção da numerosa clientela:

- Me-ni-no! Quer que eu perca o emprego, é? Foi se queixar com Seu Rodriguez da minha hidratação profunda! – exasperou-se Maicon, com as mãos na cintura e um dos pés batendo rapidamente no chão.

Calado, fui até a cadeira de Rodriguez. Desta vez, cortei o cabelo folheando uma Playboy sem nenhum constrangimento. Por dois motivos: para não deixar dúvidas a quem quer que seja sobre minha masculinidade e porque Maicon, de maneira muito bem-sucedida, conseguiu finalizar minha cota de constrangimento dentro de um salão de beleza.

Quinta-feira, Abril 23, 2009

Os três canhões do Forte de Santa Maria da Barra.


- ... e então o ônibus lotado com as mulheres mais lindas que eu já vi emparelhou com meu carro e as meninas todas com a cabeça de fora gritando números de telefones pra mim!

Eu posso ter um monte de defeitos nessa vida, mas um traço de personalidade que considero uma grande qualidade é o meu ceticismo. É bem difícil eu me iludir com alguma coisa. Quando Shell me veio, esfuziante, com essa história do ônibus cheio de mulher, logo imaginei que havia alguma coisa errada. Laranja madura na beira da estrada...

Gesticulando eufórico, ele continuou:

- Então consegui anotar dois celulares. Liguei pra elas e descobri que são estudantes de enfermagem de Belo Horizonte e estão aqui num congresso. São lindas! Maravilhosas!

Eu realmente não acreditava na história. Mas, paralelamente, tentava imaginar que motivos esdrúxulos teriam feito as supostas lindas meninas agirem daquele jeito. Extrema carência por falta de homem no curso de enfermagem? O clássico assanhamento que costuma afligir meninas que visitam a Bahia? Psicose coletiva? Ou simplesmente teriam sido os feromônios de Shell?

- Elas disseram que amanhã vão tomar sol na praia do Porto da Barra. São três garotas. Eu falei que iria aparecer lá com mais dois amigos: você e Donono. – disse Shell, já me incluindo no bolo.

Era o início do verão de 2006, a cidade começava a fervilhar, eu estava solteiro e seguia uma máxima do próprio Shell: “quem tem amigo não se governa”. Portanto, sempre acabava entrando nas barcas desse sujeito. Confesso que era divertido, nossas saídas costumavam render boas histórias. Histórias como esta.

- Ok, Shell. Eu vou. Mesmo sabendo que é furada, eu vou. - respondi, comungando com a maluquice.

Apenas comuniquei a empreitada a Donono que, imbuído do nosso mesmo espírito de barco à deriva ao sabor do vento, topou na hora. Fomos eu e Shell no seu carro e Donono iria mais tarde encontrar a gente.

Era fim da manhã quando, ainda no caminho para as encontrarmos, Shell, empolgado, resolveu ligar para o celular das meninas.

- Oi, Fulana! Aqui é Shell, tudo bem? Vocês já estão na praia? Nós estamos chegando aí... – e, para meu desespero, completou – hoje à tarde vocês vão fazer o quê? Querem ir num aniversário com a gente? E hoje à noite? Querem ir numa festa?

Fiquei gesticulando, abrindo e fechando os dois dedos como tesoura, pedindo para que ele cortasse a conversa, para que parasse de fazer sucessivos convites às meninas. Assim que ele desligou, o repreendi:

- Shell, me diga uma coisa: e se essas meninas forem horrorosas? Vamos acabar ficando o dia e a noite presos a elas. Quer que a gente perca o fim de semana? Que doideira...

O rapaz retrucou:

- Filho, fique frio. São gatas, tô te dizendo... pelo menos de rosto, são!

Meu 6º sentido, 7º e 8º diziam que a gente ia se dar mal. Resolvi que não ia entrar de peito aberto nesse balaio de gato:

- Vamos fazer o seguinte: quando a gente chegar lá, você se esconde e liga pra elas. Eu vou para a balaustrada e, disfarçadamente, fico olhando para ver se encontro três meninas com uma delas falando no telefone. Se forem bonitas, faço um sinal pra você, você aparece e a gente desce até a praia. Caso contrário, amigo, pé na tábua. Fechado?

- Fechado.

Estacionamos o carro e fizemos o combinado: Shell ficou atrás de uma árvore fazendo a ligação e eu, com os dois braços apoiados sobre a balaustrada, fiquei fazendo cara de quem tava vendo o tempo passar.

De lá de cima, meus olhos percorriam avidamente a praia inteira. Ela estava lotada, guarda-sóis atrapalhavam um pouco a minha visão. De repente, avistei três garotas de bruços tomando sol na areia. Seus biquínis eram daqueles pequenos, que somem no bumbum de forma que você não consegue reconhecer sequer a cor deles – coisa de 3 centímetros quadrados de pano. Louvado seja Shell!

Meu amigo, ridiculamente escondido atrás de uma árvore no meio do calçadão, fez um sinal pra mim de que o telefone já estaria chamando. Eu precisava ficar atento para localizar a menina que atenderia o celular. Olhei fixamente para as três beldades deitadas na areia. Nenhuma delas se mexeu para atender qualquer telefone.

Após um “alô”, Shell fez um sinal mais brusco para mim. Agora era para eu achar uma menina na praia com o celular no ouvido. Meu comparsa pedia dicas à garota: como é o sombreiro de vocês? Qual a cor do seu biquíni? Loira? Morena? E ia me sinalizando as respostas enquanto tampava o telefone.

- Você tá de canga amarela floral comprida? – perguntou Shell enquanto tirava o rosto de trás da árvore e me lançava um olhar de estranhamento.

Devolvi um olhar pior que o dele. Meus olhos falavam: “eu não disse?”. Uma mulher de canga amarela floral comprida era a dica que a gente precisava pra abortar a missão ali mesmo, naquele minuto. Mas não. Shell ainda não estava convencido. Iludia-se, queria arriscar tudo como um jogador de pôquer que aposta todas as fichas com um par de duques nas mãos.

Procurei a tal canga amarela floral comprida com certo desespero. Àquela altura, com o objetivo de fazer uma rápida varredura, minha cabeça ia de um lado a outro rapidamente, como se eu estivesse dando sucessivos “nãos”. Freud explica.

Foi então, amigos, que uma visão não tão bela quanto a praia do Porto da Barra descortinou-se diante de meus olhos: uma canga amarelo-ouro tentava esconder um bujão de gás em plena praia. A definição era exatamente essa, um bujão de canga amarela e comprida com um celular no ouvido.

Como se já não bastasse uma, com cangas e corpos ainda maiores, apareceram mais duas logo atrás da puxadora da fila. Com pisadas lentas mas decididas, elas iam vencendo a areia fofa, avançando e olhando em minha direção. Calma, Pedro, só pode ser impressão sua, por que elas olhariam pra você? De repente, a protagonista daquele filme de terror deu tchau pra mim. Como pode?! Então, veio a desesperadora resposta: Shell, inexplicavelmente, havia saído de trás da árvore e estava ao meu lado, acenando para as meninas.

- Pirou?! – perguntei atônito.

Sem graça, Shell deu de ombros.

- Negão, sinto muito, vou me mandar daqui. Fui! – disse eu, ao tempo que empurrava a balaustrada na esperança de tomar ainda mais impulso pra corrida.

- Espere! Espere! – Shell tentou segurar meu braço.

Consegui me desvencilhar, atravessei a rua correndo, quase fui atropelado. Chegando ao outro lado da pista, ainda ouvia Shell gritando. Quando ele se viu sozinho e provavelmente imaginou sua tarde e noite de sábado esvaindo-se com as três figuras, pôs-se também a correr atrás de mim. Virando a esquina, passei lotado por Donono que estava indo ao nosso encontro. Ao ver-nos correndo, nosso amigo tomou um susto:

- É assalto?!

- Não, é pior. Corra. Depois te explico.

Obediente, Donono nos acompanhou. Chegamos no carro e, ofegante, soltei os cachorros em cima de Shell. Ele merecia ser internado por sair de trás da árvore! Seu celular tocou.

- E agora? DDD de Belo Horizonte... – disse ele, paralisado com o telefone na mão.

- Não atenda! – respondi enquanto tentava tomar o celular de sua mão.

- O que está acontecendo?! – perguntava o surpreso Donono.

- Eu vou atender sim, é sacanagem da nossa parte. - respondeu o consciente Shell.

- Sacanagem é você colocar a gente nessa situação... – repliquei.

- O que está acontecendo?!?! – perseverou Donono.

- Alô... é, eu sei... desculpe, é que a gente estacionou em local proibido e estavam multando... tivemos que correr... isso, isso... vocês vão ficar no calçadão esperando a gente passar com o carro?! – Shell fez uma cara de espanto – ok, ok... então esperem aí. Beijo...

- E agora, vocês vão me dizer o que está acontecendo?! – disse Donono, impaciente.

Expliquei a ele todo o imbróglio causado por Shell, culminando num cooper forçado de três marmanjos no calçadão da Barra. Fiz questão de detalhar a visão que até hoje permeia alguns pesadelos meus.

- Espere aí. Isso só pode ser exagero. Ninguém com o corpo assim vai à praia... – cauteloso, Donono me repreendeu. E continuou – elas não estão no calçadão? Vamos passar de carro para olhar melhor.

Não havia outra solução mesmo, o fluxo da rua nos obrigaria a margear a praia. Calei-me. Seguindo nosso curso, nos deparamos com as três e suas respectivas cangas furta-cores, fartas em tecido, fartíssimas em recheio, esperando ansiosas em pé no calçadão.

- Eis as amigas de Shell... – fiz um indicativo sinal de rosto.

[Pequena pausa]

- Acelera!!! Acelera!!! – gritou Donono enquanto batia com as mãos fechadas no banco do carro.

E foi assim que, mesmo apontando pra nós, os três calibrosos canhões do forte do Porto, graças aos céus, não dispararam fogo aquele dia.


Sexta-feira, Abril 10, 2009

Meu melhor amigo.

Só por hoje, vou abrir mão do humor que costuma aparecer nestas crônicas para falar um pouco do meu melhor amigo.

O conheci em meio a turbulências nos meus 18 anos. Um avô de consideração me apresentou a ele. No início, a aproximação foi lenta, desconfiada, encarei suas tão propagadas qualidades com muito ceticismo.

Logo depois, o conheci de verdade. Soube de minúcias de sua história, sua fé, filosofia e suas intenções de mudar o mundo. Minha admiração por ele era algo que crescia dia após dia. Em pouco tempo, ele se tornou o meu melhor amigo.

Foi ele quem me mostrou que o meu maior patrimônio são minha família e os meus amigos; que um carro bacana ou retalhos de papéis cifrados são bens insignificantes sem estas verdadeiras riquezas.

Foi ele quem me ensinou que eu não sou superior a ninguém, mas posso ser alguém melhor a cada dia.

Foi ele quem sugeriu que eu perdoasse de coração a quem um dia faltou comigo, mesmo que esta pessoa jamais me pedisse perdão; e que eu também tivesse nobreza de espírito para pedir perdão quando a minha fraqueza humana ofendesse alguém.

Foi ele quem me pediu para que eu jamais desviasse meu olhar de um necessitado.

Foi ele quem me falou que eu não devo julgar ninguém. Porque, com a mesma medida que eu julgasse, um dia também seria julgado.

Foi ele quem me atestou que Deus existe; e que, não importam as pedras e espinhos que encontramos pela frente, o destino final é sempre perfeito.

Foi ele quem me disse que todas as pessoas que me circundam são verdadeiras bênçãos em minha vida. Mesmo meus inimigos.

Acredite: este meu amigo mudou a minha vida e seria capaz de morrer por mim. E me perdoaria de todo o coração e continuaria me amando se um dia o meu fraco espírito me impedisse de fazer o mesmo por ele: perecer numa cruz para salvar um grande amigo.

Meu eterno amigo também pode ser o seu. Todos os dias ele aguarda diante da sua casa. Espera pacientemente o dia que você abrirá a porta.

Se um dia isso acontecer, ele vai fazer da sua vida o que ela foi criada pra ser: um verdadeiro milagre.

Feliz Páscoa.

Segunda-feira, Março 30, 2009

Para combater um suposto sogro furioso, um tio cara de pau.

Acredito que agora eu já posso contar essa história. O crime já prescreveu. Mas, se eu for preso, um de vocês vai me visitar levando um bolo com um notebook escondido no recheio. Aí prometo que vou ter mais tempo para atualizar o blog. Será que em cela especial tem wireless? Ainda bem que eu terminei a faculdade e tenho meus privilégios.

Bom, nos gloriosos idos dos meus 20 anos, meus amigos me presentearam com o agradável apelido de “Pedrófilo”. Tudo porque eu arrumava umas paqueras mais novas que eu. Coisa pouca, só uns 6 anos de diferença. Mas tenho uma teoria pra isso ter acontecido com certa freqüência: compatibilidade de maturidade. Eu falava tanta bobagem, mas tanta bobagem, que só agradava mesmo as bem novinhas - e olhe lá. Enfim, foi um desses romances infanto-juvenis que acabou rendendo este post e quase um mandado de prisão.

Na época em que eu tocava em banda, sempre era contemplado com belíssimas visões de cima do palco. Mariana era uma delas. Com certa freqüência, ela aparecia em nossos shows e sua presença fazia a alegria de todos os músicos. Muitos acordes errados e solos fora de hora, algo não muito raro no Queima Samba, devem ter tido a sua contribuição. Seus olhos verdes e cabelos loiros logo lhe renderam um apelido entre nós, tarados de plantão: Sheila Melo.

E o pior – ou melhor – é que ela realmente parecia com a espetaculosa dançarina do Tchan. Com uma diferença: tinha apenas 15 anos, desabrochava em sua adolescência. Mas Pedroca, cheio de razão e com parcos 18 pra 19 aninhos, não podia deixar a oportunidade passar. A banda não duraria pra sempre e, junto com ela, findaria também a aura que envolve uma estrela do pagode do meu naipe. Além disso, quando ela ficasse um pouco mais velha e perdesse o frescor da inocência de uma debutante, seria difícil ela cair no meu papo fraco. Portanto, resolvi comprar briga com o resto da banda e investir na mocinha.

Apesar da pouca idade, Mariana era uma excelente companhia. Comunicativa, simpática, riso fácil e astral contagiante eram algumas das suas qualidades que me atraiam. Claro, fora os olhos verdes e as longas madeixas douradas. Afinal, não sou decorador pra prestar atenção só na beleza interior.

Um belo dia, recebo uma ligação no meio de uma tarde de domingo. Era Mariana:

- Oi Peu!

- Oi Mari! Tudo bem?

- Tudo tranqüilo. Tá fazendo o que? – perguntou minha paquera.

- Nada, tô de bobeira... – respondi deixando espaço para uma possível proposta.

- Eu tô aqui na frente do ensaio da Timbalada, mas não tô a fim de entrar. Quer fazer alguma coisa?

Bingo.

- Quero sim. Vamos ver um filme aqui em casa? – perguntei na esperança de trocar a bizarra companhia de Faustão e Gugu pela doce presença de Maricota.

- Legal. Você me pega aqui?

- Pego sim. Tô saindo de casa. Beijo!

Tomei um banho para vencer a inércia que me mantinha prostrado na cama e fui ao encontro de Mari.

Eu estava sozinho em casa. Mas, antes que você me julgue um criminoso, adianto que o convite incluía apenas um filminho, pipoca de microondas com coca-cola e uma caixa de Bis. Nada mais.

Chegamos em casa, nos acomodamos confortavelmente e começamos a assistir o filme. De repente, meu telefone tocou. Apesar de ser o início da moderníssima era do celular com identificador de chamada, não reconheci o número. Mesmo assim, achei por bem atender:

- Alô?

- Chame Mariana. – respondeu do outro lado uma seca e taxativa voz masculina.

Após uma pequena pausa, como quem recebe a notícia de uma tragédia, tirei o telefone do ouvido, tampei com a mão o microfone e falei:

- Mari, é pra você.

- Pra mim?! – perguntou a garota, com perplexidade e terror em seus lindos olhos verdes.

- Acho que é seu pai. – respondi tentando esconder meu nervosismo.

- Meu pai?! – perguntou de novo Mari, agora completamente apavorada.

- Acho que é, Mari. Atende logo! – respondi enquanto estendia o braço com o telefone em sua direção.

- Não! Fala você! – disse a garota, num surto de desespero que incluía um abraço forte no travesseiro e um empurrão em minha mão segurando o telefone.

- Eu?! Tá doida? Vou falar o que com seu pai? Atende logo esse telefone, Mariana!

- Não, não... – respondeu ela num início de choro.

- Mariana! Vai ser pior. Fala logo! – disse eu, enfático, enquanto dirigia o telefone até seu ouvido.

- Alô... pai?

Enquanto ouvia o velho cuspindo fogo do outro lado da linha, Mariana apertava os olhos e o travesseiro e choramingava ainda mais.

- É que... não quis... na porta da Timbalada... a gente só está assistindo filme, pai... Pedro é um amigo meu... – a pobre coitada tentava se explicar, mas o pai, possesso, parecia interrompê-la segundo após segundo.

Mari desligou o telefone e pôs-se a chorar copiosamente. Tentei acalmá-la e logo depois procurei saber o que havia acontecido. Soluçando, ela contou que o pai ligou para uma amiga que estaria com ela e a garota disse que Mariana não tinha entrado na festa. O pai então apertou a garota até descobrir com quem ela estava. Sabendo meu nome, foi só procurar na agenda de minha paquera o meu telefone. E a confusão estava formada.

- Ele falou mais o que, Mari? – perguntei querendo saber o que iria sobrar pra mim.

- Ele disse que era pra eu descer agora que ele está vindo me buscar.

- Então é melhor você descer, Mari. – disse eu, um pouco mais aliviado.

- Não! Você vai descer comigo! – delirou Mariana.

- Pirou, menina?

- Vai descer sim! Eu não vou descer só! – disse ela e então caiu novamente no choro.

Enquanto Mari se desfazia em lágrimas e soluços, fiquei me perguntando por que eu tinha me metido naquela situação. Por quê? Agora eu estava ali tendo que administrar uma garota chorando sem parar e um pai furioso indo ao meu encontro. Eu precisava pensar rápido, não dava pra descer simplesmente e dizer pro coroa “oi, prazer, toma aí sua filha de volta. Ela está intacta, viu? Tchau”.

Pensa, Pedro, pensa que o homem está chegando. Já sei! Quem é o maior expert em apagar os incêndios que costumam aparecer em meus caminhos? Ele mesmo: Tio Fulano. Corri para o telefone e liguei para sua casa:

- Meu tio, me ajude.

- O que foi, “meu tio”? – respondeu ele com voz típica dos sonos de sofás de domingo.

- Eu trouxe uma paquera aqui pra casa, o pai dela descobriu e está vindo pra cá. Só que ela está insistindo pra eu descer e falar com o sujeito... por favor, desça comigo meu tio. – disse eu com súplica na voz.

Tio Fulano morava em meu prédio. Era meu vizinho de porta. Uma dessas sortes que a gente conta nos dedos as vezes que acontecem ao longo da vida. Com seu espírito de general do exército da salvação e sua objetividade de sempre, Tio Fulano me tranqüilizou:

- Te encontro lá embaixo em 5 minutos.

Peguei mais lenços de papel para Mari. A coitada não parava de chorar. Comecei a achar que o pai dela era um sujeito violento. Só podia ser! Para ela querer que eu descesse junto, devia ser para tentar evitar uma surra. Ou pra dividi-la comigo.

Chegamos no playground e Tio Fulano já estava lá. Com sua típica camiseta branca de ficar em casa, bermuda e chinelos. Sereno, ele parecia já ter o problema resolvido na cabeça. Eu e Mari nos aproximamos dele com cara de velório e eu a apresentei. Ele olhou pra mim reprovativo. Após algum tempo, ainda que de forma tímida, quebrei o silêncio fúnebre da cena:

- Meu tio, você vai dizer o que pro pai dela?

Com os olhos cerrados e a clássica palma da mão voltada para mim, ele me respondeu sem dizer nada. Era mais um “deixe comigo”. Após uma espera angustiante, chegou diante de nós o tão aguardado carro. Imediatamente, o semblante introspectivo de Tio Fulano deu lugar a um largo sorriso e ele partiu a passos rápidos em direção ao pai de Mari que deixava o automóvel com cara de poucos amigos. Com os braços abertos, gesto típico do bom anfitrião, meu tio desandou a falar com seu tom de voz alto:

- Olá! Tudo bem? Meu nome é Fulano, sou tio de Pedro. Prazer!

Mari tinha razão de estar tão preocupada: seu pai simplesmente ignorava as boas-vindas de Tio Fulano e, parado diante da porta, fazia um frio e aterrorizante sinal com o dedo para que ela entrasse no carro. Tio Fulano perseverava:

- Fique tranqüilo, estávamos eu, Pedro e Mariana lá na sala assistindo filme. “Sociedade dos Poetas Mortos”, um belo filme por sinal.

Ao passar pelo pai, deu pra ver minha paquerinha engolindo em seco. Silenciosamente, ela entrou no carro. E meu tio deu o golpe de misericórdia:

- Sua filha é um doce. – e, com a cara mais lavada do mundo, ainda completou – Traga ela aqui mais vezes.

O pai de Mariana estava realmente puto da vida. Mas, àquela altura, o alvo de tanta chateação era somente sua filha. Afinal, fora ela que havia lhe dito que iria a uma festa e foi parar em outro lugar. Graças aos céus, ao final da ladainha de Tio Fulano, nosso visitante parecia estar convencido de toda a história. Cumprimentou respeitosamente o grande ator do dia, me ignorou e levou Maricota embora.

Subimos juntos o elevador. Já aliviado de toda aquela tensão, agradeci ao meu salvador:

- Meu tio, essa foi por pouco. Muito obrigado.

Objetivo, talvez louco para entrar em casa a tempo de assistir as Vídeo-Cassetadas, ele respondeu:

- Você me deve mais uma, “meu tio”.

Tio Fulano tinha razão. Minhas dívidas com ele estavam acumulando. Se eu começasse a pagar tudo agora, só terminaria na próxima encarnação. E, caso não fosse ele me ajudando mais uma vez, por conta da ira deste pai, eu poderia ter conhecido precocemente essa próxima encarnação. Quem não se safou foi Mari. Sua sentença: um mês de castigo sem sair de casa.

Hoje, mais de 10 anos depois, apesar de não morarmos mais na mesma cidade, eu e Maricota somos grandes amigos. Vez ou outra lembramos desse episódio e nos divertimos bastante.

Ah, falando em lembrar, lembram que em um desses posts eu disse que jamais deixarei minha filha ir num ensaio do Harém? Pois bem, fica registrado que o mesmo vale para um ensaio da Timbalada.

Sábado, Março 07, 2009

Meu carnaval. (Em poucos, curtos e suficientes capítulos).

Sinceramente, não sei nem como começar. Até porque, estou aqui em casa de cama, com febre, o corpo todo dolorido, a cabeça explodindo. Sim, é a tal gripe ou virose que costuma aplacar os súditos de Momo após a quarta-feira de cinzas. Se eu soubesse que este seria o alto preço a ser pago em troca da folia, acho que teria passado o carnaval bem longe da avenida. Aliás, retiro o que disse.

Octávio Mangabeira, ex-governador de minha terra, um dia proferiu esta célebre frase: “pense num absurdo. Na Bahia tem precedente”. Se este raciocínio é pertinente, imagine a dimensão que ele ganha durante o carnaval. Tudo o que eu queria era poder ter levado uma câmera para filmar as cenas inusitadas que presenciei durante os 6 dias de festa. (Sim, aqui na Bahia o carnaval dura 6 dias. Para uns, até 7).

Apesar de ser baiano, essa é a primeira vez que passo um carnaval inteiro aqui em Salvador. Eu explico. Primeiro, porque eu não bebia; segundo, porque não sou muito fã de aglomerações; terceiro, porque eu gosto manter as unhas dos meus pés em seus respectivos lugares; quarto, porque eu sempre acreditei que namoro e carnaval é uma combinação explosiva e meus namoros costumavam coincidir com o verão.

Mas, o motivo dessa rejeição foi detectada: faltava álcool na minha festa. Durante estes últimos dias, esta era a minha gradação alcoólica: até 1 dose = “quero ir pra casa assistir Zorra Total”. 2 doses = “até que este bloco é legal”. A partir de 3 doses = “vamos dar outra volta no trio!”. Portanto, o negócio era beber. Beber, observar e, agora, descrever.

O TAXISTA E SUA LICENÇA POÉTICA.

Costumam dizer que no carnaval tudo é permitido. Em nosso iniciozinho de folia, ratificamos esta teoria: eu e Roger estávamos dentro de um táxi para irmos até a Barra, de onde nosso bloco iria sair. Ao dobrarmos uma rua que era mão única, vimos um carro subindo na contra-mão. Havia um outro táxi em nossa frente que começou a buzinar e dar luz alta freneticamente para o carro que vinha em sentido contrário.

- Que sacana... – indignou-se o taxista.

Eu e Roger concordamos na mesma hora:

- Um absurdo! Como é que o cara dá uma contra-mão dessa?

- Eu tô falando é do colega aqui da frente... como é que ele não dá ré pro cara passar? – disse o taxista, tranqüilamente. E, com um gingado na voz, num tom que eu julgaria deboche caso não fosse eu também baiano, completou - é carnaval...!

Eu e meu amigo rimos. Como a gente ainda não tinha percebido? A porteira estava aberta para todo tipo de loucura: era carnaval.

COMO “DERRUBAR” UMA GAROTA. (TAMBÉM SEM ASPAS).

Já no bloco, lá pras tantas, encontrei Beltrano, um grande amigo meu de infância. Ele olhava rapidamente de um lado a outro, como se procurasse incessantemente por alguma coisa.

- Beltrano! – o saudei.

- Pedrão! Tô em aaaaaaaaalta...! (tradução: estou bêbado).

- Percebi, moreno...

- Já derrubou quantas aqui? (tradução: já ficou com quantas aqui?).

Antes que eu pudesse responder “nenhuma”, apareceu uma menina na minha frente cambaleando. Eu já tinha visto ela outras vezes, seu estado era lastimável e ela escolhia um cara e ficava parada o encarando até que ele a beijasse. Dessa vez, fui eu o escolhido: a garota ficou me olhando com uma cara de quem ia vomitar em cima de mim a qualquer instante. Beltrano perguntou:

- Você conhece ela?

- Nunca vi...

Imediatamente, o rapaz deu uma chave de braço no pescoço da garota seguido de um daqueles beijos de carnaval que a língua vai do queixo à testa. A alcoolizada, que mal se sustentava em pé, começou a andar rapidamente pra trás, como se fosse cair. Para não ir ao chão junto, Beltrano, sem parar de beijar, segurou firme no meu abadá. Desequilibrei-me e fomos os três catando ficha, num balé ridículo, correndo de costas, os dois se beijando e eu, sem ter nada a ver com a história, grudado neles. Quando estávamos quase sendo vencidos pela gravidade, Beltrano soltou a garota que automaticamente foi ao chão.

- Essa aí tá pior que eu, vamos nessa... – disse meu amigo, enquanto me puxava pelo braço e ignorava a menina repousando no asfalto.

O TAXISTA TINHA RAZÃO. MAIS UMA VEZ.

No dia seguinte encontrei um outro grande amigo no posto de gasolina.

- Diegão! E esse carnaval?

- Qualé Pedrão! Rapaz, nem me fale... que ressaca... – respondeu Diego com uma voz que dava sentido à sua frase.

- Ah, encontrei sua ex-namorada no bloco ontem!

- Massa! E aí, “garrou”? – disse ele, com muita naturalidade.

Tomei um susto. Mas, logo lembrei do sábio taxista e suas palavras de luz: “é carnaval...!”.

GARÇONS: GUARDIÕES DE MIM.

Eu que não bebia pra valer, descobri uma coisa sensacional. Quando bebo, me torno um cara muito gente boa. Faço amizade com todo mundo, acabo conhecendo a festa toda. Inclusive os garçons, serventes, enfim, o pessoal dos bastidores. Foi o que aconteceu no camarote do Harém: eu só saía de perto de um garçom ou garçonete para ir conversar com outro deles. Logo, eu estava recebendo tratamento de rei – e, consequentemente, ficando mais bêbado e mais sociável. Acabei saindo de lá pela manhã, quando fizeram um cordão humano para expulsar os últimos convidados, cerca de umas 8 pessoas, incluindo eu. Ao descer a rampa que dava acesso à rua, encontrei com os garçons e garçonetes, já vestidos para irem pra casa. Dei um abraço coletivo em todo mundo.

- Você tá indo pra onde? – perguntou-me um deles.

- Pra Graça. – respondi.

- Estamos indo pra Barra, mas vamos deixar você primeiro na Graça então. – disse meu novo amigo.

- Vocês vão me deixar? Como?

- Andando!

- Não precisa, pessoal... vou de táxi. Obrigado! – disse eu, impressionado com a prova de amizade. Amizade de carnaval, mas amizade verdadeira.

Eles pararam em frente a um isopor de bebidas e compraram cerveja. Um deles me deu uma lata. Antes que eu pudesse processar e compreender a situação, uma das garçonetes puxou a bebida de minha mão enquanto repreendia o colega:

- Não, ele já bebeu demais. Por hoje chega.

- Por hoje chega... – completei.

Com mais um abraço coletivo, me despedi de todos e fui atrás do meu táxi.

BAIANO PELO INSTANTE DE UM GRITO.

Outra coisa curiosa é como a baianidade rapidamente contamina os turistas que passam o carnaval por aqui. Estávamos eu e Roger no bloco Me Abraça quando, de repente, algum problema no trio produziu um estrondo nas caixas de som que deve ter deixado metade dos foliões surdos. Um carioca gordinho que estava ao meu lado curvou todo o corpo na hora e deu um grito:

- “Cren” Deus-Pai...! – e, logo depois, denunciou sua origem – Que barulho sinixxxtro!

Nada mais da terra do que “´cren´ Deus-Pai”. O que significa simplesmente “creio em Deus-Pai todo poderoso”. Mais uma das tantas corruptelas de nós baianos.

UM BÊBADO – ALIÁS, TRÊS -, UMA POSSIBILIDADE DE NOCAUTE, UMA AMIZADE GENUÍNA DE 5 MINUTOS E DRAMÁTICAS LÁGRIMAS NÃO DERRAMADAS.

Chegou a terça-feira, último dia de carnaval. Saímos no Me Abraça de novo e depois entramos no camarote do Harém. O iminente fim da folia era uma desculpa a mais que tínhamos para beber com certo vigor. Foi então que o tempo passou, muitos copos foram esvaziados e o sol começou a iluminar a avenida. O Voa-Voa, último bloco, passava pelo camarote deixando todo mundo alucinado com os minutos finais da grande festa. Foi então que apareceu um cara na nossa frente tentando dizer alguma coisa, mas o nível de álcool dele não permitia que estabelecêssemos uma comunicação decente. Ele tentava falar, não saía nada; tentava fazer mímica, era ainda pior. Já o efeito da cachaça deixou Roger impaciente. Diante do sujeito bêbado, sem conseguir entender o que ele queria dizer, meu amigo virou pra mim e disse:

- Se esse infeliz não sair da minha frente vou dar um murro na cara dele...

Pra sorte do sujeito, ele conseguiu fazer um sinal com os dois dedos juntos demonstrando que tudo o que queria era um cigarro. Roger, ríspido, disse que não tinha. Foi então que, vendo o rapaz baixar a cabeça desapontado, concluí: mais do que nicotina, ele precisava de um amigo. Lembro de ter iniciado com ele uma conversa sem pé nem cabeça:

- E aí, tá curtindo? – puxei assunto.

- Tô curtindo... tô curtindo... – respondia ele enquanto balançava a cabeça repetidamente em sinal positivo.

- Pena que tá acabando, né? – dei continuidade.

- Não tá acabando não... o Asa tá vindo aí... – disse ele enquanto tentava, em vão, apontar para a avenida.

Ri bastante. O Asa já havia passado por ali há umas 7 horas mais ou menos. Àquela altura, Durval devia estar no décimo sono. Respondi:

- O Asa já passou há muito tempo. Não tem mais bloco vindo, não. Terminou!

Para meu espanto, o cara arregalou os olhos, começou a se movimentar com agilidade, parecia que o efeito da bebida tinha sido cortado subitamente. Olhando pra mim, ele perguntou desesperado:

- Acabou? O carnaval acabou?!

- Acabou... quando esse bloco terminar de passar, acabou de vez. – respondi com sinceridade.

- Não acredito. Acabou... – disse meu mais novo amigo com lágrimas nos olhos, inconsolável.

Confesso que meus olhos também ficaram marejados quando desci do camarote e, em plena luz do dia, percebi que só haviam sobrado alguns bêbados dormindo embaixo de uma árvore, catadores apanhando latinhas de cerveja pelo chão, uma tropa de policiais cansados, os últimos segundos do beijo de um casal desconhecido e apaixonado. É, o carnaval havia realmente terminado. Só me restava ir pra casa e torcer para que o efeito do Red Bull passasse logo e eu conseguisse dormir a tempo de perder a apuração das escolas de samba do Rio de Janeiro.

* Apesar de ter gostado de sair no carnaval este ano, continuo celebrando a outra Bahia. Na minha opinião, muito mais majestosa que esta com duração de uma semana. A devoção que tenho por este outro lado da minha terra rendeu um textinho despretensioso que quero dividir com vocês e dedicá-lo a Evandro que entendeu com muita sensibilidade a verdadeira magia deste lugar abençoado por todos os santos.

"O sopro suave e fresco da brisa no meio da tarde balançava as palhas de coqueiro produzindo um som muito íntimo aos ouvidos baianos. Balançava também minha rede, no ritmo calmo da preguiça. As ondas do mar completavam a mais bela sinfonia desta terra, a genuína, aquela que não vem do trio elétrico. Entre abraços de raios de sol e o gentil calor da areia, estava eu ali, ouvindo, cheio de admiração e orgulho, o verdadeiro som da Bahia."

Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009

- Cadê o Menino Jesus do meu Santo Antônio?

“No Brasil, muitas moças afoitas por encontrar um marido costumam retirar o bebê dos braços das estátuas de Santo Antônio, prometendo devolvê-lo depois de alcançarem o seu pedido. Por esse motivo, alguns párocos mandavam fazer a estátua com o Menino Jesus preso ao corpo do santo, evitando assim o seu seqüestro.”

– Wikipédia.


Há mais de 10 anos sou devoto de Santo Antônio, o glorioso santo português. Fato este que, quando descoberto por amigos, automaticamente traz a reboque uma pergunta:
“você quer casar, é?”. Antes que você também pergunte, já vou respondendo: não é por desespero de subir ao altar que sou devoto deste grande intercessor dos céus. Até porque, há 10 anos atrás eu tinha 20 anos e a última coisa que eu pensava àquela época era casamento. Quem sabe daqui a uns 5 anos, se eu ainda não estiver casado, minha devoção não ganha um novo viés?

O fato é que nunca se ouviu dizer de alguém que tenha recorrido a este poderoso santo e tenha sido esquecido. Abandonando a riqueza e dedicando-se à caridade, sua breve vida na terra foi marcada por inúmeros milagres. Entre eles, a visão que um conde que hospedava Santo Antônio teve: curioso para ver o famoso frei orando, o nobre, espreitando através de uma fresta que existia na porta do seu quarto, assistiu maravilhado ao cômodo inteiro resplandecer e Nossa Senhora, cheia de júbilo, entregar nas mãos do santo o Menino Jesus.

É por isso que, em quase todas as representações de Santo Antônio, ele está carregando no colo uma criança. Sendo assim, acho inconcebível que alguém, hereticamente, separe os dois para arrumar um namorado, um noivo ou algo do tipo. Principalmente se isso for feito em alguma de minhas imagens deste grande protetor dos pobres.

Pois chego eu em casa esta semana e, ao entrar no meu quarto, notei algo de muito estranho: o meu mais valioso Santo Antônio – valioso por ser antigo e mais valioso ainda por ter pertencido à minha avó – de costas, virado para a parede. Na mesma hora lembrei que esta era uma das inúmeras simpatias que as pessoas costumam fazer para desencalhar. Resumindo, ou algum espírito de porco resolveu fazer piadinha comigo ou aquilo era obra de uma das 4 mulheres de minha casa – todas solteiras.

Segurei no aveludado hábito azul da imagem e virei o santo para a sua posição original. Quando ele estava de frente pra mim, o susto aumentou: o Menino Jesus havia sumido das mãos de Santo Antônio. “Alguém está desesperado, fez duas simpatias ao mesmo tempo para garantir o fim da solteirisse”. – pensei.

Fiquei angustiado. Onde estaria a bela imagem da criança? Será que caiu no chão? Será que quem escondeu lembra onde colocou? A vontade que eu tinha era de acordar todo mundo para perguntar sobre o paradeiro do Menino Jesus. Mas eram 3 da manhã de um dia de semana. E o pior é que eu não iria conseguir dormir fácil, estava perturbado com a história. Revirei meu quarto do avesso e nada.

De repente, ouvi um barulho no banheiro do corredor. Corri para a porta e fiquei esperando a ocupante do lugar sair. Era minha irmã.

- Lica, por acaso você pegou o Menino Jesus de meu Santo Antônio? – perguntei.

Pela cara que ela fez de “não entendi nada”, automaticamente a isentei de qualquer culpa. Procurei explicar:

- Cheguei no quarto e encontrei o santo virado para a parede e sem o Menino Jesus nos braços. Alguém aplicou no santo, de uma só vez, duas simpatias de casamento.

Ela disse que não era a responsável pelo sumiço e que também achava difícil que tivesse sido Simone, nossa outra irmã.

- Ontem eu vi a gata andando por esta prateleira. Será que ela esbarrou nele? – disse Livinha enquanto analisava a cena do crime.

- Sua gata é esperta, Lica. Mas não o bastante para fazer simpatias. Agora falando sério, será que ela engoliu o Menino Jesus? – cogitei o pior.

- Não, não, deve estar por aqui em algum lugar. – respondeu Livinha, tentando evitar que eu dissecasse a barriga de seu animalzinho.

3:30 da manhã e a gente arrastando cama, criado-mudo, armário; remexendo livros e mais livros na prateleira. Nada da pequenina imagem. Antes que todos os vizinhos do prédio nos linchassem, resolvemos dormir e continuar a busca no dia seguinte. Deitei e, antes de pegar no sono, fiz uma prece, pedi para que meu santo advogasse em causa própria:

- Poderoso e fiel Antônio, guardião de todas as horas, meu prodigioso intercessor junto a Deus, rogo-te: vós que sempre encontrais o perdido, clareais o oculto e que me fazeis orar no presente do indicativo, ajudais no reaparecimento da imagem do amado Menino Jesus. Que ainda esta manhã Ele apareça e volte definitivamente para vossas mãos. Amém.

Acordei e, antes mesmo de tomar banho e escovar os dentes, corri até a cozinha em busca de notícias do bem-aventurado filho de Maria. Ao perguntar se alguém tinha encontrado a imagem em algum lugar, todos riram: Rosa, a jovem e tímida empregada da casa, no dia anterior foi limpar meu quarto e encontrou o Menino Jesus entre o colchão e a lateral da cama. Pensando ela que se tratava de uma simpatia minha, arrumou a cama e, cuidadosamente, recolocou a pequena imagem embaixo do colchão. Afinal, macumba e simpatia há de se respeitar.

Como ninguém assumiu a autoria do seqüestro do primogênito de Deus, nos restou aceitar a teoria da gata andando pela prateleira, girando a imagem ao passar por ela e derrubando o Menino Jesus entre o colchão e a cama.

Acaso? Um sinal dos céus? Prenúncio divino de um desencalhe? Não sei. De qualquer modo, fica a minha particular leitura do ocorrido: hoje em dia, o que não faltam por aí são gatas doidas pra casar. De quatro patas ou duas pernas.

Terça-feira, Fevereiro 10, 2009

O sultão e seu trono.

Existe um bloco de carnaval aqui em Salvador chamado Harém. Olha só o nome: Harém. Admito que a idéia, o conceito que os caras criaram, é genial. Eu ainda não sou pai, nem nome pra minha filha eu tenho, mas, quando ela nascer e ficar mocinha, acreditem, ela jamais vai sair no Harém. Eu não vou deixar.

O lance é o seguinte: as menininhas bonitas de Salvador são convidadas para sair no bloco. De graça. Uma semana ou duas antes do carnaval elas são tatuadas com aquela tatuagem tipo de chiclete com a seguinte mensagem: “Princesinha do Harém”. Um negócio bizarro, gigante, bem no meio do braço. As mulheres ficam marcadas como gado depois de ferrado. O abadá só é dado no primeiro dia de carnaval. Ou seja, se a garota tirar a tatuagem um dia antes, já era, nada de festa.

Isso tudo é uma estratégia e tanto. Os marmanjos vêem as gatinhas na rua e pensam: “nossa, ela vai sair no Harém. Tenho que sair também”. E aí, meus amigos, pra homem não tem moleza, tem que pagar pra ter um dia de sultão.

Confesso que se eu fosse mulher ia me sentir um tanto quanto prostituída. Estaria ali de graça apenas para servir de isca pra um monte de tarado. Mas enfim, carnaval é festa do coisa-ruim. Peço até licença para uma súplica: Senhor, me ajude a ter dinheiro para mandar minha filha pra Disney, Europa ou Austrália toda vez que o carnaval chegar. Também, se as cifras não forem suficientes, Ilha de Itaparica está servindo.

Tá bom, não vou cuspir no prato que comi e venho comendo desde dezembro. Aos domingos deste nosso verão acontece o Ensaio do Harém e eu, como solteiro que estou, tenho ido a todos. Todos. Os seguranças da entrada nem me revistam mais. Quando eu apareço com a ficha na mão, a mulher do bar já se antecipa: “- Seu Pedro! A Smirnoff Ice de sempre?”. Sem contar que eu já decorei a ordem de todas as músicas do repertório e até mesmo as piadas sem graça do tecladista da banda.

O lugar é bem legal, no meio de uma floresta. O palco fica no centro, de maneira que ele não tem nem frente, nem fundo, nem lados. Ou seja: onde quer que você esteja, está sempre diante da banda. As mulheres da festa são realmente bonitas. A esmagadora maioria usa salto bem alto, maquiagem carregada com um contorno prateado nos olhos estilo “Blade Runner” e a saia mais comprida que eu vi por lá é menor que qualquer cinto meu. Mas, não chega a incomodar.

Meu companheiro de todos os ensaios do Harém é Pablo. Pablo, pra quem não conhece, é um sujeito de fala mansa, palavras poucas e pensadas, observador, movimentos e gestos lentos. Durante a festa, a cada 10 minutos, ele obedece ao seu sagrado ritual de ir buscar uma cerveja no bar. Esse é o momento em que costumamos nos perder um do outro.

Foi num desses dias de desencontro que, pela primeira vez, eu me compadeci de Pablo: ao final da festa, nos reencontramos perto do portão de saída. Ele estava pálido, fantasmagórico, olhos arregalados, andava a passos curtos. Cheguei a pensar que ele estava com hemorragia interna.

Meu companheiro de farra aproximou-se de mim e, próximo a meu ouvido, sussurrou:

- Peter... estou com dor de barriga.

Tinha tudo para ser engraçado, para eu dar uma gargalhada na cara dele, mas não. Por um instante, me imaginei nesta mesma situação e pensei o quanto seria caótico estar em meio a uma multidão, cercado de meninas bonitas, um monte de gente conhecida e simplesmente não ter um banheiro decente para resolver este tipo de problema.

Segurei forte em seu braço. Fiquei em silêncio como quem recebe uma notícia trágica. Eu precisava pensar. Mas Pablo não tinha tempo, seu corpo havia entrado numa guerra dramática contra ele:

- Peter... vou ter que ir ao banheiro químico. – disse o pobre rapaz com a voz sumindo aos poucos.

- Não! - respondi taxativo.

Ir a um banheiro químico, num ensaio de carnaval, bem no fim da festa? Eu não podia deixá-lo perder a dignidade daquele jeito.

- Agüente firme. – disse enquanto puxava Pablo pelo braço em direção à saída.

Ele parecia ancorado no chão, arrastava-se a passos pausados. Vivia um esforço sobre-humano de concentração para evitar o pior. Como se não bastasse a situação, todo mundo caminhava em ritmo de passeio dominical. Íamos os dois em zigue-zague passando pelas pessoas, torcendo para não encontrar ninguém conhecido – não havia tempo para um cumprimento sequer.

Lembrei que havíamos estacionado longe. Vez ou outra Pablo soltava um gemido quase mudo enquanto claudicava. Nessas horas, eu imaginava: “será que aconteceu?”. Ele negava. Quando chegamos no carro, Pablo balançou negativamente a cabeça e disse:

- Não vai dar. Vou no mato.

O mato ao qual ele se referia era nada menos que uma mata virgem, fechada, impossível de entrar. Em qualquer outro lugar, ele ficaria visível para aquela multidão que caminhava para seus respectivos veículos. O cara é um empresário, imagina se um cliente dele o visse nessa deplorável situação.

- Pablo, segure mais um pouco. Vou tirar você daqui... – tentei animá-lo.

Ele entrou mudo no carro, sentou-se com um cuidado maior do que se estivesse sentando numa caixa de ovos. Arranquei com o carro como se o pobre coitado fosse um off-road. Ignorei o terreno acidentado e saí arrastando o assoalho nas inúmeras raízes das árvores que circundam o lugar. Porém, logo à frente, antes mesmo da saída do estacionamento, a má notícia: engarrafamento. Provavelmente, com tanta cachaça na cabeça, muitas pessoas perderam o ticket que liberava a saída do carro. Pablo olhou para mim e, num tom de súplica, pediu:

- Deixa eu ir no mato...

- Tente se acalmar, a gente vai sair daqui já, já. – os carros começaram a andar lentamente e eu completei. – não disse? Tá saindo...

Pablo conseguiu buscar uma ponta de presença de espírito:

- Por favor, não diga que está saindo. A qualquer momento pode sair mesmo.

Com essa discreta mudança de humor, imaginei que meu amigo estivesse numa entre-safra das cólicas que retorciam suas tripas. O engarrafamento ainda durou um pouco e, homeopaticamente, o trânsito foi começando a fluir.

Confesso que eu estava morrendo de medo do trabalho ser realizado no banco do meu carro. Mas, amigo que é amigo não deixa o outro aliviar-se no mato, tampouco num banheiro químico de fim de festa. Movido tanto pelo receio de ter que trocar o estofamento quanto pela boa ação do dia, acelerei como um alucinado na Avenida Paralela. Fui rezando para não encontrarmos uma blitz pelo meio do caminho. Já pensou? Ao mesmo tempo, um multado e o outro cagado.

- Pra onde você está me levando? – perguntou Pablo, quase afônico, enquanto costurávamos por entre todos os carros da rua.

- Pra minha casa. Lá tem vaso sanitário limpo. Tem papel higiênico. Tem chuveirinho. Tem dignidade. – respondi.

- É longe... – suspirou Pablo.

- Calma. Agüentou até agora, agüenta mais um pouco. Força. Quer dizer, força não.

A cada curva, a cada lombada, sons originários das entranhas de meu amigo denunciavam que o parto era iminente.

- Segura, Pablo! – disse eu, tentando salvar meu carro.

Já cheguei na guarita do meu prédio disparando a buzina. Era o medo do terrível efeito psicológico que a proximidade com o vaso sanitário costuma produzir. A partir dali era questão de segundos. Portão aberto e entrei como uma flecha na garagem. Após estacionar, corri em direção ao elevador. Foi então que notei que Pablo não tinha saído do carro. Voltei lá rapidamente e me deparei com ele segurando firmemente no descanso de braço da porta, o pescoço duro.

- Não consigo levantar... – confessou Pablo.

- O que houve? Vazou?! – perguntei, morrendo de medo da resposta.

- Não, mas se eu levantar pode acabar vazando. – respondeu Pablo, cheio de sinceridade e pragmatismo.

Abri a porta e, com muito jeito e cuidado, o ajudei a levantar. A amplitude e velocidade dos seus passos lembravam os de um senhor de 90 anos, no mínimo. Fui na frente e abri a porta do elevador para adiantar as coisas para meu amigo. Sorte que moro no primeiro andar!

Após eu apertar a campainha sucessivas vezes, abriram a porta.

- Pablo! Que surpresa boa, meu filho... – exclamou minha mãe, braços abertos e uma vontade de conversar que lhe é peculiar.

O pobre coitado mal conseguia levantar a mão para um discreto aceno.

- Mãe, Pablo não está passando muito bem, ele precisa ir ao banheiro. – procurei salvá-lo.

Imaginando que todo aquele pesadelo estava terminando, o debilitado rapaz mal chegou à porta do lavabo e foi surpreendido:

- Nesse aí não, Pablo! Está sem água. – disse minha mãe, trazendo ainda mais desespero para quem já estava seriamente desesperado.

Pablo girou o corpo com grande esforço e foi caminhando lentamente para o corredor dos quartos. Passou por Livinha, minha irmã, deu um imperceptível e monossilábico “oi” e girou a maçaneta que descortinaria pra ele o milagre que era, àquela altura, um vaso sanitário e seus acessórios.

- Pedro! Leve ele pro seu banheiro. Esse aí está uma bagunça terrível. – dessa vez foi minha irmã quem deu fim ao sonho de Pablo.

Meu caro e já esgotado amigo olhou para Livinha e minha mãe, retirou de dentro de si o último suspiro de que era capaz de dar e, com as mãos levemente em prece, implorou:

- Por favor, pessoal... qualquer um... qualquer um...

Tirando uma freada de bicicleta na cueca, Pablo conseguiu chegar intacto até o vaso. Pelo menos, é o que ele conta. Não sei, nunca vou saber. Mas, uma coisa eu asseguro: se alguém próximo a você estiver com dor de barriga e quiser fazer no mato, deixe. Se quiserem fazer no banheiro químico do carnaval em plena quarta-feira de cinzas, deixe. Pelo bem do seu banheiro.

Domingo, Janeiro 25, 2009

Teco-teco. A forma mais eficiente de se chegar ao céu. (Parte II)

Pois bem. Logo, logo, percebi que não havia nenhuma linha de ônibus até Salvador e que, em algumas horas, enfrentaria todo o terror de novo. Boipeba é um lugar inóspito, uma pequena vila no meio de um paraíso difícil de descrever. Desses lugares cheios de pousadas de alemães, franceses, italianos e paulistas: pessoas que chegaram lá para visitar e resolveram deixar tudo para trás em troca de um pouco de paz e sossego.

Sair de dentro daquele forno que era o teco-teco e receber o carinho da brisa no rosto em meio ao coqueiral, era simplesmente uma bênção. Andamos todos, Adrian, piloto, equipe de filmagem e eu, e chegamos até um píer no rio onde uma pequena lancha nos aguardava. Embarcamos e fomos navegando em águas calmas, a inacreditável paisagem descortinando-se aos poucos diante de nossos olhos. Cheguei a me perguntar se o aviãozinho não havia caído: vendo o lugar à minha volta, parecia que eu tinha passado desta para uma melhor.

- Doutor Adrian, onde vamos? – perguntou o marinheiro da lancha.

- Vamos começar pela pousada de Giancarlo. – respondeu Adrian.

Era o início de uma agradável peregrinação entre pousadas e praias divididas entre rio e mar. O cinegrafista não desligava a câmera um só instante. Tamanha beleza, muitos eram os lugares para se apontar as lentes.

A última parada foi uma pousada que realmente me surpreendeu. Se eu não tiver grana para passar a lua-de-mel no Tahiti, tenham certeza: é na Alizées Moreré que vou encomendar meu herdeiro. O simpático dono do lugar nos convidou para almoçar e, como bom francês, foi pessoalmente até a cozinha preparar nossos pratos. À sombra da vegetação local, entre jaqueiras e mangabeiras, ao som ambiente de variados cantos de pássaros e espaçadas ondas do mar quebrando na areia, tomamos algumas cervejas e almoçamos.

O marinheiro da lancha, um jovem nativo de Boipeba, estava presente na mesa e eu notei que ele bebia com certa empolgação. Como ainda não existe blitz do bafômetro no mar, pra mim estava tudo certo, não dei muita atenção.

- Pierre, nos acompanha na lancha até o criatório de ostras? –Adrian fez o convite ao nosso anfitrião.

Imagine que no meio do rio existe esse criatório de ostras. Ao chegar lá, um sujeito mergulha e traz a iguaria pra você, fresquinha. Vida chata, não? Infelizmente, não foi possível conhecer o lugar: quando imaginei que o teco-teco era a maior ameaça às nossas vidas, chegou a vez do mar e do nativo fazerem a sua parte.

Ao entrarmos de novo na lancha, lembro do cinegrafista perguntando:

- Vai molhar? Essa câmera não pode receber respingos...

- Não, daqui até lá teremos poucas ondas. – respondeu o jovem marinheiro.

Então, o cinegrafista ligou de novo a câmera e passou a registrar o cenário – insisto no adjetivo – indescritível. Para ter uma visão privilegiada, fui até a frente do barco e fiquei de pé, pensamento perdido em algum canto, apenas observando centenas de cartões postais fora do papel. O resto do pessoal viajava sentado no banco em formato de meia-lua que havia no fundo da lancha.

Eufórico, o marinheiro falava sem parar e ia conduzindo o barco olhando para trás enquanto conversava com os outros passageiros. Quando chegamos próximos à entrada da barra que liga o mar ao rio, as águas começaram a ficar levemente convulsas. Logo mais à frente, água doce e água salgada pareciam não entrarem em acordo: juntas, formavam nervosas e perigosas ondas. Não me preocupei, afinal, estávamos sendo conduzidos por um nativo, alguém que supostamente conhecia com exatidão as armadilhas do lugar.

Com considerável velocidade, nos aproximamos das vagas em fúria. Imaginei que logo o marinheiro reduziria o ritmo para vencermos as ondas com tranqüilidade e segurança. Ledo engano. Só houve tempo para um breve e inútil grito meu:

- Olha a onda!

Do jeito que viemos, saltamos uma verdadeira rampa d´água. Casco e motor ficaram completamente fora do mar. Em milésimos de segundos, ainda com a lancha em pleno vôo, percebi o movimento da proa inclinando para frente. Era um sinal claro de que a lancha iria embicar e o impacto seria exatamente onde eu estava. Tentei correr para a popa, mas só deu tempo de me virar. Quando o bico do barco afundou na água, um verdadeiro turbilhão atingiu minhas costas me lançando com força para o banco do fundo, bem em cima do francês. E o cara nem fazia o meu tipo.

O estrago foi grande. A lancha estava inteiramente inundada. Para quem estava sentado, a água ficou na altura do peito. Tirando o meu celular que estava dentro de uma mochila, àquela altura boiando, todos os outros celulares foram definitivamente inutilizados. Meu joelho doía muito por conta de um impacto em algum lugar, provavelmente no próprio Pierre.

Após nos certificarmos de que todo mundo estava bem, presenciamos uma cena que emudeceu a tripulação por uns 5 minutos: o cinegrafista, desolado, elevando lentamente a câmera que estava totalmente submersa na água salgada. Uma câmera de 25 mil reais, provavelmente mais cara que a embarcação quase naufragada. Se tivesse morrido alguém ali, o diretor de filmagem não teria feito uma cara tão feia quanto fez ao ver a água jorrando de dentro do seu equipamento como se ele fosse um regador.

A lanchinha iniciava um processo irreversível de naufrágio enquanto o marinheiro, agora desesperado, acelerava ao máximo o motor. Mesmo assim, o barco deslocava-se lentamente, arrastando-se por conta do peso da água. E cada vez mais o casco ia sumindo. Eu já estava preparado para nadar, a mochila estrategicamente colocada na cabeça.

Quando tudo parecia perdido, conseguimos chegar à praia. O barulho do fundo do barco encalhando na areia era música para nossos ouvidos. Saltamos todos. Numa tentativa desesperada de salvar a câmera, a equipe de produção saiu correndo alucinada em busca de um pedaço de pano seco. Em meio a palavras duras, Adrian não perdoava o marinheiro que mal conseguia responder, escabriado pela própria irresponsabilidade e desolado pelo prejuízo que sofrera.

O francês despediu-se de nós, arrumou uma outra lancha e voltou para sua pousada – o coitado só pegou uma carona pra perder o celular. Nós também arrumamos uma outra lancha e voltamos para o aeródromo. O clima na equipe de filmagem não era dos melhores, o silêncio era incomodativo. Talvez isso tenha tirado um pouco o foco do desespero que precederia meu embarque.

Assim como na ida, adivinha quem foi no comando? Ele mesmo, Adrian, o aspirante a piloto, alguém com, no máximo, uma dezena de horas de vôo. A pista era uma atração à parte: após sua cabeceira, havia um curto coqueiral e logo mais vinha o mar e seu azul sem fim.

Todos de volta ao forno voador, taxiando mais uma vez para iniciar o processo de decolagem. Com certa dificuldade, Adrian alinhou o aviãozinho na pista e, segundos depois, acelerou forte o motor. O bicho foi ganhando velocidade e então saiu do chão cerca de 1 ou 2 metros apenas. Manteve essa ridícula altitude por um bom tempo e eu comecei a ver a pista ficando curta. Pensei que o teco-teco apresentava algum problema e não estava conseguindo ganhar altura.

- Adrian... – sussurrei.

Através do pára-brisa do piloto eu via a copa dos coqueiros se aproximando rapidamente. E mais perto. E mais perto.

- Adrian... – sussurrei um pouco mais alto.

Chegou um momento em que quase dava pra ver uma formiga andando em cima do coco. Aí não consegui mais segurar:

- ADRIAN! VAI BATER! #@$%*&! – utilizei cerca de 2/3 de todo o meu vocabulário de xingamentos.

Ao praticamente beliscar as palhas do coqueiro, Adrian puxou o manche todo e, ao som de uma gargalhada alucinante do desajustado empresário, o avião bruscamente iniciou uma subida a 90 graus do chão. Tratava-se de uma “brincadeira” de nosso “amigo”. Durante esta manobra, percebi que havia deixado meu estômago na pista. Mas meu pulmão decolou comigo - e ele gritava alto. Um misto de barulho infernal de motor de teco-teco, gargalhadas de Adrian e um ininterrupto brado meu. Foi assim o início da viagem.

Mesmo com o calor que fazia dentro do teco-teco, eu suava frio. Pense bem: se essas mini-aeronaves costumam cair por qualquer coisa, imagine quando alguém que está aprendendo a pilotar resolve fazer acrobacias. Meu cliente, experiente como ele só, caiu na besteira de acreditar que era piloto da Esquadrilha da Fumaça. O avião ainda subia verticalmente em alta velocidade quando eu tentei descolar minhas costas do assento e, segurando com dificuldade na cadeira da frente, me aproximei de Adrian.

- Adrian, ainda vamos continuar subindo assim por muito tempo? – disse eu, polidamente, tentando evitar que entrássemos em órbita.

- Pedrinho, meu querido, volte para o seu lugar. Assim você me desconcentra. – respondeu o inglês.

Obedeci. Não me restava fazer muita coisa a não ser rezar, pedir perdão pelos meus poucos pecados e assistir ao clássico filminho da vida que costuma passar diante dos olhos de quem vive seus últimos instantes.

De repente, o teco-teco endireitou-se e voltou a voar na horizontal. Sorte que, justamente pensando na volta, eu não abusei do delicioso almoço. Sorte! À esta altura, estaria escrevendo “A fantástica história da mala de cocô II”.

Quando nos aproximamos da pista de pouso do aeroporto de Salvador, iniciou-se mais uma surreal discussão:

- Doutor Adrian, por favor, me passe o manche para eu pousar. – disse o piloto.

- Não, eu vou pousar. – respondeu Adrian, taxativo.

- Mas doutor Adrian, o senhor ainda não sabe pousar. – o piloto tentou dissuadi-lo da catastrófica idéia. Literalmente catastrófica.

- Eu vou pousar, já disse. Vá me dizendo o que fazer. – Adrian encerrou a discussão.

Pelo menos o avião vai cair em Salvador. – pensei. Eu já não tinha sequer mais forças para entrar em qualquer discussão com Adrian. Tentei minha última cartada. Cutuquei o diretor de filmagem que estava ao meu lado e falei:

- Ó, ele está querendo pousar o avião...

Foi uma tentativa de fazer com que o cara reagisse. Uma forma de dizer: é melhor você fazer alguma coisa, amigo... vamos morrer. Só que o sujeito ainda estava entorpecido pela perda de sua câmera. Acho que ele nem se importaria se o teco-teco se espatifasse no chão: já tinha perdido a câmera dele mesmo, o que seriam mais 6 vidas?

Diante do silêncio do rapaz, só me restou acompanhar o avião fazendo zigue-zague enquanto buscava alinhar-se com a pista. O piloto ia ajudando:

- Vira para a esquerda, vira para a esquerda... não, não, passou do ponto... vira para a direita, vira para a direita. Pra direita, doutor Adrian!

Torre de controle, estacionamento, hangares de carga, aviões estacionados. Adrian apontava a frente do avião para todos os lugares, menos para a pista.

- Está muito rápido, doutor Adrian. Reduz a velocidade! Não, doutor Adrian, reduziu demais, acelera, acelera.

Engrenei um Pai Nosso seguido de uma Ave Maria. Metade da pista já havia passado embaixo de nós e Adrian não conseguia fazer o avião descer. De repente, pelo som do motor em baixa rotação, percebi que meu cliente havia desacelerado bruscamente o teco-teco numa tentativa desesperada de fazê-lo pousar. Foi então que, há uns 10 metros do chão, o aviãozinho desceu que nem uma pedra. Quando as rodinhas bateram na pista o impacto foi tão grande que achei que nossa latinha voadora iria se desmantelar. Assim como a minha coluna: deu pra ouvir umas 2 vértebras estalando.

Estranhamente, o avião subiu de novo. Ficou mais uns 3 segundos no ar e voltou a descer com tudo novamente. Mais um impacto e mais um desvio em minha escoliose. Mais uma meia-dúzia de vezes subimos e descemos como uma bola quicando até os dois conseguirem fazer o maldito teco-teco parar.

- Doutor Adrian, com todo o respeito: a torre deve estar pensando que eu estou bêbado. – deixou escapar o piloto.

O documentário jamais foi editado: as fitas ficaram inutilizadas pela água do mar no naufrágio da câmera. A produtora perdeu seu equipamento mais valioso. Eu não saí no Jornal Nacional. Aí você me pergunta: então todo esse terror serviu pra quê? Serviu para eu descobrir que, ao contrário do que nos ensinaram, o paraíso é na terra e o inferno certamente é no céu.

Terça-feira, Janeiro 20, 2009

Teco-teco. A forma mais eficiente de se chegar ao céu.


Há tempos atrás, escrevi “A fantástica história da mala de cocô” e publiquei aqui no blog. Comecei falando da beleza que era Boipeba, indiquei como um destino especial para uma viagem a dois e contei a saga que nosso piloto certa vez enfrentou por conta de uma dor de barriga em pleno vôo. Mas, eu não havia contado os detalhes desta viagem, o desafio que foi até chegar àquele paraíso, o fatídico retorno a Salvador, a sensação de morte iminente e a minha certeza absoluta e incontestável de jamais voltar a embarcar em um teco-teco enquanto for vivente.

Vamos lá. Um cliente meu, dono de um táxi aéreo, solicitou à nossa agência a criação e acompanhamento de produção para um documentário sobre Boipeba. O material seria distribuído em agências de viagem que venderiam pacotes turísticos do destino e, com isso, esperávamos aumentar o número de vôos da empresa para o lugar. Até aí, tudo bem. Mas Adrian, meu cliente, me veio com uma exigência inegociável:

- Além da criação do roteiro, quero que você acompanhe pessoalmente a produção do VT. Decolamos na próxima quinta às 7 da manhã.

Eu nunca quis voar em avião pequeno. Quantas vezes já ouvimos William Bonner e sua esposa noticiando no Jornal Nacional: “monomotor cai na região tal e mata o piloto e dois passageiros”? Só dá isso na televisão: dólar subindo e aviãozinho caindo. Cada vez que a bolsa cai, mais uns dois desses acompanham. De estalo, lembrei que minha jornada na Terra tinha apenas começado, que eu ainda tinha muito o que viver:

- Adrian, sinto muito, de monomotor eu não vou.

Adrian, um inglês irrequieto, empresário de muitos negócios, me respondeu com seu jeito ansioso e usual tom de voz alto:

- Pedrinho, meu querido, a gente vai de bi-motor. Não tem com o que se preocupar.

Fiquei um pouco mais tranqüilo. Sempre ouvi dizer que quando um dos motores de um bi-motor pára, o outro segura o avião no ar. Procurei puxar da memória o histórico de tragédias com pequenas aeronaves e lembrei que pouco ouvi falar sobre quedas de bi-motores. É, o problema era realmente com os monomotores.

O dia da filmagem chegou. Acordei bem cedo, levantei da cama, olhei a imagem de Santo Antônio na estante, pedi a ele que mantivesse voando qualquer pedaço de aço que cruzasse o firmamento aquele dia, fiz o sinal da cruz e me mandei para o aeroporto. Chegando lá, encontrei o cinegrafista, o diretor de cena e uma produtora. Após uma pequena espera, chegou Adrian, o mentor da empreitada.

- Pessoal, desculpem o atraso, vamos embarcar. – disse meu cliente com a objetividade de sempre.

Os rápidos passos de Adrian pelo hangar foram seguidos por mim e pelo pessoal da produção. No caminho, mirei um avião robusto, parecia um jatinho. Pensei: tranqüilo, dá pra encarar numa boa. Mas, meu cliente passou por ele e continuou caminhando em ritmo acelerado. Após este, tinha um menor, suas rodinhas eram pequenas, mas ainda assim contei cerca de 4 janelas, o que indicaria uma capacidade mínima de 8 passageiros. Pra mim ainda estava bom. Mas Adrian mais uma vez passou batido pela aeronave.

A próxima (e única) aeronave na nossa direção era um aviãozinho bem pequeno. Sem exagero: vendo de longe, achei que se tratava de um aeromodelo, um avião de controle remoto. A impressão que se tinha é que se eu abrisse os dois braços, alcançava a mesma envergadura de suas asas. Os passos de Adrian apontavam na direção daquilo que parecia ser um Fusca alado. Não era possível, ele disse que a gente ia de bi-motor e não de caixa de fósforo. Mais alguns passos e meu cliente, como quem sobe num degrau baixo, pisou na asa e abriu a pequena porta lateral do avião. Nunca tinha visto aquilo! Pra subir no avião tinha que pisar na asa.

- Adrian, esse é um monomotor... – disse eu, parando de andar, quase dando passos pra trás.

- O bi-motor teve que fazer uma viagem, vamos nesse mesmo. – disse Adrian, naturalmente, de cima da asa e com a mão na porta aberta.

Antes que eu pudesse dizer algo, a equipe de filmagem, acostumada a voar em qualquer coisa, entrou no aviãozinho. Só sobrou eu do lado de fora e Adrian segurando a porta.

- Vamos, pise aqui e suba! – disse o intrépido empresário.

Estranhamente, a vergonha de correr foi maior que o medo de morrer. Mesmo achando que ali dentro não cabia mais ninguém, entrei no avião.

Dentro, dois assentos virados para dois outros assentos. Na frente, o piloto e Adrian. Parecia um carro realmente, um carro bem pequeno. Não havia qualquer separação entre passageiros e tripulação: esticando a mão dava para tocar a cabeça do comandante. Além do medo daquilo cair, eu ainda tive que enfrentar minha claustrofobia. E, tudo isso, sem poder demonstrar pânico.

Foi então que Adrian resolveu piorar consideravelmente a situação:

- Eu vou comandando. – disse ele, taxativo.

- Não, doutor Adrian. O senhor ainda está aprendendo a pilotar, deixe que eu comando. – respondeu, cauteloso, o piloto.

- Eu comando e pronto. – disse o dono do avião. Com propriedade.

Pensei em fugir. Era o desespero vencendo a vergonha. Mirei a porta, mas, nem como abrir aquilo eu sabia. Antes que eu pudesse tomar qualquer atitude, Adrian ligou o avião e, ao som de um motor super acelerado, a aeronave arrancou em alta velocidade pra frente. Um funcionário do hangar que estava manobrando o avião aos empurrões, dobrou a coluna toda pra trás e a asa passou por cima dele num movimento que me fez lembrar a antiga dança da cordinha do Gera Samba.

- Adrian, deixe o cara pilotar... – balbuciei.

Não houve resposta.

- Você devia ter me avisado que o avião estava acelerado. – disse meu cliente fitando o piloto com olhos de reprovação.

- Doutor Adrian, deixe eu...

Adrian interrompeu o piloto:

- Peça permissão à torre para decolarmos.

O avião foi taxiando lentamente. Lembro de como ele já balançava, ainda em solo, por conta do vento suave que passeava pela pista. Daqui a alguns segundos, se sairmos do chão, vou me sentir dentro de uma batedeira. – pensei.

- PT-JKA: decolagem autorizada. Boa viagem. – respondeu a torre através do rádio.

Deu vontade de pedir para o maldito controlador de vôo definir o que era uma boa viagem.

O avião enfim ficou de frente para a pista. O motor voltou a acelerar, dessa vez, de maneira proposital. À medida em que íamos ganhando velocidade, a fuselagem tremia mais e mais, metais estalavam.

- Puxa o manche! Puxa o manche! – ordenou o piloto ao aprendiz de piloto.

Através da visão que me permitia a minúscula janela e do frio que percorria minha espinha, dei-me conta de que o teco-teco estava ganhando altura. Já não havia mais o que fazer. Apenas tentar manter a calma e torcer para chegarmos logo ao destino. Ou, simplesmente, chegarmos.

- Vamos fazer em 40 minutos... – avisou Adrian, curvando a cabeça sobre o assento do piloto.

Pois acredite: dentro de um monomotor não existe ar condicionado. Pelo menos, neste não existia. O sol de Salvador, para variar um pouco, estava de fazer derreter. E, querendo ou não, voando, estávamos ainda mais perto do astro-rei. O barulho do motor era insuportável, não dava para conversarmos absolutamente nada.

Logo, já não sobrevoávamos mais Salvador: abaixo de nós, apenas a magnífica visão das águas da Baía de Todos os Santos, suas ilhas e vastos coqueirais. Confesso que, diante desta cena única, esqueci por alguns instantes que eu estava dentro de um monomotor pilotado por alguém que supostamente não sabia pilotar. Porém, os vácuos que em aviões maiores são motivos de discretas turbulências, no nosso teco-teco causavam sensação de queda livre e faziam-me voltar à dura realidade.

Começamos a sobrevoar Morro de São Paulo. Ao passarmos próximos ao farol, um dos pontos turísticos do lugar, Adrian virou a aeronave toda de lado e começou a circular a enorme torre sem parar.

- Filma o farol, olha que bonito. – disse Adrian à equipe.

Parecia que, a cada volta, o avião passava mais perto daquela enorme estrutura. Uma asa do avião mirava o chão, a outra, o céu. Segurei-me na parede para não cair para o lado. Diante da proximidade e do risco real que estávamos passando, não agüentei:

- Adrian, o pessoal já filmou. O pessoal já filmou!

O teco-teco foi endireitado e novamente voltou a voar em linha reta. Um pouco mais à frente, estava Boipeba. De cima, o lugar era realmente fantástico.

- Xi, a pista está cheia de bois. – constatou Adrian.

Parecia mentira, mas era verdade. Colocaram um rebanho inteiro para pastar em cima da pista de pouso. Não havia ninguém por perto, nem um vaqueiro sequer que pudesse tanger os bichos para fora dali. O piloto se manifestou:

- Doutor Adrian, só há um jeito: vou dar um rasante na pista para espantar os animais. Por favor, me passe o manche.

Nada mais nesse vôo me surpreendia. A sorte foi que o dono do avião desta vez obedeceu. Com o trem de pouso quase batendo nos chifres dos animais, o piloto conseguiu afugentar a boiada que corria desesperada. Eram os bois e eu, todos morrendo de medo. Com a pista livre, fizemos meia-volta e pousamos. Demorou para eu acreditar que estávamos em terra firme. Ao descer do avião, só conseguia imaginar que horas partiria o próximo ônibus Boipeba-Salvador.

O negócio é o seguinte: agora, terminando de contar apenas a ida, me dei conta de que o texto ficou denso. Não tenho culpa. Se fosse um momento de paixão, casos de rodinhas de amigos, um dia na praia, teria passado rapidinho. Mas, pra quem está no terror, o relógio é cruel, os ponteiros andam com o freio de mão puxado. Sendo assim, vou guardar a volta para o próximo post. Nele teremos a câmera de 25 mil reais sendo naufragada, o aviãozinho versus o coqueiral seguido de um quase-looping, o momento em que eu perdi a compostura e quase perco o cliente e o pouso estilo bola perereca. Aguardem.

Segunda-feira, Janeiro 05, 2009

O reveillon mais curto da história da humanidade.

Pense num cara que sabe conservar seus bens. Esse sujeito é Milton Filho, meu primo. Se um dia você quiser comprar um carro usado, procure saber se Milton Filho não quer vender o dele: é o melhor negócio do mundo. Todo dia ele lava o carro, passa produtos especiais nas portas e partes móveis, alinha e calibra pneus quase semanalmente e só abastece com gasolina aditivada premium. Sempre que entro na super máquina de Milton Filho tenho a impressão de que ela acabou de sair da concessionária.

Dia desses, meu querido primo entrou no meu carro para irmos a algum lugar. Girei a chave na ignição, liguei o motor, pisei na embreagem e engatei a ré (sem duplo sentido, por favor). Milton Filho deu um grito apavorado:

- Você é louco?!

Pisei assustado no freio. O pneu cantou.

- O que foi, rapaz?! – respondi com outra pergunta não menos exclamativa.

- Como é que você liga o carro e sai assim, imediatamente? Tem que esperar a gasolina circular por todo o motor... – Milton Filho apoderou-se da marcha do carro e a colocou em ponto-morto.

Eu achei que a injeção eletrônica ocupava-se disso. Mas, se o expert Milton Filho falou, tá falado.

Outra grande paixão do rapaz é uma lancha que herdou de meu tio. O barco é uma clássica Carbras-Mar de 32 pés da década de 70. Mas, assim como seus carros, esta embarcação anciã também nos traz a impressão de que acabou de sair do estaleiro. Trata-se de uma verdadeira relíquia, uma jóia flutuante, alvo constante de propostas de compra.

Quem já teve a oportunidade de navegar na Cavimar sabe o que eu estou dizendo. Nela, meu primo torna-se um chato, um sujeito insuportável. Não pise aí! Não suba ali! Cuidado com o verniz do corrimão! E é assim, sob a mão de ferro de Milton Filho que a sua lancha é uma das embarcações mais bem conservadas da Baía de Todos os Santos.

Bom, aproximava-se o final do ano de 2007 e eu, Letícia (minha namorada na época), Milton Filho e Beta (sua namorada), não fazíamos a menor idéia de onde iríamos passar o reveillon. Primeiro, pensamos em ir para Maceió, mas logo furou: só havia sobrado os piores hotéis a preços proibitivos. Depois, tentamos ver algumas praias no litoral da Bahia. Sem chance, era o mundo inteiro disputando com nós, baianos, o nosso próprio paraíso. Uma petulância.

Eis que tive uma idéia que tinha tudo para ser brilhante:

- Milton, por que não juntamos alguns amigos e passamos o reveillon na Cavimar vendo os fogos de artifício na praia da Barra?

Esperei serenamente uma negativa por parte de meu primo. Claro. Provavelmente, a Cavimar jamais tenha navegado à noite. Muito menos numa noite tão movimentada por embarcações indo de um lado a outro da baía. Apesar dos donos de lanchas tirarem uma boa grana alugando seus barcos para o reveillon e a procissão do Bom Jesus dos Navegantes no dia 1o do ano, Milton Filho jamais alugou, emprestou ou sequer usufruiu do seu precioso bem nesta época.

Ele refletiu. A ausência de um imediato “não” alimentou fortemente minhas esperanças. Aproveitei o silêncio e ratifiquei:

- Encomendamos salgados, doces, talvez um prato quente principal, compramos bebidas, rachamos o combustível e a hora-extra do marinheiro. Vai ser uma virada de ano diferente, moreno. E vamos estar cercados apenas de nossos amigos. O que acha?

Movido pela possibilidade iminente de passar o ano novo diante da TV na agradabilíssima companhia de Faustão e seu Show da Virada, Milton Filho considerou:

- É uma opção...

Levamos a idéia para as meninas que aceitaram no ato. Então, foi só convidar mais alguns casais que também não tinham destino certo e organizar as compras.

- Somos 4. Vamos chamar mais 3 casais e fechamos 10 pessoas. – disse Milton Filho.

- Ué, a capacidade da Cavimar não é 12 passageiros fora o marinheiro? – perguntei baseado na premissa de que quanto mais gente, mais animação.

- Sim, a capacidade é 12, mas não gosto de encher a lancha.

Estava demorando. Mas, enfim. Ele ter concordado com o reveillon na Cavimar era o último milagre de 2007.

Além de nós 4, convidamos Danilo e Andréa, Mirela e Limão e um casal de amigos de meu primo. Fizemos uma pequena reunião para definirmos as compras. Tudo decidido, partimos para as encomendas. Se o ano que estava por vir tivesse metade da abundância da nossa virada, 2008 tinha tudo pra ser um grande sucesso. O nosso petit comittè prometia.

Chegou o 31 de dezembro. Fomos até a Bahia Marina e embarcamos todos na lancha. O clima era de intimidade, alegria e descontração. Acomodamos as bebidas e comidas com certa dificuldade: eram tantas garrafas de champagne, vinho, cerveja e ice que a geladeira do barco não cabia. Dois isopores grandes com gelo foram utilizados como apoio.

- Ei, cuidado para o isopor não estragar o piso... – disse Milton Filho sem tirar os olhos da nossa manobra, minha e de Limão, para acomodar a geladeira improvisada.

Antônio, homem experiente do mar da Bahia, marinheiro da família há umas duas décadas, guardião tão ferrenho quanto Milton da embarcação, conduziu lentamente a Cavimar até o Porto da Barra, local onde a grande queima de fogos iria acontecer. Lá, muitos outros barcos, de todos os tipos, tamanhos e qualidades, também aguardavam o grande momento.

Iemanjá e São Pedro haviam entrado em acordo: o mar, manso e sereno, adormeceu ainda cedo suas ondas. O conhecido vento nordeste que costuma conduzir os velhos saveiros para dentro da baía tinha se transformado numa suave brisa, alento para uma típica noite quente de Salvador. Tudo corria bem.

10, 9, 8... garrafas de champagne em punho. Por favor, apontem para fora do barco! – advertiu Milton Filho. 7, 6, 5... pow! A bebida de Danilo precocemente estourou fazendo a rolha voar longe. Sinal de mau presságio. 4, 3, 2, 1. Pow, pow, pow, pow. Abraços trocados, beijos apaixonados, votos de feliz ano novo sob um céu iluminado por indescritível chuva de cores. As embarcações saudavam umas às outras através de sonoras buzinas.

Foi então que, cerca de 20, 25 minutos após o início do ano, o inesperado aconteceu na nossa festa exclusiva. No meio de um brinde na proa da Cavimar entre eu, Letícia, Limão e Mirela, ouvimos um grito desesperado de mulher. Era Beta de cima do flying bridge (guarde esse nome bonito que quer dizer o andar de cima da lancha):

- Vai bateeeeeeeeer!

Ao olhar pra trás, só deu tempo de ver um casco colossal de escuna vindo em nossa direção. Era tão grande, estava tão próxima e rápida que pensei que ela iria passar por cima de nós, pondo a pique a Cavimar. Parecia o prenúncio de uma nova edição do Bateau Mouche. Aliás, o barco de Milton Filho merece uma analogia mais pomposa: chegaria ao fim como um verdadeiro Titanic baiano.

Sorte que todos estávamos na frente da lancha quando o bico da Oreoca, a escuna desgovernada, rompeu toda a capota da Cavimar e ainda detonou o flying bridge. Quase, quase, Beta era atingida. O barco sacudiu por inteiro ao som de um desesperador barulho de prejuízo. Por alguns instantes, chegou a ressoar em minha cabeça aquela música insuportável de Celine Dion.

Passado o susto, olhei curioso para Milton Filho. Qual seria sua reação?

- SEU FILHO DA P***!!! – gritou meu primo para o marinheiro da escuna, misto de indignação e lamento, seu corpo tremia.

Num rompante de desespero, ameaçou se jogar no mar em direção à outra embarcação. Seguramos Milton, buscando acalmá-lo. Ele ainda bradava, quase sem voz, praguejando contra as próximas 30 gerações do marinheiro responsável pelo estrago.

Tanto o marinheiro quanto os passageiros da escuna, apreensivos, pediam sucessivas desculpas a todos e procuravam saber se havia alguém ferido.

- SEUS FILHOS DA P***!!! – plural neles.

Nos afastamos da Oreoca e chamamos pelo rádio a Capitania dos Portos – o Detran do mar. A mão trêmula de meu primo apertou o botão do microfone e então iniciou-se um diálogo com surpreendente lingüagem técnica:

- Atenção Capitania dos Portos: lancha Cavimar chamando... atenção Capitania dos Portos: lancha Cavimar chamando. Câmbio.

- Lancha Cavimar: Capitania dos Portos na escuta. Câmbio. – respondeu uma voz séria e pausada do outro lado.

- Houve um sinistro e nossa embarcação está avariada. Uma outra embarcação do tipo escuna colidiu conosco. Há fortes sinais de embriaguez por parte do marinheiro. Câmbio. – disse Milton Filho, falando bonito.

- Por favor, reporte o nome da embarcação que o albarroou. Câmbio.

Albarroou! Essa o cara foi buscar nas entranhas do dicionário. Milton Filho mandou bem no “colidiu” e vem o cara e lança “albarroou”. Virei fã do sujeito.

- A embarcação que nos albarroou possui o nome de Oreoca. Oscar, Romeu, Eco, Oscar, Charlie, Alfa. O-R-E-O-C-A. Câmbio. – respondeu Milton Filho, gastando o alfabeto radiofônico.

- Lancha Cavimar: favor reportar avarias. Câmbio.

[pequena pausa para pensar como fazer isso de forma erudita. A raiva impediu]

- A lona de popa foi arrancada, os frisos laterais foram parar no fundo do mar e o flying bridge está destruído. – respondeu Milton filho com leve ranger de dentes. E completou – Câmbio.

- Lancha Cavimar: favor soletrar flying bridge. – disse o sujeito, do qual, diante desta solicitação, eu já não era tão fã assim.

Milton Filho soltou por instantes o dedo que aciona o microfone e desabafou para nós, indignado:

- P*** que pariu... o cara é da Capitania dos Portos e não sabe como se escreve flying bridge.

Meu primo inspirou fundo como quem busca paciência, largou de mão o alfabeto radiofônico e soletrou pausadamente através do rádio:

- F... L... Y... B... R.... I... T. Câmbio. – e fez cara de indignação.

Nesse momento, segurei a gargalhada através de um esforço hercúleo, abafei uma explosão de risadas de maneira sobre-humana. As duas figuras, Milton Filho e o carinha da Capitania estavam indo tão bem, tão cheios de expressões e vocabulários difíceis e, do nada, os dois tropeçam no flying bridge. Se eu risse diante daquele pesadelo que meu primo estava passando, certamente hoje ele não falaria mais comigo.

De novo, a Capitania nos surpreendeu:

- Houve vítimas no albarroamento? Câmbio.

- Não. Mas a embarcação está avariada e o marinheiro da escuna apresenta embriaguez. Câmbio. – respondeu Milton Filho.

- Cavimar: como não há vítimas, não há como fazer ocorrência. Favor conduzir a embarcação de volta para a Bahia Marina e amanhã pela manhã entre de novo em contato. Câmbio final.

Era óbvio que o sujeito queria era que a gente parasse de encher o saco pra ele poder voltar à sua cachaça de reveillon. Como ele havia sido irredutível, obedecemos sua ordem e, por volta de meia-noite e quarenta minutos, pusemos fim à nossa festa de fim de ano. Voltamos desolados para casa. Milton Filho, deprimido.

Quando lembro dessa história, sempre acabo fantasiando uma situação. O erudito da Capitania dos Portos em um contato com outra embarcação sinistrada qualquer e, orgulhoso, perguntando:

- Houve avarias no flying bridge? F... L... Y... B... R... I... T. Flying bridge.

Câmbio final, amigos.

Desejo a todos um 2009 muito, mas muito melhor mesmo do que esse meu reveillon de 2007/2008.

Quarta-feira, Dezembro 17, 2008

Eu, Renata e Tio Fulano pra chutar o balde.


Ela era dona de um fabuloso par de olhos verdes, duas verdadeiras tochas cor de esmeralda. Loira, cabelo liso, bem liso, pele bem branquinha, lábios cor-de-rosa. Como se não lhe bastasse ter uma beleza difícil de encontrar em qualquer esquina de Salvador, ela era atenciosa, simpática, bem-humorada. E tinha um sorriso fascinante que, não raro, me levava a um quadro de taquicardia aguda. (Desculpem o fim de raciocínio não muito romântico, mas é a descrição de paixão de um hipocondríaco).

Faffy, uma grande amiga, apresentou-me Renata na porta do Colégio Módulo, onde as duas estudavam. Eu tinha 20 anos, a garota por quem meu coração subitamente bateu mais forte tinha apenas 16. Naquele dia, havia outros colegas delas na rodinha de conversa e então trocamos poucas palavras de início. Era uma daquelas situações onde você não consegue prestar atenção em nada que outra pessoa do grupo diz. Seja porque seu cérebro está ocupado demais tentando achar um assunto para puxar com quem lhe interessa ou porque nada alheio a ela desperta a atenção de seus ouvidos.

De lá, fomos comer alguma coisa em uma loja de conveniência próxima ao colégio. Convidei as duas, Faffy e Renata, para irem comigo no carro. Recebi de minha paquera um doce e carinhoso “não”. Com seu sorriso desarmador, ela disse que preferia ir a pé já que era bem pertinho. Foi uma resposta que tinha tudo para soar antipática, mas Renata era extremamente jeitosa, educada. E, cá pra nós, ter negado a carona foi apenas mais um indício de que ela era uma garota diferente de muitas outras.

Estávamos em pleno posto de gasolina comentando as aventuras virtuais de Faffy, a adolescente hacker que uma vez foi até rastreada pela polícia. Rimos bastante, o clima descontraiu ainda mais e então me senti à vontade para tentar estreitar o contato:

- Você tem ICQ, Renata?

Eu sempre fui um cara péssimo de paquera presencial. Mas meu desempenho aumentava consideravelmente quando o ambiente era virtual. Fui rato de VP da Telebahia (vídeo-papo), mIRC, ICQ e, há algum tempo atrás, MSN. Enquanto meus amigos iam para os ensaios do Gera Samba no Clube Espanhol, eu paquerava pela internet. Era muito mais prático e eficiente. Fora que eu não bebia e, nestas festas, nunca entrava no clima. Aí é meio brabo você ir pra um negócio desses só ficar ouvindo Compadre Washington gritar “Tchannn!! Tchannnnnnn!!” e ainda não morder ninguém. (Impressionante, é só falar do mestre que meu vocabulário torna-se irresistivelmente pobre e cafajeste).

Bom, vou voltar a Renata. Por algum motivo, falar dela é mais agradável que falar de Compadre Washington.

Trocamos números de ICQ e, chegando em casa, a primeira coisa que fiz foi adicioná-la à minha lista. A partir daí, passamos a conversar com uma freqüência quase que diária. Era impressionante, nunca faltava assunto. Falávamos de tudo e quando eu percebia, horas haviam se passado. Só tinha um problema nisso tudo: eu não conseguia avaliar se existia reciprocidade no sentimento ou se ela me via como um bom amigo.

Na hora das maiores dúvidas existenciais, nos momentos em que a vida jogava em meu colo seus grandes mistérios, era ele a quem eu recorria: Tio Fulano. Tio Fulano, como muitos já sabem, é um superlativo de praticidade, um sujeito que não costuma perder tempo diante de interrogações, quaisquer que sejam elas. Exclamativo, costuma ouvir minhas questões e lamentos com certa impaciência, mas sempre os ouve. E essa inquietação na hora da escuta existe por um motivo simples: ele quer dar a solução logo, sem demora. Através de um gesto típico que inclui a palma da sua mão levantada em minha direção e os olhos fechados, ele sempre encerra precocemente meu raciocínio dizendo: - Posso falar?!

Após outra conversa virtual com Renata que me deixou com mais dúvidas do que conclusões, resolvi apelar ao paladino dos conselhos. Cheguei na casa de Tio Fulano e, após ouvir pacientemente a uma dezena de piadas pornográficas, abri meu coração:

- Meu tio, acho que estou gostando de uma garota.

- Que bom, “meu tio”! Não tem nada melhor do que se apaixonar... – disse ele com entusiasmo. E em seguida perguntou – e ela também está gostando de você?

- Esse é o problema, meu tio. Não sei dizer. – respondi com certo pesar na voz.

Como quem pergunta a coisa mais óbvia do mundo, ele me argüiu com uma leve indignação:

- E por que você não se declara?!

- Meu tio, não é simples assim. Ela pode acabar se afastando de mim. – dei a típica explicação dos medrosos apaixonados.

- Acabar se afastando o quê, rapaz, tá maluco? Mulher gosta de homem com atitude. Chegue pra ela amanhã e diga que você está afim dela! Mas não demore não, tem que ser amanhã! – disse Tio Fulano, incisivo, gesticulando, gesticulando muito.

- Mas meu tio...

- Mas, nada! Amanhã você liga pra ela e depois vem aqui me contar. – Tio Fulano interrompeu-me sumariamente.

Só um louco contraria uma ordem expressa de Tio Fulano. E louco eu não sou. Assenti silenciosamente com a cabeça e pedi a ele que me deixasse utilizar seu computador. Ao conectar-me no ICQ, quem estava on-line? Renata.

- Meu tio, olha a coincidência, ela está no ICQ. – comentei, empolgado.

- ... combine logo seu encontro amanhã... – disse Tio Fulano, impaciente.

Conversei alguns minutos com a garota que fazia o tempo voar e, por conta de um enorme copo de suco que meu tio havia me servido, fui obrigado a levantar e ir ao banheiro fazer xixi. Coisa de 2 minutos. O suficiente para, no retorno, flagrar Tio Fulano sentando tranqüilamente à frente do computador. Fiquei desesperado, protestei de todos os jeitos. Ainda o vi terminar de escrever na tela de Renata, ao som espaçado de quem cata milho no teclado:

[caps lock]

Q-U-E-R-O N-A-M-O-R-A-R C-O-M V-O-C-Ê. E A-Í?

[enter]

Não dava para acreditar que ele tinha feito aquilo. “QUERO NAMORAR COM VOCÊ. E AÍ?”. Eu preparando terreno com todo o cuidado do mundo e vem ele e se declara – aliás, me declara – desse jeito. Não havia dúvidas, meu trabalho inteiro tinha ido por água abaixo.

- Meu tio, você é louco?? Agora é que essa menina não quer nada comigo. – disse eu, inconsolável.

- Relaxe, “Meu tio”. Ela vai se amarrar. – respondeu ele com direito a gíria e uma confiança que sabe Deus de onde tirou.

Nada de resposta de Renata. Eu olhava fixamente para a janelinha branca do ICQ de meu amor platônico. Nada!

- Viu, meu tio? Viu? – disse eu, emputecido.

Tio Fulano inspirou lentamente e, calado, fez um sinal de “está tudo sob controle”.

O suspense aumentava e Renata não se manifestava. Após um longo - quase eterno - instante, ela respondeu:

"Peu, você deve ter entendido errado... desculpe, mas somos apenas bons amigos... "

- Viu, meu tio? Viu? – bradei fazendo o clássico gesto de uma mão aberta batendo sobre a outra mão fechada.

Sem perder a serenidade, olhos semi-cerrados, gestos lentos, Tio Fulano respondeu:

- Você confia em seu tio? Ela está só fazendo charme. Vá por mim: a menina já está no papo...

Por que é que Deus havia me dado um tio louco? Era só o que eu conseguia pensar. Aliás, tinha outra coisa que eu me perguntava: por que raios eu resolvi contar isso a Tio Fulano? Conselheiro, tudo bem, ele realmente tinha esse dom. Mas cupido? Isso, definitivamente, era incompatível com a sua forma rápida de resolver as coisas. Por conta desse seu ato tão habilidoso, eu me meti numa sinuca de bico: se eu dissesse depois a Renata que havia sido meu tio no ICQ ao invés de mim, seria ridículo e ainda teria soado como desculpa esfarrapada de perdedor. Por outro lado, se eu assumisse a autoria daquela declaração desastrada depois de tanto cuidado ao conduzir a paquera, no mínimo, sairia da história como maluco.

No dia seguinte, entrei no ICQ. Renata estava lá. Eu não falei com ela, ela não falou comigo. Mais um dia se passou e então voltamos a nos falar, ainda friamente e sem a intimidade conquistada com tantas horas de conversa e perdida em uma única frase. Uma semana depois, estávamos namorando. Um mês depois, trocamos o primeiro “eu te amo”.

Moral da história: se um dia você tiver a honra de ouvir de Tio Fulano um “confie em mim, 'meu tio'”, confie. De algum jeito, ele sabe o que diz.

Segunda-feira, Dezembro 08, 2008

Um dia você ainda pagará pela minha cadeirinha de balanço. Um dia...


O meu reinado absoluto na casa 7 do Condomínio Pedra da Marca durou apenas 2 anos. 1 ano, 11 meses e 19 dias, para ser mais exato. Eu era o quinto filho, a raspa de tacho, nascido após um longo intervalo de 14 anos. Entre meus irmãos, havia uma grande disputa para ver quem me dava banho, quem escovava meus dentes, quem trocava minhas fraldas, quem me levava ao parque. Fui eu o responsável por trazer de volta a alegria àquela casa, arrefecida pelo crescimento dos outros 4 rebentos. Fui eu o responsável!

Então, sem mais nem menos, em uma manhã qualquer de agosto, minha supremacia chegou ao fim. Perdi a coroa. Da noite para o dia, não havia mais nenhum holofote sobre minha pequena pessoa. Os bilus-bilus, lilos-lilos e tchucos-tchucos já não eram mais pra mim. Eu ainda não tinha muita noção das coisas da vida, mas aquilo me parecia uma grande e terrível injustiça: Roberta, filha de meu irmão mais velho e primeira neta de meus pais, fez o magnífico favor de nascer.

Ela era irritavelmente fofinha, bonitinha, engraçadinha, espertinha e muitos outros inhas com os quais os adultos não cansavam de adjetivá-la. Juntava um monte de gente com cara de boba dizendo “ohhh” em volta do berço. Pessoas e mais pessoas orbitavam aquele ser minúsculo. Ei, eu continuo fofo e sei fazer coisas engraçadas para vocês rirem... - pensava eu. Mas não adiantava, meu tempo havia passado, as cortinas se fecharam para mim. E ela só sabia chorar, fazer xixi, cocô e todo mundo achava lindo.

E, falando em xixi e cocô, dizer que ela roubou meu trono não é metáfora. Quando minha rival cresceu mais um pouco, passaram pra ela o meu troninho que ficava no chão e eu era obrigado a resolver minha vida naquela colossal e desajeitada latrina, uma verdadeira prova de alpinismo e equilíbrio. Por conta disso, comecei a ter crises de prisão de ventre. Eu precisava reconquistar a atenção de todos de algum jeito. Só percebi que esta não era uma boa estratégia quando tentaram solucionar o problema com supusitórios. Fiquei curado dos episódios como que por encanto. Roberta mal havia declarado guerra a mim e já estava ganhando a sua primeira batalha.
Para meu desespero, não demorou muito e Dudu se separou da esposa e então minha querida sobrinha foi morar lá em casa. Como se já não fosse de bom tamanho as longas tardes e manhãs compartilhadas com a nova majestade, também tive que passar a dividir tudo com ela: babá, troninho, brinquedos, quarto, cachorro e – o pior de tudo – a atenção de meus pais.

À medida que crescíamos, crescia também a rivalidade entre nós. Fora que Roberta ainda muito cedo demonstrou um raro talento para a pirraça. Os resultados mais corriqueiros de suas provocações eram trocas de beliscões, tapas, unhadas, puxões de cabelo, muito chororô e castigos. Quantas vezes fiquei encarcerado em meu próprio quarto com tufos de cabelos entre os dedos? E, sob os olhos de julgo de meus pais, eu era sempre o algoz e ela, pequena e inocente, a vítima.

Como já disse por aqui, desde a tenra infância sonhava em ser médico. Mais precisamente cirurgião. Um dia, movido por esta vocação, convidei Roberta para ser minha enfermeira em um centro cirúrgico imaginário. E por um motivo simples: era a única forma dela concordar em ceder suas bonecas como pacientes.

Consegui luvas cirúrgicas, touca e máscara. O resto eram tesouras, facas, chaves de fenda e afins. Iniciamos os procedimentos e, concentrado, eu ia realizando incisões nas barrigas cheias de espumas e algodões das bonecas. Roberta, ao meu lado, colaborava passando-me os instrumentos que eu solicitava. Na verdade, acho que não era bem cirurgia, estava mais para eutanásia. Rapidamente, terminávamos com a vida e utilidade das pacientes. Quando se deu conta disso, a dona dos brinquedos abriu o berreiro, me denunciou e quase eu termino de castigo mais uma vez. Sorte que os supremos juízes aquele dia estavam de bom humor e consideraram como atenuante o fato dela ter sido conivente com a chacina.

É importante salientar que eu sempre fui uma criança tranqüila. Minha mãe dizia que em minha fase de recém-nascido, costumava ir ao meu berço ver se eu estava vivo pois nem chorar de fome eu chorava. Nem a fralda molhada me incomodava. E, apesar das turbulências que Roberta causava em minha vida, segui com esta mesma personalidade serena, quase iluminada. Minhas diversões eram basicamente revistinhas da Turma da Mônica e uns joguinhos, primitivos vídeo-games portáteis. O mundo podia acabar e eu estava sempre ali, numa boa, lendo ou jogando.

Buscando se vingar do genocídio das bonecas, Roberta resolveu pegar três dos meus joguinhos eletrônicos, os prediletos, e os atirou no vaso sanitário. Para garantir o fim das provas, ou mesmo certificar-se de que o dano seria permanente, acionou a descarga sucessivas vezes. Flagrei o fim daquela terrível cena, jamais irei esquecer: ela na ponta dos pés fazendo grande esforço para manter a descarga apertada e olhar fixo em meus brinquedos bailando naquele grande redemoinho. Com lágrimas travadas nos olhos e gosto de sangue na boca, parti como uma besta-fera pra cima dela. Prevendo Roberta sua morte iminente, disparou em direção ao quarto de meus pais gritando por socorro, um verdadeiro escândalo. De estalo, um plano para eliminar os meus problemas surgiu em minha cabeça e eu desisti da perseguição.

Eu tinha uma pequena cadeira de balanço que era o lugar onde eu mais costumava ficar. Ela era de vime e madeira, tinha uma confortável almofada com uma ilustração de um cachorro com a língua de fora. Como um moço-velho, eu vivia sentado nela, jogando e me balançando.

Pois o plano era simples: subir no telhado da casa com a cadeira e jogá-la lá de cima na cabeça de Roberta. Se tudo desse certo eu me sentiria plenamente vingado e, provavelmente, não sobraria mais sobrinha para contar a história. Eu já conseguia me enxergar de novo com a coroa na cabeça. E ela brilhava.

Assim, dei prosseguimento ao plano. Primeiro, amarrei um pedaço de corda à cadeira. Depois, subi no muro. Em seguida, icei minha arma até mim e segui equilibrando-a até o telhado. Lá, quebrei uma meia dúzia de telhas e me sentei com a cadeira ao meu lado. Busquei o ponto mais alto da casa para o estrago ser maior. Ali, num lugar em que eu jamais havia chegado, diante de uma vista maravilhosa, era só aguardar a vítima.

Com uma paciência que não é comum às crianças, aguardei uma tarde inteira. Pela raiva cultivada dentro de mim, acredito que eu seria capaz de esperar quantos dias fossem necessários para Roberta passar por ali. Após horas e horas, perto do pôr-do-sol – para o seu fim ser ainda mais poético -, minha inimiga passou pelo “X” imaginário no chão. Rapidamente fiquei de pé, peguei a cadeira, a ergui para que ela ganhasse ainda mais altura e lancei-a com uma força que só o ódio concede a alguém. Creio que a mão de Deus tenha puxado Roberta alguns centímetros para o lado. A cadeira se espatifou no chão. Sem entender o que havia acontecido, porém imaginando quem era o responsável por aquilo, mais uma vez ela saiu correndo. E, tão destruído quanto aquela minha inseparável companheira de leituras e jogos, ficou meu coração. Quanto remorso. Eu havia perdido meus brinquedos preferidos, minha cadeira de balanço, minha merecida vingança e Roberta ainda estava lá, intacta. De coroa, manto e cetro.

De cima daquele telhado, de onde ninguém podia me ver, chorei como talvez jamais tenha chorado um dia. Mais até do que quando minha pior e melhor companhia foi passar as férias de verão com a mãe em Recife e então eu descobri precocemente o que era padecer de saudade.

* Esse post é para Ró, com carinho e um beliscão. Para não perder o costume.

Domingo, Novembro 30, 2008

A Casa Mal-Assombrada. (Como diria Jack "o Estripador": vamos por partes).


Essa vida é mesmo cheia de coincidências. Imagine que em 1998 fomos eu, Daniel e Tio Fulano para a Flórida. Lá, ao pegar o elevador do hotel, vimos uma família correndo pelo lobby e acenando para nós como se pedissem para os aguardarmos. Assim o fizemos. Ao aproximarem-se, surpresa geral: os apressados eram Tia Lídia, Tio Renato e Camila - pai, mãe e filha, moradores do mesmo prédio que nós três.

Pense bem: qual a probabilidade de dois grupos que moram no mesmo lugar se encontrarem na mesma época, no mesmo país, no mesmo estado e no mesmo hotel entre os milhares que existem em Orlando? Enfim, foi aquele espanto geral. Um grato espanto, na verdade. Era o início de uma viagem divertidíssima, cheia de boas risadas, quase sempre causadas por Tio Fulano e suas histórias e piadas impublicáveis.

Sim, são realmente impublicáveis, mas vou pedir licença à censora do Blog, Sandra, e contar algumas. Crianças, não leiam.

A gente estava andando pelo parque e Daniel, o chato do Parque das Árvores, começou a se queixar: - tá calor, tô com fome, tô cansado, vamos só em mais um brinquedo.

- Daniel, você é um pobre tatu. - retrucou Tio Fulano com sua habitual falta de paciência.

Daniel, típico mal-humorado de poucas palavras, ignorou a observação. Mas, Tia Lídia, curiosa, perguntou:

- O que é um pobre tatu, Fulano?

- Um pobre tatu, Lídia, só tem o casco e o c*. O casco anda todo rachado e no c* tem um p** enfiado. – respondeu Tio Fulano com tranqüilidade e certa didática.

Confesso que fiquei apreensivo, afinal, Tia Lídia é uma pessoa um tanto quanto conservadora. Mas ela sorriu contida. Aliás, até Daniel, o pobre tatu, deu risada.

E a viagem prosseguiu. Assim como as tiradas de meu Tio.

Uma outra vez, explicando o que ele considerava ter sido alguma injustiça praticada contra ele, nos veio com essa durante o jantar:

- ... e aí o cara queria me vender pelo dobro do preço. Não aceitei, ele queria que eu assinasse um contrato bililica. – disse Tio Fulano, inconformado.

Advogado experiente e procurador do estado, Tio Renato perguntou intrigado:

- O que é um contrato bililica, Fulano?

- Eu entraria com o c*, ele entraria com a pi**. Não assinei, é claro. – respondeu meu desbocado tio, muito naturalmente.

Então, uma noite, estávamos todos voltando para o hotel na van alugada quando vimos, no meio do nada, uma enorme mansão com um amplo estacionamento na frente. A arquitetura exageradamente sombria, junto com o enorme letreiro iluminado onde líamos “The Haunted House” (A Casa Mal-Assombrada), nos revelou ser um brinquedo, mais uma atração daquela cidade repleta de entretenimento. Eu, Daniel e Camila, os três adolescentes do carro, enchemos a paciência de todos para irmos conferir.

Estacionamos o carro e, ainda do lado de fora, já ouvíamos sons de tiros, serras-elétricas, lamentos, gritaria. Fruto de algumas caixas de som escondidas pelo jardim da casa, tudo para deixar os visitantes no clima. Aproximando-nos da porta, ainda ouvi uma trovoada forte. Se não fosse o céu limpo e estrelado, teria certeza de que iria chover. Tenho que tirar o chapéu: além de invasão a países alheios, os americanos também são craques em promover diversão.

Ao entrar na casa, parecia de fato com um lar qualquer: porta-retratos, relógio antigo de parede, cabide para pendurar casaco, uma mesinha com um jarro de flores e uma escadaria que provavelmente dava nos quartos. Porém, a decoração carregada de madeira escura e o ambiente todo à meia-luz nos remetia diretamente a um filme de terror. Propositalmente, a temperatura era baixíssima, experimentamos um frio cortante.

De repente, apareceu um mordomo. Um tipo clássico de mordomo. Extremamente polido e monossilábico, com seu inglês britânico ao invés de americano, nos pediu que o seguisse e virou de costas. Neste instante, iniciou-se uma discussão entre nós:

- Eu não vou na frente! – antecipou-se Daniel.

- Eu também não! – completou Camila.

- Eu vou no meio! – me defendi.

Os adultos também ficaram no maior jogo de empurra até que o mordomo virou-se para nós e falou numa rápida fusão tônica entre polidez britânica e barraco latino-americano:

- I said... FOLLOW ME!

- Eu disse… SIGAM-ME!

Achamos melhor obedecer. Na ordem em que estávamos, seguimos em fila atrás daquele sujeito alto, pálido e vestido num elegante fraque negro. Graças a uma rápida manobra, consegui me posicionar no meio de todos, evitando as extremidades. Caminhando pelo corredor, o não muito simpático senhor nos advertiu sem olhar para trás:

- Não toquem nos atores que eles não tocarão em vocês.

Não sei se eu entendi certo, mas, se por acaso a gente resolvesse bater no monstro, ele bateria na gente de volta. Mas, tudo bem, aquele dia eu estava calmo, tinha tomado meus remédios controlados e não iria espancar ninguém.

Tão repentino quanto o aparecimento do mordomo, foi o seu sumiço. Nos vimos sozinhos naquele corredor escuro e cheio de quadros nas paredes. Os passos de Tio Renato, o primeiro da fila, eram curtos, milimétricos, quase não existiam. Tia Lídia reclamou:

- Vai, Renato! Qualquer coisa a gente corre de volta...

Blam! Um forte barulho denunciou o fechamento da porta atrás de nós. Era o fim do plano B de Tia Lídia. Após algumas dezenas de passos de formiga de Tio Renato, ainda no corredor, começamos a ouvir uma voz masculina como se estivesse resmungando. Ouvíamos também um som de líquido sendo remexido. Pensei logo no pior: tem alguém sendo estripado. Ao chegarmos na sala, não é que eu estava certo? No meio do que parecia ser uma sala de televisão, havia uma maca com um corpo aberto e um louco vestido de cirurgião cheio de tripas nas mãos. Ao ver-nos, ficou irado, começou a gritar conosco e então meteu a mão no tórax do pobre-coitado, arrancou o coração e jogou com força em nossa direção. O órgão bateu na grade que nos separava daquela cena e um líquido espirrou na gente. Só fomos perceber que era água ao invés de sangue quando já estávamos de volta ao corredor, desta vez, a passos muito mais rápidos do que os de Tio Renato.

Surgiu em nossa frente um jovem vestido de branco. Não era assustador. Na verdade, ele é quem parecia assustado. Pediu para que a gente o seguisse, como se fosse nos mostrar a saída daquele lugar. O jovem disparou a correr e, com um salto, atravessou o espelho que havia na parede. Ao chegarmos perto do objeto, só víamos nosso próprio reflexo. Então, mais um susto: o espelho acendeu e vimos o rapaz lá dentro apontando para a direção que devíamos seguir pelo corredor.

Durante nossas caminhadas, sons estranhos sempre nos acompanhavam. Mas, à medida que fomos nos aproximando do próximo ambiente, um som ritmado de pancadas ia aumentando. O que será que nos aguarda? Este era o pensamento corrente de todos naquela casa.

Ao entrarmos no cômodo, que surpresa desagradável! Estávamos no quarto da menina do Exorcista. Ela estava deitada, seus braços amarrados por dois lençóis à cabeceira da cama. Mas a garota não cansava de tentar se libertar: levantava meio corpo, se debatia inteira, convulsionava, trincava os dentes e então jogava as costas com força contra o colchão. Era este o som macabro que ouvíamos ainda do lado de fora.

Mais uma vez, a porta atrás da gente se fechou. O único caminho que tínhamos era contornarmos a cama da possuída e sairmos por um portal do outro lado da cabeceira. Ficamos um bom tempo parados ao lado da cama, olhando fixamente para aquela menina e seu rosto transfigurado. Seus movimentos obedeciam uma seqüência lógica, o que levantou uma discussão:

- É um robô. – disse Camila.
- Não, é uma pessoa, olha o detalhe da pele. – disse Tio Fulano.
- Não, é um robô sim, repare no movimento sempre igual. – disse Daniel.
- É pessoa!
- É robô.
- É pessoa!
- É robô.
- Parem de discutir. Se é robô ou se é pessoa, o fato é que teremos que passar por ela de qualquer jeito. Vamos. - Tia Lídia pôs fim à celeuma.

Como o quarto era pequeno, a distância entre as paredes e a cama devia ter em torno de meio metro. Os seis foram se esgueirando pela parede, evitando a lateral da cama. Doze olhos fixos na garota. Viramos a quina e estávamos todos de frente para a endiabrada quando, num solavanco mais forte, soltou das amarras um de seus braços. Tio Fulano infelizmente estava certo: era pessoa. Enfurecida, aos berros, ela não sabia se esticava o outro braço para nos alcançar ou se soltava o último lençol. Em meio à sua dúvida e nosso pleno terror, corremos pela outra lateral da cama e saímos dali. Após termos nos certificado de que ela não nos seguia, diminuímos o passo.

Mal deu tempo de respirar e começamos a ouvir ao longe um som de moto-serra acelerando. O ao longe tornou-se perto rapidinho: era Jason, de Sexta-Feira 13. Do pouco que consegui olhar, era um sujeito robusto, com sua típica roupa de lenhador e máscara de jogador de hockey. Disparamos mais uma vez. Corríamos com o mesmo vigor das vítimas dos filmes de terror que ele estrelava. A ordem da fila era a seguinte: Tio Renato na frente, depois Tia Lídia, Camila, eu, Daniel, Tio Fulano e Jason. Mesmo tendo ainda duas pessoas entre mim e o assassino, o som da moto-serra dava a entender que minha orelha seria decepada em instantes. O sujeito era bom de corrida.

Todos concentrados em fugir e eis que, misturado ao barulho infernal daquele motor em alta rotação, ouvimos os gritos de Tio Fulano com sua voz de trovão:

- Socorro! Socorro, me ajudem! Esse cara aqui atrás quer comer meu c*!

O misto de corrida com gargalhada não deu certo. Não tinha como dar. Camila logo perdeu o fôlego, tropeçou e caiu na minha frente. Tropeçando nela, eu também caí. Na seqüência, Daniel. Em seguida, Tio Fulano. E, por fim, Jason e sua moto-serra. Quase o maníaco fazia vítimas, realmente. Mas por sufocamento.

Jason pegou seu trambolho e desapareceu. Deve ter se assustado com o nosso grupo. Brasileiro sempre chega pra bagunçar, é incrível. Principalmente se tiver um Tio Fulano no meio. E como bom brasileiro que gosta de tirar vantagens, eu ainda pensei em processar o estabelecimento e ficar rico: como é que dizem que os monstros não iriam tocar na gente e o sujeito simplesmente se joga em cima de nós?

No caminho de volta para o hotel, a resenha não parava. Relembrávamos dos sustos e ríamos muito. Entre re-memórias de perseguições de um monstro e outro, Tia Lídia surpreendeu a todos dirigindo-se a Tio Fulano:

- É, Fulano... dessa vez, por pouco você não vira um pobre tatu.

Quinta-feira, Novembro 20, 2008

Por que não gosto de dormir em outra casa que não a minha.


Quando eu tinha lá pelos meus 8 anos, sempre pedia à minha mãe que me deixasse convidar um amigo para passar o final de semana lá em casa. É aquela coisa: filho temporão, bem mais novo que meus 4 irmãos, àquela altura, todos casados ou morando fora. Sem contar que na minha rua não morava uma criança sequer. Portanto, eu não tinha companhia para brincar. (É de partir o coração, eu sei, mas era a realidade).

Mas, não sei por que, eu nunca aceitava um convite para passar o final de semana na casa de um amigo. Quando isso acontecia, eu tentava persuadi-lo a fazer o contrário e normalmente conseguia. Confesso que eu era uma criança cheia de manias e vontades, desses meninos que merecem uns cascudos de vez em quando e que jamais os têm.

Foi então que Cláudio, um amigo do Colégio São Paulo, me chamou para passar o fim de semana com ele (nota: o texto está ficando estranho, dúbio, mas lembre da inocência que acompanhava a nossa pouca idade). No primeiro momento, tentei convencê-lo a ir para a minha casa. Sem sucesso: ele havia ganhado um Phantom System, o mais moderno vídeo-game daquele momento e jamais sairia de perto do brinquedo.

- Traga o Phantom pra cá! – insisti.

- Não dá. Felipe também está viciado no jogo e meus pais não vão deixar ele ir. – respondeu Cláudio, jogando um balde de água fria na minha tentativa.

Felipe era o irmão mais novo de Cláudio. Infelizmente, vi que desta vez não tinha jeito. E o pior: eu também estava louco pra jogar Phantom System. Inclusive tinham me prometido um destes para o Natal, esperei com a ansiedade de uma criança-cheia-de-manias-e-vontades-e-que-merecem-cascudos e, assim como os cascudos, jamais ganhei o vídeo-game. Não foi por falta de merecimento.

Arrumei uma sacola com umas duas mudas de roupa, escova de dentes, meias, três cuecas pra garantir e constatei que um par de tênis bastava. Ato este que até então era inédito. Para você ter uma noção de como tudo isso era novidade pra mim, durante toda a infância jamais cheguei a dormir uma só noite na casa de minha avó.

- Mãe, estou pronto. Me leve. – disse eu, confiante, metaforizando, dando duplo sentido ao “estou pronto”.

Cheguei na casa de Cláudio e, no primeiro momento, minha atenção estava 100% focada nos jogos do fantástico Phantom System. Ah, que gráficos! Eu podia passar a vida jogando aquilo. Não tinha fome, não tinha sede, não tinha vontade de fazer nem xixi, nem cocô. Por mim, envelhecia diante daquela televisão e seus pixels coloridos e sons futuristas. Depois de muitas batalhas, corridas de Fórmula 1, tiros trocados, conquistas espaciais e lutas com ninjas, chegou o fatídico momento: a hora de dormir.

A mãe de Cláudio me deu uma toalha de banho, gentilmente cedeu a cama de meu amigo pra mim, puxou a bicama e acomodou o desalojado nela. Depois, cobriu com cuidados de mãe Felipe, seu filho mais novo. Era a hora. Um boa noite, a escuridão e um silêncio profundo. O que eu estava fazendo ali?! Demoraria muito para amanhecer, precisava dar um jeito de conseguir dormir. Maldita idéia, maldito vício de vídeo-game. Relaxe, vai dar tudo certo, eu procurava me acalmar.

Pra piorar substancialmente a situação, Cláudio havia me dito que Felipe era sonâmbulo. Antes mesmo de conhecer seu irmãozinho, meu amigo já tinha contado diversas histórias de seu distúrbio em conversas no colégio. E como sou muito curioso, me aprofundava nas perguntas: é verdade que não se pode acordar um sonâmbulo? Ele fica com os olhos fechados ou abertos? Ele tropeça nas coisas? Quanto tempo dura isso? Depois ele lembra de tudo? Dá medo?

- Acho que aquele Alimbinha me deu dor de barriga. Vou no banheiro. – Cláudio interrompeu o silêncio e meus pensamentos de desespero.

Quando o ouvi trancar a porta do sanitário, me dei conta que tinha acabado de ficar sozinho com o sonâmbulo. Um arrepio percorreu toda minha espinha. Os poucos pêlos que tinha nos braços ficaram em pé. Coberto pelo lençol até o pescoço, tomei coragem para virar o rosto e olhar Felipe. Ele dormia tranqüilamente. Apesar desta constatação ter me acalmado por um instante, a diarréia de Cláudio sem dúvidas estava sendo mais sofrível pra mim do que pra ele. Nunca quis tanto ouvir o barulho de uma descarga.

Continuei olhando atentamente para o irmão de meu amigo. Foi então que a paz do semblante de Felipe deu lugar a feições carregadas de ódio. Para o meu mais genuíno pânico, o rapazinho sentou-se na cama, abriu os olhos e me encarou em silêncio. À esta altura, eu apertava com tanta força o lençol que, se ele ainda existir, tenho certeza de que minhas unhas ainda estão lá. Barulho de descarga, por favor, barulho de descarga, eu pensava.

O ódio nos olhos de Felipe começaram a dar lugar a uma ira aterrorizante. E o alvo daquele olhar era eu, somente eu. Não era possível que aquilo estava acontecendo comigo. O garoto então rangeu os dentes e falou devagar, com uma voz que lembrava à da menina do Exorcista:

- Saia daqui....

Eu me tremia, a cama tremia, meus olhos queriam saltar das órbitas, ainda bem que eu tinha levado três cuecas. Após uma pausa, ainda com o olhar fixo em mim, Felipe repetiu, porém, aos gritos:

- SAIA DAQUI!!!

Do salto que dei da cama, não me lembro mais. Mas imagino que eu já deva ter caído fora do quarto, no corredor. Para onde o nariz apontou, corri como um louco. Quando percebi, estava dentro do quarto dos pais de Cláudio. Na velocidade que vim, pulei com tudo na cama do casal, bem no meio dos dois. Eles acordaram com o que eu calculo ter sido um bom susto.

- O que está havendo, menino?? – perguntou a mãe de Cláudio.

- É Felipe, tia. É Felipe... – repetia enquanto, desta vez, apertava o lençol de sua cama.

Ela foi até o quarto onde aquele filme de terror estava se passando. Eu, definitivamente, não queria mais voltar lá, mas o pai dos meninos me expulsou da cama de casal de maneira cordial. Ao entrar no quarto me esgueirando pela parede, ainda troquei olhares com Felipe. A mãe alisava o cabelo daquele projeto de demônio.

- Dorme, meu filho, dorme... – disse a mãe com uma voz doce, contrastando com os sons guturais que o fedelho produzia.

Curiosamente, diante dos afagos, Felipe pendeu o corpo para o lado, fechou de novo os olhos e sua face relaxou dando lugar a uma expressão angelical. Neste momento, Cláudio resolveu sair do banheiro. Eu que tivesse esperado ele terminar de colocar as tripas pra fora.

- O que foi? – perguntou meu amigo ao ver a mãe ajeitando Felipe na cama e eu acuado no canto do quarto.

- Seu irmão ficou sonâmbulo e Pedro se assustou. – disse a mãe, utilizando-se de grande eufemismo.

As coisas se normalizaram: o menino dormiu, Cláudio parecia ter se visto livre do que lhe fazia mal e, quando a mãe nos deu novamente um boa noite com a mão no interruptor de luz, fiquei em dúvida entre duas frases para responder:

- Tia, liga pra minha mãe, quero ir pra casa.

Ou:

- Tia, posso dormir com você?

Não tive coragem de falar nem uma, nem outra. Passei a noite vigiando Felipe e só fui dormir quando ele acordou de manhã me dando bom dia antes de ligar novamente o vídeo-game para jogar.

Quinta-feira, Novembro 13, 2008

Não pára, não pára.


Em publicidade existe uma técnica de criação chamada “brainstorm”. Sem querer subestimar os conhecimentos em inglês de ninguém, é algo que podemos traduzir como tempestade cerebral. Mesmo odiando estrangeirismos, confesso que seria estranho chamar os colegas para fazer uma tempestade cerebral. Enfim, “brainstorm” nada mais é do que uma reunião entre dois ou mais criativos com o objetivo de despejarem um turbilhão de idéias sem qualquer tipo de censura e onde um pode ir complementando o conceito que o outro criou.

Eu estava com um briefing em mãos para criar defensas de rua para o Motel Scala. Defensas são aquelas placas que ficam nas calçadas, muitas vezes próximas de sinaleiras e, geralmente, instaladas nos arredores dos estabelecimentos que elas anunciam. Trata-se de uma boa ferramenta de localização.

Resolvi então fazer um brainstorm com Renato, diretor de arte da agência na época e Danilo, meu sócio. Só que, dessa vez, fizemos diferente: trocamos nossas idéias pelo MSN. Um erro.

Depois de muitos conceitos que não foram aproveitados, encontramos um caminho criativo que consideramos interessante. Imaginamos ser possível fazer um paralelo entre coisas que são ditas em, digamos assim, momentos íntimos e frases indicativas da localização do motel.

Você vai entender. Transcrevo abaixo o diálogo virtual:

Pedro diz:
Vamos lá moreno... o que é que as pessoas dizem quando estão transando?
Renato diz:
Ai, ai, ai, ai... que delícia...
Pedro diz:
hahahahahaha por favor, dê prefência a diálogos que tenham a ver com indicação de localização.
Renato diz:
hahaha ok, ok...
Renato diz:
Deixa eu pensar.
Pedro diz:
Algo assim... colocamos a placa um pouco antes da virada da rua com uma seta e o título: “Dá uma viradinha.”
Renato diz:
Certo... antes do ladeirão que desce para a cidade-baixa: seta pra baixo e título “Desce um pouquinho”
Pedro diz:
Ok, massa. Marca esse aí. O que mais?

E assim íamos criando, escrevendo um monte de frases de duplo sentido. No meio delas, algumas linhas meramente pornográficas, sem função alguma. E é isso que é brainstorm: um monte de bobagem sendo dita e algumas poucas coisas sendo aproveitadas.

Continuamos:

Renato diz:
Só mais um pouco. Você está quase lá.
Pedro diz:
Continue. Não pare, não pare.
Renato diz:
Mais rápido, mais rápido.

Nem Ney Matogrosso e Freddie Mercury conseguiriam manter uma conversa desse naipe. Copiei o trecho acima na íntegra e resolvi colar na janela do MSN de Danilo para que ele desse a sua opinião e também acrescentasse alguma frase pornô-publicitária. Mas, o inesperado aconteceu. Colei o diálogo na janela de Domingos, um amigo que até então nunca havia duvidado de minha masculinidade. Ficou assim:

Renato diz:
Só mais um pouco. Você está quase lá.
Pedro diz:
Continue. Não pare, não pare.
Renato diz:
Mais rápido, mais rápido.

(pausa para pensar no que dizer)

Pedro diz:
Mingote, não é nada disso que você tá pensando. Eu tô criando com Renato aqui umas peças para o Motel Scala...
Domingos diz:
Eu não tô pensando nada não... não precisa se justificar
Pedro diz:
Show de bola, então
Domingos diz:
Mas na boa... vá fazer sexo virtual com seu amigo em outra janela, ok?

Essas defensas do motel estão coladas na rua até hoje. Devem ter pra lá de dois anos e já recebemos o pedido de criação do cliente para serem substituídas.

Não sei se consegui convencer Mingo da minha heterossexualidade, mas aproveito o espaço para reforçar: Mingote, eu não sou viado. Renato não sei, mas eu não sou viado.

Sexta-feira, Novembro 07, 2008

"Doe uma laranja, lá lá lá lá lá, mas se for bonzinho doe duas"


Aos 11 anos de idade, fiz minha primeira campanha de sucesso. Uma campanha agressiva, de resultado, bem sucedida em recall, share of mind, market share e outros estrangeirismos publicitários que convergem em uma única tradução: deu certo. É com satisfação que lhes apresento a vencedora e polêmica campanha da laranja.

Infância é assim: brincamos de esconde-esconde, pega-pega, polícia e ladrão, baleado, garrafão, jogamos vídeo-game, futebol, papel higiênico molhado nos carros que passam na rua e, quando não resta mais nada pra fazer - após fazermos tudo -, chamamos de tédio. Foi justamente num momento como este, de ócio criativo, que a idéia da campanha tomou corpo.

Estávamos eu e Daniel na casa de Juninho, os três completamente de pernas pro ar. Um deitado no chão olhando pro teto, outro fitando a TV sem prestar a menor atenção no programa que estava passando e o outro (certamente não era eu, por conta da minha educação britânica) tirando catotas do nariz e lançando-as contra a parede através de petelecos.

- Deu fome... – disse Daniel, interrompendo o longo silêncio.

- É, também estou com fome. – concordei.

- Vamos ver o que tem na cozinha. – disse o dono da casa enquanto saía lentamente de sua inércia.

Juninho explorou primeiro a geladeira. Com a porta do eletrodoméstico aberta, passeava lentamente os olhos nas prateleiras, uma a uma. Pegou um queijo e disse para si mesmo:

- Não tem pão.

Devolveu o queijo, deu outra olhada e, com as mãos vazias, fechou a porta. Abriu o congelador logo acima. Nada de sorvete ou qualquer sobremesa, apenas cubas de gelo. Para nosso azar, aproximava-se o dia do mercado do mês em sua casa. Ou seja: parcas, quase nulas, as opções de lanches. Ainda tentou a despensa. Arroz, feijão, milho em conserva, palmito, caldo Knorr, sabão em barra, detergente. Nada!

- Tem laranja... – disse Juninho apontando desanimado para a fruteira em cima da mesa de almoço.

Laranja? Só lembro de ter chupado laranja quando era pequeno, nas festas juninas da escolinha. Laranja só em suco e olhe lá, eu era movido a Coca-Cola. Daniel fez uma última tentativa:

- Não tem um biscoito aí não?

- Não. Tem laranja... – reforçou Juninho.

Era o jeito. Cada um pegou uma fruta. Após as lavarmos, o dono da casa gentilmente nos cedeu uma faca. Sem prática alguma com o instrumento cortante, levamos uma década para conseguir tirar toda a casca. Demora que só fez aumentar a fome. Juninho como sempre, o mais precoce, conseguiu deixar a laranja só na casca interna, aquela parte branca. Dividiu-a em duas bandas com um corte preciso, prenúncio de sua carreira bem sucedida de cirurgião. Ao levar aquela polpa amarela e brilhante à boca, Juninho fez uma cara de satisfação como se estivesse comendo uma barra inteirinha de Toblerone. Àquela altura, eu e Daniel tínhamos nas mãos mais cascas do que fruta. Na tentativa de chegar na parte interessante, dávamos inábeis talhos que consumiam nossa preciosa merenda.

Conseguimos. Juninho tinha razão. O silêncio dos três na cozinha revelava a delícia que é chupar uma laranja. Aliás, não era bem silêncio, era um barulho irritante, como se fosse um beijo de carnaval. Sluuurp, glup, shliii, esses sons, mais ou menos. Se não fosse pela nossa pouca idade e alguém visse a avidez com que sorvíamos aquele sumo, diriam que a gente tinha fumado maconha e aquilo era larica.

Terminada a meleira geral em cima da mesa, instantaneamente, cada um pegou mais uma fruta. Dessa vez, eu e Daniel ignoramos a casca e só dividimos as bandas com a faca. A partir da terceira rodada, descobrimos a espetacular maneira de cortar a laranja em cruz. Desse jeito, assava muito menos a boca.

Quarta rodada, quinta, e acabaram as laranjas da casa. A fome não havia passado. E o pior: aquele vazio no estômago tinha se transformado em desejo por laranja. Não queríamos sanduíche de queijo, nem biscoito recheado São Luiz, nem Nescau, nem sorvete, nem mini-pizza, nem geléia de mocotó. Nem mesmo Toblerone servia. Só laranja.

Fomos até minha casa e nos deparamos com sete laranjas no cesto. As dividimos irmanamente. Duas pra cada, a sétima cortada em cruz, um gomo pra cada e o último deles no zerinho ou um. Comemos, sujamos tudo mais uma vez e partimos para a casa de Daniel em busca de mais laranjas. Incrível, aquilo era muito bom, mas não enchia a barriga.

No elevador, encontramos Fernando e Léo. Contamos a eles qual era a nova sensação do prédio e pedimos a colaboração dos dois já que o estoque de laranjas de nossas casas tinha ido para o espaço. A recepção da idéia não foi das melhores.

- Chupar laranja? Se ainda fosse para jogar na casa de Dr. Encrenca... – disse Fernando, referindo-se a um vizinho chato.

- Por mim vocês ficam com todas que acharem lá em casa. – disse Léo, desdenhando de nossa mania repentina.

A indiferença dos dois durou pouco. Logo eles já estavam nos ajudando a finalizar as cítricas frutas de suas próprias casas com mais gula que nós, os pioneiros. Então, um grande problema ameaçou tirar nossa tranqüilidade: já não havia mais fontes de laranjas. Após um pequeno início de tumulto, verdadeira síndrome de abstinência, as coisas foram começando a clarear.

- Por que não vamos de apartamento em apartamento pedindo laranjas? – Daniel deu seu lampejo de solução.

- Claro que não. Sou lá mendigo pra ficar indo de porta em porta pedindo comida? – exasperou-se Fernando, o orgulhoso da turma.

- Podemos fazer melhor: vamos criar a campanha da laranja. – disse eu, triunfante, pai-coruja da própria idéia.

Meus amigos lançaram em mim um olhar de peixe morto. A experiência mostrava que quando eu tinha estalos assim, costumava sobrar para alguém ou para todos. Acalmei o grupo apresentando o planejamento da campanha:

- Pegamos o toca-fitas de Daniel e gravamos uma mensagem pedindo doações de laranjas. Depois, colocamos o aparelho na frente da porta do apartamento junto com uma cesta vazia, apertamos play, tocamos a campainha e nos escondemos na escada.

Devo ter sido persuasivo. Por algum milagre eles toparam no ato. Fomos até a casa de Daniel e fizemos a gravação. O texto foi meu, a locução de Juninho e a trilha, um coro quase beneditino, do resto do grupo. Não repare, mas o resultado foi mais ou menos assim:

- (coro ao fundo. Locução com voz impostada em tom sério) Atualmente, a fome é uma das principais causas de morte no mundo inteiro. E as crianças do Parque das Árvores estão com fome. Por favor, doe laranjas para combater esse mal. Basta depositá-las no cesto que se encontra ao lado do aparelho de som. Muito obrigado.

Como se já não bastasse a locução, entrava um jingle de gosto duvidoso:

- Doe uma laranja, lá lá lá lá lá, mas se for bonzinho doe duas.

Nem rima tinha.

Existe uma máxima na publicidade que diz que propaganda pra dar resultado tem que ser ou muito boa, ou muito ruim. Adivinha qual era o caso da nossa? Só sei que a campanha deu certo: no terceiro ou quarto apartamento já estávamos com o cesto cheio de laranjas.

Ainda celebrávamos a grande quantidade de frutas recolhidas quando sofremos um infortúnio. Deixamos o som na frente de um dos apartamentos e, como de costume, nos escondemos na escada. De repente, no meio da locução, o som foi interrompido e então ouvimos a porta bater. Voltamos para olhar e só encontramos a cesta. Haviam roubado o aparelho de Daniel.

Tocamos várias vezes a campainha. Enquanto batia na porta sem parar, Daniel gritava “devolve meu som, devolve meu som!”. Depois de alguns minutos, já saturado da confusão na entrada de sua casa, Alexandre, o revoltado adolescente de 16 anos responsável pelo furto, abriu a porta e colocou o som diante de nossos pés através de movimentos bruscos.

- Doação de laranjas?! Vocês são idiotas, é? – Perguntou irritado e em seguida bateu a porta com força na cara da gente.

Após tantas histórias nossas que, no mínimo, desafiaram o bom senso e jamais obedeceram qualquer lógica, percebo que a áspera pergunta de Alexandre ainda ressoa em minha cabeça. Mas, confesso: ainda não encontrei resposta para ela.

Terça-feira, Novembro 04, 2008

O melhor amigo de um hipocondríaco.


junior diz:
colé moreno!
junior diz:
rapaz...
junior diz:
fiz uma cirurgia baaaala
Pedro diz:
rsrsrsrsrs
junior diz:
tumorzaço de rim
junior diz:
por laparoscopia
Pedro diz:
matou?
junior diz:
filho...to ficando bom
Pedro diz:
muito complicado?
junior diz:
rapaz...dificil..
junior diz:
muita técnica
junior diz:
vários passos delicados
junior diz:
mas deu certo
junior diz:
quase 3 horas
junior diz:
de cirurgia
Pedro diz:
vai sobreviver?
junior diz:
vai pra casa amanhã
Pedro diz:
vc é o cara... assim vai acabar perdendo seu apelido de Dr Morte
junior diz:
kkk
junior diz:
é serio seu gay
junior diz:
tumor grande, bonito, mas localizado
junior diz:
man
junior diz:
vou tomar banho. Abraço

Viu que até hoje ele só fala de doença? Já tô até sentindo uma pontada do lado direito, uns quatro dedos acima da cintura.

* Conversa de MSN com Juninho, meu amigo de infância, verdadeiro irmão, presente em um monte de histórias. Duas delas:
Tio Fulano e meu teste de HIV.
A bomba dentro do elevador.

Sábado, Novembro 01, 2008

Historinhas de propaganda.


Trabalhar com propaganda tem lá seus pontos negativos. Um deles e o que mais me irrita é o fato de todo cliente – aliás, todo mundo que conheço – se achar publicitário. E isso não acontece em nenhuma outra profissão. Pense bem, duvido que você já tenha ouvido alguém dizer numa consulta médica:

- Doutor, eu sei que você prescreveu dose única diária de 20 mg de Pantoprazol pela manhã, mas eu quero tomar 80 mg de meia em meia hora.

Pois em propaganda o cliente insiste em determinar a dose. Aliás, ele sabe escolher até o remédio que vai tomar. Isso quando não já chega com o tratamento todo pronto na cabeça. Quando aparece um desses na agência, me dá vontade de falar para ele em tom profético:

- Levanta-te e anda. Ide, estais curado. Sumíeis da minha frente.

Mas a propaganda também tem o seu lado lúdico que supera em muito as agruras do dia-a-dia. Principalmente para quem trabalha com criação, o que é, graças a Deus, o meu caso.

Quando você inicia sua vida profissional na área, é vítima de uma dezena de trotes. Muitos deles. E, nessa seara, vale ressaltar que falta criatividade aos criativos: entra ano, sai ano, e as pegadinhas continuam as mesmas. Devo admitir que, como estagiário, caí em todas elas.

Eu estagiava como redator da Idéia 3, uma grande agência de Salvador, a mais criativa da época. Para mim era um sonho estar lá trabalhando entre os mais premiados do mercado. A galera era jovem, receptiva e logo me acolheram como o mascote da turma. Mas a minha pouca idade e experiência fizeram de mim alvo fácil para todo tipo de brincadeira. Hiram, um grande diretor de arte e até hoje um grande amigo, era meu principal algoz. Na minha primeira semana, recebi sua primeira incumbência:

- Pedro, você pode ir no estúdio pegar pra mim um carretel de linha de corte? – disse Hiranildo.

Linha de corte nada mais é do que uma marcação que vem impressa no papel para indicar onde a lâmina tem que passar. Ou seja: não existe nenhum carretel de linha de corte.

- Certo, volto já. – respondi com o entusiasmo e a presteza de quem está começando.

Levantei, fui até o estúdio onde umas dez pessoas trabalhavam em clima tenso. Quebrei o silêncio:

- Boa tarde. Por favor, alguém aí pode me dar um carretel de linha de corte? Hiram pediu para eu vir buscar.

Uns quatro arte-finalistas riram baixo e o chefe de estúdio respondeu sério:

- Vá na produção e pergunte onde é a gaveta de retícula em pó. O carretel está lá dentro.

Obviamente, também não existe nenhuma retícula em pó. Fui até a produção e pedi às duas meninas que estavam lá para me ajudarem a encontrar a tal gaveta da encomenda. Uma delas, com um simpático sorriso de canto de boca, me disse:

- Infelizmente tanto a retícula quanto o carretel acabaram de acabar. Um novo lote já deve estar a caminho. Volte aqui amanhã!

E assim, até o dia em que descobri que jamais existiu um carretel de linha de corte, muito menos um saco de retícula em pó, fui fazendo papel de besta e uma verdadeira peregrinação diária aos departamentos da agência.

Um ano depois, fui trabalhar na Propeg. Outra grande agência criativa cheia de criativos premiados. Eram dois diretores de criação: Maurício e Giovanni. O primeiro, o maior nome do mercado à época e também uma criança de quase dois metros de altura, um grande gozador. O segundo, uma fera do marketing político e um sujeito sério para os padrões da nossa área.

Apesar de toda essa aura descontraída que envolve a propaganda, engana-se quem acredita que ficamos horas no ócio até chegarmos a uma idéia brilhante. Muita concentração e centenas de tentativas para se chegar a bons conceitos são a nossa rotina. Portanto, nos lugares em que trabalhei, o silêncio imperava.

E foi na Propeg que dei mais um vexame de recém-contratado. Cheguei lá com uma gripe terrível: tosse de cachorro, espirro, todo tipo de barulho faringolaringopneumológico. Fiquei apreensivo, afinal, apenas meus sons irritantes interrompiam o silêncio sepulcral do lugar. Tentava tossir baixo, não conseguia. Buscava prender o espirro, saía mais alto. De sua mesa, Giovanni me perguntou:

- Ei, Pedro, você está com o quê?

Prontamente levantei da minha cadeira, fui até lá e disse constrangido:

- Gripe forte, Giovanni. Dor de garganta, tosse e tô com um pouco de febre desde ontem.

Ele fez uma pequena pausa e, para delírio dos meus novos colegas, completou:

- Na verdade eu queria saber com que trabalho você está agora em mãos.

Já Maurício era bem diferente. Além de propaganda, tinha outra coisa que ele fazia como ninguém: tirar nosso foco do trabalho. Certas brincadeiras eram marcas registradas suas. Era freqüente ele sair de sua sala e passar por nossas mesas anunciando:

- Pessoal, tô indo ao banheiro, alguém quer alguma coisa?

Quando estávamos quase voltando a nos concentrar, já dentro do sanitário, ele colocava a cabeça para fora e dizia:

- Bom fim de semana a todos.

Após a descarga e sua saída do toalete, já esperávamos alguma manifestação dele:

- Ei, ainda é hoje?

Ou então:

- Quem deixou um chokito no vaso sanitário?

E o pior é que um dia ele realmente se deu ao trabalho de levar um chokito escondido para o sanitário e se divertiu quando uma das meninas constatou o chocolate dentro do vaso, saindo de lá bradando palavras de nojo.

Uma outra vez, logo que eu havia chegado por lá e mal conhecia as pessoas, ele olhou sério para mim e disse na frente de todos:

- Pedro, eu já comi 38 redatores que passaram por essa agência.

Em seguida, pegou um daqueles imãs acolchoados de teto de carro e colocou em cima de minha cabeça. No artefato, a inscrição: 39.

Ok. A gente reclama, reclama, reclama, mas propaganda é algo pra lá de divertido, realizador, uma verdadeira cachaça. Enfim, não é à toa que agüentamos trabalhar até tarde, virar noites, abrir mão de alguns (ou muitos) finais de semana e feriados. Viu que, fora a grana no fim do mês e a diversão, a analogia com a medicina é pertinente?

Terça-feira, Outubro 28, 2008

A Coca-Cola no avião.


- Peu, topa ir com a gente pra Califórnia?

Disse Sandra, minha irmã, às vésperas da Copa de 94. Acabei topando. Afinal, ela precisava de ajuda: ia com duas crianças a tiracolo e ainda estava grávida de uns sete meses. Ok, assumo, topei porque ia pra Disneylândia, Universal Studios e, de quebra, voltaria com a mala cheia de pares de tênis, vídeo-games, chicletes e outras quinquilharias que todo adolescente acha o máximo.

Não posso deixar de registrar que nos divertimos bastante. Alguns casos pitorescos foram bons companheiros de viagem. Como, por exemplo, meu sobrinho preso em um carrinho numa loja de brinquedos com o segurança correndo atrás da gente, o dia que não consegui usar o vaso sanitário do Yosemite Park, um buraco sem fim que possivelmente dava em uma outra dimensão e a minha Coca-Cola no avião.

Eu já sabia que o vôo para Los Angeles seria longo e pra lá de cansativo. 12 horas voando, fora o trecho Salvador / São Paulo. Embarcamos no Aeroporto Internacional Dois de Julho com destino a Sampa. Eu, Sandra e seu barrigão, Daniela e Gabriel. Os dois últimos com apenas 9 e 6 anos, respectivamente. Aí, já viu: corre-corre no aeroporto, berreiro, quero fazer xixi, quero fazer cocô e a gente tentando fazer o check-in. Por alguma providência divina conseguimos embarcar.

O avião estava quase vazio. E eu munido de meu Game Boy, um monte de cartuchos, além de um saco de revistas do Tio Patinhas. Tudo para enfrentar horas e mais horas sentado, uma chatice sem igual. Fui para o meu assento e comecei a ler o folheto com instruções em caso de emergência. Precisava economizar as leituras que havia levado, afinal a jornada estava apenas começando. Fora alguns “tô com fome”, “tô com sede” e “minha mãe, Daniela me bateu”, a viagem foi tranqüila e chegamos rápido.

Em São Paulo, fomos um dos primeiros a embarcar na conexão. Agora sim, era pra valer. A sorte é que o avião parecia que iria decolar vazio. Sorte que durou muito pouco tempo. De repente, começou a entrar na aeronave uma multidão de japoneses. Vários, incontáveis, invasão igual àquela só em Pearl Harbor. Descobri então que aquele vôo faria também o trecho Los Angeles / Tóquio. Deu vontade de rir: aquele povo iria voar conosco as intermináveis 12 horas até a Califórnia e depois mais 12 horas até o Japão. Nosso destino era apenas a metade do caminho deles.

A nossa fileira era a última antes dos assentos de fumantes. Minha irmã grávida, a gente com mais duas crianças e a impressão que tínhamos era de que havia uma chaminé soltando fumaça atrás da gente. Pedimos para mudar de lugar por conta da condição de Sandra. Sem sucesso: o vôo estava lotado. Ou seja, seria pior do que a gente imaginava.

A viagem foi prosseguindo. Pra mim, Game Boy e revistinha. Depois, revistinha e Game Boy. Num intervalo entre um entretenimento e outro, procurava levantar da poltrona e dar uma volta pelo avião para evitar que a bunda ficasse quadrada. Mas, curiosamente, eu tomava choque em quase tudo que tocava. Resolvi perguntar à minha irmã qual era o motivo daquilo.

- Eletricidade estática em seu corpo gerada pelo deslocamento do avião. – respondeu a engenheira.

Beleza. O avião se desloca e eu tomo choque. Anoiteceu e o jantar foi servido. Quando a bandeja foi recolhida após a refeição, eu pedi a aeromoça que deixasse o meu copo de Coca-Cola. Como eu tenho grande dificuldade em dormir no avião, iria continuar jogando e bebendo meu refrigerante como quem aprecia um puro malte escocês.

Acabei ficando tão entretido com o vídeo-game portátil que esqueci da Coca. O gelo derreteu por completo e ela ficou intragável. Apertei o botão para que a aeromoça recolhesse meu copo, mas tive a impressão de que, assim como todos os outros passageiros, ela também estava dormindo. Então, resolvi levantar e levar o resto do refrigerante até o seu posto.

Ao chegar naquela espécie de copa que existe no avião, encontrei a aeromoça de costas arrumando as prateleiras. Estiquei o dedo da mesma mão que segurava a Coca-Cola e cutuquei a mulher para que ela se virasse e eu pudesse finalmente entregar aquela garapa. Porém, quando toquei em seu corpo, levei um tremendo choque que me fez jogar o copo contra meu rosto. Tomei um banho de refrigerante. A aeromoça, diante daquela cena, deu um pulo para trás com as duas mãos estendidas como quem pede distância. Imaginou que eu era um louco que só tinha ido até ela para mostrar: “olha isso, eu sou pirado, jogo Coca-Cola em minha cara”. Com o cabelo encharcado e o rosto pingando aquele líquido negro, tentei explicar:

- Estou tomando choque direto...

A cara de susto da mulher deu lugar a um semblante de alívio e compreensão. Abriu um sorriso e me disse:

- É a estática!

- Pois é, gerada pelo deslocamento do avião. – respondi querendo mostrar que um louco não saberia do que aquilo se tratava.

Gentil, ela trouxe duas toalhas brancas e eu tentei me secar. Agradeci e voltei para meu assento ainda com o cabelo molhado e o corpo todo grudento.

- Mãe! Meu tio tomou banho. – disse Daniela.

Aguardei pacientemente as últimas horas de vôo e enfim pousamos em Los Angeles. Na esteira de bagagem, encontrei de novo a aeromoça. Sorri para ela e já ia agradecer mais uma vez quando ela virou para a colega e disse:

- Aí ó, foi esse menino que foi lá me chamar para mostrar o banho dele de Coca-Cola!

As duas riram de minha cara. E, depois desse dia, o impossível aconteceu: eu consegui gostar ainda menos de física.

Quinta-feira, Outubro 23, 2008

A poesia baiana, o ensaio e Zé preso no lavabo.


Aqui em casa tem um lavabo que, vez ou outra, resolve prender as pessoas em seu interior. Isso mesmo, logo o lavabo, onde as visitas já entram meio sem jeito e nem todas costumam freqüentar só para lavar as mãos. O problema é que a tranca da porta é daquelas de girar e o sujeito que a instalou - um cara de Q.I. bastante elevado, presumo – fez o favor de instalar a dita cuja ao contrário. Portanto, para trancar é preciso girar como se estivesse abrindo. E vice-versa.

E o lavabo é pequeno. Aliás, bem pequeno. Não tem janela, nem exaustor e o ar fica, digamos assim, viciado, em pouco tempo de uso do minúsculo lugar. Ah, e ainda tem mais: a porta é de madeira maciça, quem já tentou arrombar, ficou frustrado. Enfim, para quem tem claustrofobia é quase um parque de diversões.

Certo dia, em meados do ano 2000, estávamos eu, Lelo e Zé em minha casa. Nós três tocávamos numa banda de pagode, o Queima Samba. (Ok. Eu espero você parar de rir). Tudo bem, o nome da banda não era dos melhores. O slogan, menos ainda: “botando fogo no pagode”. Mas acredite, além de grandes amigos, conseguimos reunir bons músicos. Prova disso é que Lelo hoje é baixista do Chiclete com Banana e Chokito, nosso tecladista, está em Londres tocando bossa nova. Além do mais, só a gente sabe o quanto essa época foi fecunda de material feminino.

Bom, como eu ia contando, era fim de tarde e logo mais à noite tínhamos um show para tocar. Mal entramos em casa e Zé, já íntimo e sem pudores, anunciou suas necessidades fisiológicas e seu destino: o lavabo. Entrou rapidamente no banheiro enquanto eu e Lelo seguimos para meu quarto. Não havia ninguém na casa. Peguei a guitarra que estava em cima da cama, Lelo pegou seu baixo e começamos a ensaiar algumas músicas que tocaríamos mais tarde e que ainda não estavam cem por cento ajustadas. Começamos a executar canções complexas e sofisticadas:

“Eu crio pássaros / Mas tem um que eu gosto mais / É uma tal de uma rolinha / Que não pára de cantar / Eu chego em casa, ela balança a cabecinha / Sacote toda a sua asinha para me prestigiar / Minha mulher não gosta de passarinho / Quer assar o meu bichinho / Que eu amo tanto e dou carinho / Ela não vai pôr minha rola na sopa / Ela não vai pôr minha rola na sopa / Ela não vai pôr minha rola na sopa / Porque meu bichinho é uma coisa louca.”

Eu adoro esse final. Pura poesia. Novíssima poesia baiana. Lelo interrompeu a execução da música:

- Acho que é: “sacote toda a sua asinha para me presentear”. E não “prestigiar”.

Caramba, como mudou. Um deslize numa obra de arte dessas pode culminar com o desalinhamento da órbita dos planetas. Retruquei:

- Lelo, meu filho, qual a diferença? Fica todo mundo com a cabeça cheia de cachaça, se pegando lá embaixo, você acha realmente que alguém repara nessas letras?

E continuamos. Os dois em grande momento de concentração artística:

“Vem neguinha, vem sambar / Hoje eu quero lhe mostrar / Como dança o tchá-tchá-tchá / Hoje eu quero requebrar.”

Repentinamente, Lelo interrompeu de novo o som do seu baixo. Perguntei:

- Qual é, Lelo? Vai dizer que não é “requebrar”, é “rebolar”?

Com a testa franzida e olhos voltados para o teto, buscando ouvir algo, Lelo respondeu:

- Shhhhh... não tá ouvindo?

- Não. O quê?

- Presta atenção... um barulho como se fosse alguém batendo numa porta. – disse Lelo, ainda com semblante preocupado.

- ...

- ...

- Ah, tô ouvindo. Parece vir lá de cima. – respondi querendo voltar logo ao ensaio.

- É, vem lá de cima. – Lelo se convenceu.

E voltamos a tocar:

“A dança do sapo é uma dança gostosa, é um clima legal / Tem a moça que requebra e tem um remelexo sobre-anormal.”

- Peraí, sobre-anormal é sacanagem! – disse Lelo, perplexo e interrompendo mais uma vez.

- Acredite, Lelo: a letra é assim mesmo. Vamos continuar?

- Peraí, rapaz. Tem mais de uma hora que Zé está no banheiro! Será que passou mal?

Levantamos e saímos do quarto. Logo no corredor recomeçamos a ouvir o som de alguém batendo em uma porta. A pancada era forte, porém espaçada, como se a pessoa já não tivesse tanta força. Realmente havíamos esquecido de Zé. Era ele, preso no cubículo por um período de tempo além do aceitável. Corremos em direção ao banheiro. Ao perceber minha presença e a de Lelo, nosso amigo intensificou as batidas e começou a suplicar exausto:

- Por favor, me tirem daqui! Pedro, a porta quebrou.

Vendo aquele desespero e lembrando que o problema era extremamente simples de resolver, não agüentei. Comecei a gargalhar de modo que não conseguia falar.

- É só girar... – disse eu, sem conseguir completar a frase e voltando a rir incontrolavelmente em seguida.

- Eu já girei! Não abre!! Arrombe, eu não tenho forças. – implorou Zé, no ápice do desespero.

Piorou a crise de riso. Eu só precisava dizer que bastava girar ao contrário, mas não saía. Tentei de novo:

- É só girar... – frase interrompida mais uma vez e novas risadas.

- Não abre! Não abre! Arromba!

- Pedro, pare de rir, o negócio é sério. – Lelo ponderou.

Quanto mais os caras ficavam nervosos, mais eu ria, pensando como era fácil acabar com tudo aquilo. Busquei me concentrar e, estimulado pelo nervosismo cada vez maior dos dois, procurei me refazer:

- É só girar... – respirei fundo e continuei – ao contrário!

Click. A porta abriu-se instantaneamente e nos revelou uma cena dantesca: Zé só de cueca, lavado em suor, olhos esbugalhados e cabelo de quem tomou um choque de 220 volts. Em uma de suas mãos, o sofisticado porta-papel higiênico todo desmantelado. A torneira ligada jorrando água, as gavetas da pia no chão, o tapete embolado em cima do vaso sanitário. Tudo revirado. O fato é que, desesperado e quase sufocado pelos seus próprios odores, Zé deu uma de Mc Gayver e tentou liberar passagens de ar ou, quem sabe, provocar uma fuga. O resultado foi um lavabo seriamente avariado.

Diante daquele cenário de guerra de um homem só, Lelo se desarmou e também desatou a rir. Saindo de seu cativeiro com cara de poucos amigos, Zé buscou dentro de si suas últimas forças e bradou:

- Vocês são loucos? Tem mais de uma hora que eu estou aqui batendo nessa porta e ninguém vem ajudar!

Já atrasados para o show, precisávamos nos arrumar. Entrei no banheiro, tomei banho e saí. Lelo entrou no banheiro, tomou banho e saiu. Zé entrou no banheiro, deu meia volta e perguntou desconcertado:

- Para destrancar, giro para o lado esquerdo ou direito?

Sábado, Outubro 18, 2008

A natação. (desta vez, numa piscina convencional).


Um dia desses, Daniela, minha sobrinha, e Raphael, namorado dela, conseguiram me convencer a fazer natação com eles. De aniversário, ganhei de meu sócio uma toca e óculos, os dois regalos cheios de não-me-toque, com alça de silicone, lente que não embaça, marca olímpica, enfim, um monte de firula. Talvez Danilo esperasse que eu virasse atleta, quebrasse recordes e deixasse a agência só pra ele.

Chegando na academia, uma surpresa: a piscina era quase do tamanho do tanque de lavar roupa lá de casa. Umas quatro raias dividiam o minúsculo espaço aquático. Fui apresentado ao professor que prontamente indicou as raias de cada aluno. Claro, tinha mais gente do que raia. Portanto, era necessário partilhar. Raia 1: Dani e Rapha. Raia 2: um senhor com barriga e bigode indisfarçáveis, parecido com Mário Bros e uma garota rechonchuda. Raia 3: um garoto magro, a cara da fome e um outro sujeito normal. Raia 4: eu e Seu Porfílio.

Seu Porfílio, um senhor negro, magro, curvado pelo tempo, fez-me sentir um campeão das piscinas. Eu, em meu primeiro dia, passava por ele fazendo marola. Ia, voltava e ia de novo e Seu Porfílio ainda ia. Ao tirar o rosto da água para respirar, ouvia o professor gritando:

- Seu Porfíliooooo! Bate as pernas, Seu Porfílio!

Seu Porfílio nunca batia as pernas. Só quando era estimulado: dava duas batidinhas e de novo paralisava os membros inferiores. Seu corpo então ia afundando lentamente. Através dos meus óculos que não embaçavam jamais, eu tinha a sensação que Seu Porfílio encostava os pés no chão. Era um misto de natação com caminhada na piscina.Ao longo da aula, fui me cansando mais e mais.

- Faltam mais 8 tiros! Boraaaaa! – gritava o professor com o estímulo típico das academias.

Foi então que dei o merecido valor a Seu Porfílio. A gente só podia dar a largada quando o último chegasse à borda. Portanto, o ritmo tranqüilo do meu colega de raia me permitia respirar um pouco e tentar uma recuperação para o próximo tiro. Enquanto eu inspirava e expirava no ritmo de um morimbundo na UTI, ouvia o maldito professor:

- Vamos, Seu Porfílioooooo! Só falta o senhor, Seu Porfílio!

E vinha Seu Porfílio. Uma braçada, uma pausa. Outra braçada, uma pausa maior. Em alguns instantes parecia que ele se afastava da borda ao invés de se aproximar. Muito bom Seu Porfílio, continue assim, ainda tenho muito o que oxigenar.

- Seu Porfíliooooo! Isso não é fisioterapia, Seu Porfílio! Bate essas pernas! – tentava o professor fazer o valoroso senhor nadar mais rápido. Em vão.

Terminada a aula, saímos da piscina e Dani e Rapha foram tomar banho nos vestiários. Fui em direção à sacola de minha sobrinha onde eu havia colocado meu celular. Virei-a de cabeça para baixo e sacudi até cair todo o conteúdo na mesa. Pensei: engraçado, pra quê Dani trouxe uma camisa enorme dessas e um bermudão? O único celular que caiu não era o meu. Mas parecia com o de Rapha. Já sei: eles pegaram meu telefone para me pregar uma peça. Ou pior: alguém roubou o aparelho. Comecei a ficar preocupado. Peguei o celular que caiu da sacola e comecei a ligar para o meu número. Enquanto eu telefonava, andava de um lado para o outro em volta da piscina. O senhor do bigode e do barrigão olhava para mim fazendo um discreto sinal de cabeça. Entendi como um cumprimento e dei tchau pra ele. Pensei: cara estranho, nem conheço direito. O telefone chamou, chamou e caiu na caixa. Liguei de novo e fui até o vestiário com o aparelho. Gritei pela janela:

- Daniela, meu celular tá aí dentro?

- Tá... – Dani respondeu com o som do chuveiro ao fundo.

Ufa. Retornei para a piscina, juntei toda a roupa que havia largado em cima da mesa, soquei tudo de volta na sacola junto com óculos de natação, toalha, enfim, um monte de coisa. Dei mais uns três empurrões para dentro e, mal fechei a sacola, Mário Bros, o senhor que acenou de rosto para mim, tomou a sacola de minhas mãos e foi indo rapidamente para a porta. Pois é: eu havia pegado a sacola dele, remexido, tirado tudo de dentro, ligado do seu celular, depois socado tudo de volta e ele o tempo todo observando.

Hoje fico imaginando o quanto esse sujeito me achou cara-de-pau. Mas, aprendi duas importantes lições: sempre olhe com muita atenção antes de pôr a mão numa sacola. E nunca, mas nunca mesmo, freqüente uma aula de natação sem a preciosa presença de Seu Porfílio.

Segunda-feira, Outubro 13, 2008

A boa ação de quatro amigos e a recompensa de um.


Acho que não há problema algum em dar nome aos bois neste post. Espero que ninguém venha protestar depois. Até porque, logo o leitor vai perceber o quanto meus amigos são nobres de coração e fazem de tudo para ajudar o próximo. Além disso, estou um pouco cansado de pseudônimos. Ok, pessoal? Sem processos, por favor.

Bem, era um lindo fim de tarde de sábado em Jaguaribe, a melhor praia para se fazer kitesurf em Salvador. Já havíamos velejado e estávamos sentados na areia tomando água de coco, aproveitando a brisa e jogando conversa fora. Não havia pressa alguma em ir embora. Éramos eu, Bob, Ortela e Luquinhas. Não lembro qual era o assunto em pauta, mas me recordo das boas risadas que compartilhávamos. Foi quando, de repente, Bob alertou a todos:

- Ei, aquilo ali não é um assalto?

Os últimos raios de sol despediam-se do céu, a praia já estava quase vazia e, bem ao longe, vimos a cena de um sujeito tentando insistentemente puxar as bolsas e pertences do que pareciam ser duas mulheres.

- São duas mulheres! – exclamou Ortela.

Sem pestanejar, Bob levantou num pulo e começou a correr na direção do ladrão que caminhava calmamente com o fruto do seu roubo. Ortela foi na seqüência. Os dois corriam em alta velocidade pela areia fofa. Olhei um instante pra Luquinhas que foi categórico:

- Rapaz, eu não vou não. – disse ele, ao tempo que sugeria através de gestos a provável existência de uma arma de fogo em posse do ladrão.

Mesmo não sendo estimulado por meu amigo que ficou na areia, acabei sendo contaminado pelo espírito heróico dos outros dois. Este rompante, sem dúvidas, contaria pontos pra mim no andar de cima. Levantei e fui no vácuo dos caras. Não lembro de ter corrido tanto como naquele dia. Só não tinha calculado que o sujeito estava tão longe. E Ortela, que parece ser raceado com português, resolveu gritar “pega ladrão” quando estávamos chegando perto do meliante. Pensei na hora: se éramos nós que supostamente iríamos pegá-lo, ele estaria gritando pra quem? Surto de esquizofrenia, no mínimo.

O fato é que o ladrão também começou a correr quando ouviu os gritos inteligentes de Ortela. A areia foi acabando e na frente de todos nós foi surgindo o que um dia já foi um rio e agora era o maior esgoto de Salvador. Suas margens abrigavam o mais caudaloso chorume da capital baiana.

(Chorume, segundo o dicionário: líquido tóxico gerado pela degradação de resíduos. Chorume segundo os populares: caldo de lixão).

Provavelmente impressionado com o físico dos três, o gatuno não pensou duas vezes. Largou as bolsas, pulou no “rio” e saiu nadando. Bob, do jeito que veio, também se jogou no esgoto. E o mais incrível: pulou de cabeça. Ortela hesitou, depois caiu na água e, talvez sentindo a pele derreter, saiu rapidamente. Já eu, quando parei de correr, apoiei as mãos sobre os joelhos e busquei desesperadamente um pouco de ar. Fruto de meses e meses sem uma única atividade física aeróbica. Adverti Ortela sobre meu pré-enfarte, que rapidamente tratou de vir ao meu auxílio, esquecendo por um instante a perseguição. Ao aproximar-se de mim, me arrependi profundamente de tê-lo acionado. Imagine só: você sem fôlego nenhum e o mínimo ar que consegue respirar vem com cheiro de esgoto podre. Ortela estava quase em estado de decomposição. Fui obrigado a me recuperar para sair de perto dele.

Atravessando aquelas densas águas, ia Bob no mais refinado estilo crawl. Era um verdadeiro torpedo, um Michael Phelps numa piscina de dejetos. Sem perder a performance, virava o rosto rapidamente para o lado buscando respirar e tornava a mergulhar a face na água negra. Apesar de todo o esforço de meu grande amigo, o ladrão chegou primeiro na outra margem e fugiu por entre o matagal. Fiquei imaginando como seria o retorno de Bob para onde estávamos. Sem cerimônias, pulou de volta ao rio e veio nadando. Desta vez, estilo borboleta.

Depois de tanta pirotecnia olímpica e um vexame cardio-respiratório, lembramos do motivo de tudo aquilo: as duas mulheres assaltadas. Eram mãe e filha. Infelizmente, foram agredidas pelo sujeito covarde. A primeira tinha um corte no pulso e a outra fora atingida na cabeça. Demos a elas a devida atenção.

- Por favor, leve-nos ao melhor hospital da cidade. – disse a mãe com um sotaque e uma frieza que logo denunciaram sua origem alemã. Haviam acabado de chegar a Salvador.

Lembro que eu ia dando apoio à senhora e Ortela ia amparando a garota. Curiosamente, apesar da origem da mãe, dos cabelos loiros e olhos azuis, a bela jovem havia nascido no Brasil. Chorava copiosamente a pobre coitada. Ortela a consolava enquanto passava o braço por seu ombro e segurava a sua mão. Mas, sinceramente, me neguei a acreditar que um cara que havia acabado de sair de um esgoto estaria se aproveitando de uma garota naquela deplorável situação.

Fomos em direção ao meu carro que, aliás, jamais voltou a ser o mesmo após este dia. Incorporou para sempre o cheiro do tal chorume. Ortela foi no banco do carona e, de trinta em trinta segundos, virava para trás, segurava a mão da chorosa garota e falava palavras de acalanto. Chegamos então ao hospital. Entramos com as duas na emergência. Nós dois descalços, trajando apenas bermudas de banho, areia por todo o corpo e Ortela fedendo a rato morto. Se a vigilância sanitária chegasse naquele momento, fatalmente interditaria aquela casa de saúde.

Enquanto elas eram atendidas numa sala de pronto-atendimento, eu, Ortela e toda a areia que nos acompanhava, esperávamos na recepção. Apareceu um cara do setor administrativo com uma prancheta e um papel. Tratava-se de um termo de responsabilidade onde nós arcaríamos com todas as despesas do hospital caso elas não honrassem com o pagamento da conta. Gentilmente, Ortela se negou a assinar:

- Sinto muito amigo, nossa boa ação termina por aqui.

Deixamos um bilhete para elas nos colocando à disposição para o que precisassem e fomos embora. Voltamos no carro comentando todo o ocorrido e lamentamos o fato de acontecer um absurdo desses nas primeiras horas em que um turista chega a nossa cidade. Enfim, fizemos nossa parte. Mas, não deixei de perguntar a Ortela:

- Vem cá, por acaso você estava dando em cima da menina ou foi impressão minha?

- Claro que não, Pedrão. Tá louco? A menina toda ensangüentada... – respondeu Ortela meio indignado.

Passou um tempo e, na noite de Natal, recebi um telefonema de São Paulo. Era a tal garota. Agradeceu bastante o que havíamos feito por elas e desejou boas festas. Procurei saber de Ortela se ele também tinha recebido a ligação. Sua resposta foi positiva.

Um belo dia, encontro a menina no Orkut de Ortela. Perguntei a ele como ela havia parado lá. Ele respondeu sem jeito:

- Quando ela me ligou aquele dia, peguei seu Orkut e MSN. Combinei de visitá-la em São Paulo.

Maldito. Dei força para que ele fosse. Mas sugeri que antes de encontrá-la em algum barzinho ou restaurante da capital paulista, tomasse um banho no Tietê. Talvez facilitasse as coisas.

Terça-feira, Outubro 07, 2008

O claustrofóbico, o alérgico e o cara-de-pau.


Eu tenho um primo que também é cheio de histórias pra contar. Tudo de estranho e pitoresco acontece com ele. Às vezes, chego a pensar que isso é genético. Entre muitos dos seus casos, um dos meus preferidos é sobre a noite quase inteira que ele teve que passar embaixo da cama com mais dois marmanjos. Apresento-lhes Milton Filho.

Milton tinha um amigo, Paulão, dono de uma charmosa cobertura no não menos charmoso bairro do Rio Vermelho. O lugar era pequeno, é verdade, mas de muito bom gosto. Bem decorado, um terraço agradável com uma piscininha aconchegante, cadeiras em volta de uma bela mesa no deck e um telão. Falo com propriedade porque depois que ouvi essa história, fiz meu primo me levar até lá para que eu pudesse visualizar melhor as cenas que ali se passaram.

Paulão, um cara de seus 35 anos, era noivo. A mulher que ele estava prestes a se casar, segundo meu primo, tinha seu peso medido em arrobas. E, o que ela tinha em excesso corpóreo, também tinha de personalidade forte. Foi diante de um cenário cataclísmico como esse, com um apê bem legal e uma noiva pra lá de rabujenta, que o sujeito resolveu fazer uma festinha com os amigos e algumas meninas de família.

Estavam Paulão, Milton Filho – orgulho da família -, mais dois amigos e uma horda de mulheres de aluguel. Sonzinho rolando, bebida socializando e muita descontração. Milton jura que não havia passado disso (eu acredito, e você?). Então, de repente, toca o celular de Paulão.

- Pssss! Desliga o som aí, ninguém fala nada, ninguém fala nada... – advertiu o anfitrião atendendo o telefone em seguida – Alô... oi amor! Tudo bem?

- Tudo bem, e você? Tá na fazenda? – arteira, respondeu a noiva Margarete.

- Tô sim, amor... e morrendo de saudade de você. – respondeu o ardiloso Paulão.

- Ué, e quem está no seu apartamento? As luzes estão todas acesas...

Paulão engoliu a seco e respondeu:

- É que... eu emprestei o apartamento pra Flávio. É ele quem está lá.

- Ah é? Então liga pra seu amigo agora e pede pra ele abrir a porta porque eu já estou aqui no hall de entrada...

Trim! Tocou a campainha e saiu Paulão tropeçando em tudo, correndo pela casa, empurrando os outros três amigos em direção ao seu quarto. Trim, trim, trimmmmm! A impaciente Margarete castigava a pobre buzina com seu dedo gordo. Tocou de novo o celular do rapaz.

- Calma, amor! Calma! Eu tô ligando pra ele mas está dando caixa... ele vai abrir a porta, calma... – disse Paulão em meio ao desespero, enquanto levantava o lastro de madeira da cama e apontava insistentemente para o seu interior.

Milton Filho viu aquela estreita cama de viúva que não é nem de solteiro, nem de casal, cheia de sujeira e alguns cacarecos dentro e achou que o dono da casa estava mandando que ele jogasse ali o seu copo de plástico, talvez para se livrar de alguma prova. Como Paulão não desligava o celular e também não conseguia se fazer entender, meu primo arremessou seu copo para debaixo da cama. Segurando o estrado com uma mão e o celular com a outra, o noivo de Margarete balançou a cabeça de forma negativa e impaciente. Apontou para os dois amigos, para si próprio e, em seguida, para dentro da cama. Ah, é para entrar aí? Milton Filho não via possibilidade alguma de caberem naquela caixa de madeira, ele, Paulão e seus quase dois metros e o outro amigo. Desligando o celular, o dono do pedaço foi muito claro:

- Entrem logo aí dentro senão vocês vão acabar com meu noivado.

Sem terem chance de argumentação, os dois se ajeitaram no cubículo, cruzaram os braços sobre o peito para ganharem espaço e então Paulão se esgueirou entre eles e, antes de baixar o estrado, falou para Flávio:

- Atenda a porta e leve ela lá pra cima.

O único amigo que fora poupado do caixão coletivo fez cara de “deixa comigo, está tudo sob controle”. Dentro da cama, aos cochichos, iniciou-se um diálogo entre os três:

- Eu tenho claustrofobia, não vou conseguir ficar muito tempo aqui. – sussurrou Milton Filho.

- E eu tenho alergia, Paulão... meu nariz já está coçando. – disse o amigo.

- Calem a boca vocês dois! Quando ela subir para a cobertura a gente sai daqui de dentro e corre pra fora do apartamento. Por enquanto fiquem quietos, vai ser rápido. – respondeu Paulão tentando afastar os riscos.

Ouviram então a porta da casa se abrir. Margarete adentrou a sala arfando:

- Cadê o f.d.p. do Paulo?!

- Calma Margarete, o que é isso? Pelo que eu sei, Paulão está na fazenda. Aqui ele não está. – disse Flávio, simulando ar de espanto.

- Você acha que eu sou idiota, Flávio? Vamos! Cadê ele? – a noiva parecia rosnar.

- Se você não acredita, fique à vontade, pode procurar. Por que não olha lá em cima?

Milton Filho lembra de ter ouvido os passos de Margarete subindo as escadas como se buscassem furar os degraus. E, de dentro da cama, ainda ouviram mais:

- Ah, quanta pu** junta! Onde tem pu**, Paulão está, com certeza! – gritava Margarete vendo aquele mundo de meninas na cobertura de seu noivo.

Nesse momento, Flávio desceu discretamente e encontrou os três quase do lado de fora da cama. Quando ia ajudá-los a sair, ouviu a estraga-prazeres (literalmente) aos berros:

- Eu vou descer, aquele &%$@# deve estar lá embaixo!

Foi só o tempo de voltar todo mundo para o caixote e Flávio colocar o colchão por cima da cama. Ainda ouviu a voz abafada de Paulão vinda de dentro:

- Tranque a porta por fora e leve a chave! Rápido!

Com a porta trancada, os três saíram suados de dentro da cama, vestidos com um ridículo figurino composto por sunga e tênis. Retiravam as teias de aranha grudadas em seus cabelos. Quando acharam que iriam respirar um pouco, eis que Margarete gira a maçaneta da porta do quarto. Todo mundo de volta ao cárcere às pressas.

- Ei!! Quem trancou essa @#&*% deste quarto?? Abre aí! Abre! – a besta-fera esmurrava a porta incessantemente. E cada vez mais forte, cada vez demonstrava mais descontrole.

Após um tempo, as pancadas na madeira e a voz estridente de Margarete cessaram. Paulão sussurrou:

- Pronto, ela deve ter ido embora.

Meio segundo depois desta frase, um estrondo enorme acusou o arrombamento da porta. A maçaneta voou longe.

- Cadê aquele safado, desgraçado, miserável??

De dentro da cama, os três só ouviam o som de porta-retratos, CDs e objetos decorativos se espatifando contra a parede. Paulão soltou um lamento quase inaudível:

- Minha casa...

Depois do quarto em ruínas, a mulher sentou na cama. Com o peso, o estrado encostou no nariz de Milton Filho. Ele virou o rosto em direção a Paulão e disse:

- Eu vou sair. Não estou agüentando mais, me desculpe.

Disse o outro:

- Eu também vou. Não consigo respirar.

- Calma. Não estraguem tudo. Ela vai cansar e vai embora. – implorou Paulão.

Tentando fazê-la desistir de esperar, Flávio interveio:

- Margarete, você não está vendo que Paulão não está aqui? Por favor, deixe eu continuar com minha festa.

- O seu brega terminou, Flávio! Só saio daqui quando Paulo aparecer.

Ao perceber que a noiva de seu amigo não pretendia deixar o recinto tão cedo, Milton Filho tentou relaxar, controlar a sua claustrofobia e quem sabe até cochilar um pouco. Fechou os olhos. Então, percebeu que daquele jeito o lugar ficava menos insuportável. Foi aí que o escuro deu lugar a um grande clarão. Meu primo abriu os olhos e deu de cara com a visão do inferno: Margarete.

- Ahááááááááááááá!!! Eu sabia!!! – gritou a mulher enquanto segurava o estrado.

Paulão levantou o corpo em direção a ela e, sentado, abriu os braços e disse sem jeito:

- Surpresa...!

Levou um tapa de mão cheia na cara, desses que ficam desenhados o contorno dos dedos. Desses que a cabeça parece girar sobre o pescoço.

Diante da cena, Milton Filho e o alérgico pularam da cama e saíram correndo desesperados pela escada do prédio. Margarete advertiu:

- Não adiantam correr, Milton Filho e Fulano de Tal! Já vi vocês e vou contar tudo para as suas namoradas!

Na garagem do edifício, trajando suas respectivas sungas e tênis, cada um correu para o seu carro. Margarete saiu do elevador, estava desfigurada, parecia um monstro de seriado japonês. Tentou se jogar na frente do carro de meu primo, tentando fazê-lo parar. Enquanto ele aguardava ansiosamente o portão do prédio se abrir, viu a síndica, uma mulher jovem, perguntando ao porteiro que reboliço era aquele. Ao fugir acelerando daquele pesadelo, Milton Filho ainda pôde ouvir um exclamativo comentário da (ex-)noiva de seu amigo quando olhou a administradora na portaria:

- Êta que ainda chega pu** na festa!

Quarta-feira, Outubro 01, 2008

O misterioso e delinqüente vomitador de banheiro.


Uma grande amiga um dia me perguntou se por acaso eu conhecia alguém legal para apresentá-la. Sabe como é: tem certas mulheres que ficam, digamos assim, ansiosas, quando começam a beliscar os 30. E esse era um caso clássico.

Respondi a ela que sim, eu podia ajudá-la, dois amigos meus que gosto muito também estavam solteiros. Não no desespero, mas estavam solteiros. Dois bons partidos, assim sempre os julguei. Irei chamá-los pelos nomes fictícios de Lúcio e Fernando.

Marquei de sairmos. Como sou um cara prático, chamei logo os dois para que Marta tivesse opção de escolha. Fomos eu, Luciana (minha namorada na época), Lúcio, Fernando e a minha amiga para um barzinho da moda. Mas antes passamos para buscá-la em casa. Quando Marta apareceu, uma surpresa: havia se produzido tanto que eu quase volto pra colocar um blazer. Sério, parecia que ela estava indo a um casamento. Coisas do subconsciente.

Marta entrou no carro, jogou o cabelo pro lado e soltou um rouco e sexy “oi”. Apresentei os caras, prazer pra lá, prazer pra cá e seguimos. Aquele clima meio estranho, todo mundo sabendo o que cada um estava fazendo ali, mesmo assim disfarçavam conversando amenidades entre sorrisos amarelos.

Chegamos ao nosso destino. Era um barzinho mexicano, um lugar bem bacana. Sentamos e pedimos bebidas. Água tônica pra mim, refrigerante pra Luciana, caipiroska pra Marta, cerveja pra Fernando e whisky pra Lúcio. Os mal-intencionados foram direto para o álcool. Conversa vai, conversa vem. O que gosta de fazer? Se formou em que? Pra onde costuma sair? E tome conversa mole. Mais um whisky pra Lúcio. Relembrei algumas histórias engraçadas da época em que eu e Marta estudávamos no Colégio São Paulo. Lúcio pediu mais um whisky. Pedimos tacos e nachos e comentamos como aquele bar era legal. E Lúcio, curiosamente, pediu mais uma dose de malte escocês. Dessa vez, dose dupla.

Lúcio merece um parágrafo. Grande amigo de infância, cara de inteligência refinada, porém introspectivo e bastante econômico com as palavras. Sabe-se lá porque ele resolveu beber tanto naquela noite. Talvez não tivesse interessado-se por Marta. Ou, justamente, talvez tivesse. O fato é que o rapaz acabou chapando a cara com 8 doses de whisky.

Enquanto conversávamos, Lúcio levantou e começou a socializar com o bar inteiro. Ia de mesa em mesa, falando com quem não conhecia. Vi nos olhos de Marta a estranheza diante da mudança de comportamento do tímido rapaz. Então, preocupado, passei a prestar mais atenção em Lúcio. Ele sumia e aparecia, sumia e aparecia. De repente, sumiu de vez. Discretamente, dividi com Fernando minha preocupação. Foi nessa hora que, subitamente, Lúcio apareceu e veio a passos rápidos e semblante sério em direção à nossa mesa. Impossível não notar a grande rajada molhada em forma de gravata na sua camisa.

- Rápido, Fernando, venha comigo! – disse Lúcio em tom sério.

Fernando, sem querer levantar da mesa e levando em consideração o estado etílico do nosso amigo, ponderou:

- O que foi, rapaz?

- Levante, rápido! Tinha um cara escondido no banheiro com a mão na boca, só esperando alguém entrar. Eu entrei e ele vomitou tudo em cima de mim e depois saiu correndo, o covarde. Vamos pegar ele! – bradou Lúcio, indignado.

Solidário, Fernando levantou e os dois correram em direção ao banheiro.

- Que situação chata... – comentou Marta discretamente.

Enquanto os dois iam atrás do elemento, um garçom aproximou-se da nossa mesa:

- Com licença, esse senhor que estava andando por aqui está com vocês?

- Sim, o que houve? – respondeu Luciana preocupada.

- É o seguinte: agora há pouco ele estava ali no meio do bar olhando fixamente para o teto. De repente, abriu os braços e vomitou para o alto. O vômito voltou todo em cima dele e ele saiu correndo para o banheiro. – disse o garçom, no mínimo, constrangido.

Ao ouvir o relato e ver o olhar assombrado de Marta, ela vestida como se de fato fosse conhecer o homem da sua vida, ri fartamente. Marta não riu.

Lúcio e Fernando voltaram para a mesa. Provocativa, Luciana perguntou:

- Acharam o cara?

- Acho que não tinha ninguém... – diminuindo o tom de voz, disse Fernando ofegante e completamente suado.

- Covarde! Vomitou em mim e saiu correndo... – praguejou Lúcio, sentando em seguida na mesa com sua gravata de vômito.

Ficamos na mesa tentando fazer o retrato falado do meliante. E rimos muito das fantasiosas características que Lúcio nos deu e de sua fabulosa imaginação.

Marta não sorriu um só minuto. Muito menos encontrou o homem que seria o pai de seus filhos. Mas, sem dúvida, aquela foi uma noite que muito lhe fizera bem. Ao tirar sua roupa de gala e colocar a cabeça no travesseiro, minha amiga deve ter pensado que estar solteira nem chega a ser algo tão ruim assim.

Domingo, Setembro 28, 2008

A incrível abdução da prova de francês.


Por que raios alguém que estuda Publicidade e Propaganda precisa de Francês I, II e III? Até hoje não descobri. Só sei que eu estudei... quer dizer, assisti aula... aliás, peguei essas matérias. Sempre tive vontade de aprender italiano, ainda vou aprender, é a língua mais próxima do latim e eu aprecio a nossa falecida língua-mãe. Mas francês, nunca me interessei, sempre achei meio boiola. Durante as aulas, eu fazia atividades alternativas. Como jogar fliperama no Center Lapa, por exemplo.

Era o primeiro semestre da faculdade e, além de uma boa quantidade de matérias nem um pouco práticas, de cara a gente já pegava Francês I. A professora era uma senhora às vésperas da aposentadoria, Dona Engrácia. Saber que teríamos de aprender francês foi algo que logo assustou a todos. Mas o pessoal do segundo semestre dizia que era fácil passar. Todo mundo colava descaradamente e se dava bem.

De maneira geral, todo mundo na faculdade de publicidade é gente boa. Você não vê competitividade, gente tentando passar por cima do outro, guerra por score, nada disso. Existe um clima de cooperação muito grande, sempre um fazendo pelo outro. E foi justamente essa coisa de um fazer pelo outro que aconteceu comigo naquela última prova de Francês I do semestre.

Eu tinha uma grande amiga na faculdade: Cecília. Cecília era uma figura totalmente descolada, alternativa até dizer chega, típica estudante de publicidade. Vivia no circuito de cinema-arte e, além de Alessandra Negrini, era a única pessoa no mundo que curtia Otto. Entre outras esquisitices, Cecília era fluente em francês. Não lembro se ela havia feito curso ou se tinha morado na França. Só sei que ela era craque na língua – não vá pensar besteira.

Aproximando-se do dia da prova, comentei com ela:

- Ciça, eu não sei nada de francês... vou perder a matéria. Me dê uma força, estude comigo, vá.

Cecília, prática como ela, respondeu:

- Relaxe, não precisa estudar. No dia eu sento perto de você e quando terminar de fazer a minha prova, pego a sua e faço.

Fantástico. Cada vez eu gostava mais de Cecília. Relaxei e não trisquei no livro.

Dia de prova. Dona Engrácia - carinhosamente apelidada de Mon Bijoux – calmamente arrumava as cadeiras em fila enquanto os alunos iam pegando seus lugares. Eu disse que não existia disputa no curso de propaganda né? Mas lembrei de uma hora em que isso costumava acontecer: no momento de pegar as cadeiras que ficavam no fundão da sala nas provas de francês. Mas eu e Ciça nos adiantamos. Tratamos de chegar cedo e garantimos as duas últimas, encostadas na parede do fundo da sala, uma ao lado da outra, separadas apenas pelo corredor.

Provas entregues. Ciça piscou o olho pra mim como quem diz “vai dar tudo certo”. Li a prova e comprovei minha suspeita: não sabia responder uma questão sequer. Fiquei então movimentando a caneta sobre o papel e de vez em quando colocava a ponta da caneta na boca fingindo estar pensando. Apesar da professora nem olhar pra mim, fiz o maior teatro de quem estava levando a prova a sério. E Cecília concentrada, respondendo tudo na maior velocidade.

Escondendo-se atrás do aluno que estava na cadeira da frente, Ciça lançou um psiu e sussurou:

- Me dê sua prova.

Olhei de rabo de olho para a professora. Há muito que ela lia um livro, nem parecia que estava naquela sala. A encarei mais um pouquinho pra garantir. Estava tudo certo. Num movimento rápido, estendi a mão com minha prova em branco para Cecília que, por sua vez, recebeu o papel demonstrando mais agilidade que uma troca de bastões em revezamento 4 por 100. Mas, na hora da transição, Dona Engrácia levantou os olhos numa velocidade que não era a sua.

Eu fiquei sem minha prova e Cecília ficou com duas. Então, pra disfarçar, comecei a rabiscar no braço da carteira como se estivesse respondendo as questões. Mesmo olhando para baixo, minha visão periférica percebeu a professora levantando da sua cadeira e vindo em minha direção. Vinha se aproximando lentamente. E eu rabiscando a carteira com um cínico semblante pensativo. De repente, Dona Engrácia estava com as pernas coladas na tábua riscada. Não tive coragem de olhar pra ela. Continuei respondendo as questões imaginárias de francês.

- Onde está a sua prova? – disse Dona Engrácia num tom áspero que também não era o seu habitual.

Olhei pra ela, olhei pro braço da carteira todo rabiscado, olhei pra ela de novo e, nervoso, respondi como se algo de muito misterioso tivesse acontecido:

- Não sei, professora!

Ela tomou as duas provas das mãos de Cecília.

- Zero pros dois. Podem sair da sala. – falou Dona Engrácia bastante irritada.

Gaguejando, tentei argumentar alguma coisa. Em vão. Ciça levantou tranqüilamente da carteira, pegou seus livros e cadernos e foi andando pra fora da sala. Eu a segui.

- Ciça, não acredito, eu já estava perdido mesmo, mas você precisava de quase nada pra passar. E agora? – falei sentindo o peso da consciência em minhas costas.

- Relaxe... semestre que vem a gente pega Francês I de novo. – Ciça conseguiu responder sorrindo.

Não agüentei, seria injusto, ela estava tentando me ajudar. Entrei na sala de aula e fui falar com a professora.

- Dona Engrácia, Cecília não teve nada a ver com isso. Fui eu que joguei minha prova na mesa dela. Poupe Cecília. – falei enquanto nossos colegas davam risada de minha cara.

A professora olhou pra mim, pensou e respondeu:

- Tudo bem Pedro, zero pra você e metade dos pontos que Cecília tiver feito até agora.

Saí da sala satisfeito. Tinha certeza que Ciça havia feito o suficiente para passar.

Ao longo da faculdade tive tanta dificuldade com francês, repeti tantas vezes a matéria que a grade mudou, francês virou espanhol e eu quase tenho que fazer tudo de novo. No fim, a faculdade abriu uma turma pra quem devia Francês III e eu enfim passei. Hoje, as únicas palavras da língua francesa que eu sei falar são: croissant, abajur, garage, Elle et Lui e, em homenagem à redentora de Cecília, Mon Bijoux.

(Sandra, me perdoe)

* Sandra é minha irmã e acha que eu me exponho demais no blog.

Quarta-feira, Setembro 24, 2008

Elias e seu insuperável óculos Armani de U$ 700,00.


1998. Passaram-se 10 anos, mas parece que foi ontem a primeira vez que vi Elias com seus óculos Armani de 700 doletas. Pra falar a verdade, o acessório não fazia nem um pouco meu estilo, mas dava pra ver que era algo caro realmente. E Elias fazia questão de exibir sua aquisição Made in Italy.

Era uma típica manhã de verão em Salvador, pleno dia de semana e a cidade transpirava férias. Transpirava era a palavra certa. Calor estúpido, praias lotadas, pouquíssima roupa e, na mesma proporção, pouquíssimo trabalho.

- Vamos para o Wet´n Wild? – sugeriu Pico a mim e a Elias, os três completamente ociosos, aguardando nada acontecer.

Ok, topamos. Cada um pegou sua mochila e nos encontramos na garagem do prédio. Quando meu carro já estava quase fora do portão, Elias deu um grito:

- Meus óculos! Deixei em casa, pára o carro!

Era o tal Armani de 700 dólares. Malditos óculos. Cinco minutos depois, entra de volta Elias no carro com um paninho especial - provavelmente Armani - limpando cuidadosamente as suas lentes. Até aí tudo bem, não fosse o jeito pra lá de pirracento de Elias.

No caminho para o parque aquático, paramos em uma sinaleira. Ao nosso lado parou um outro carro com três gatinhas dentro. Provavelmente estavam indo à praia ou, com alguma sorte, ao Wet´n Wild também. Comentei:

- Olha isso aqui...

Os outros dois tarados rapidamente se animaram, nem mais sinal da leseira dos 40º de calor. Alvoroço no carro. Opa, nos dois carros. Risos, sorrisos e olhares trocados.

- Vocês sabem por que elas estão dando esse mole, não é? – disse Elias – Porque viram meus óculos.

Viado. Eu tinha um Gol TSi preto na época, bancos Recaro, rodão, top de linha, e ele dizendo que as meninas tinham ficado empolgadas com os seus óculos. (Reparem que a gente achou que elas tinham gostado de tudo, menos de nós). Elias estava apenas iniciando a sua encheção de saco com seu Armani.

Chegamos ao parque. Lotado, mas muita menininha bonita de biquíni. Fomos andando. Andando e olhando.

- Vamos fazer assim: deixa eu ir um pouco na frente, vocês vêm logo atrás. Desse jeito eu vou chamando a atenção das meninas com meus óculos e vocês pegam o que sobrar... – disse o debochado Elias.

E continuou durante o resto do dia:

- Vem cá, vocês não estão com os olhos irritados? Esses óculos de vocês de 10 reais acabam com a retina, viu? Claro que não são anti-raios UVA e UVB como o meu Armani... mas se bem que eu tenho olhos azuis e vocês não têm.

Se não fôssemos tão amigos, acho que eu e Pico já tínhamos afogado Elias na piscina. Depois de muita chateação do nosso agradável companheiro, voltamos para casa. No caminho, em plena Avenida Paralela, por conta de um pigarro que o acompanhava por toda a vida, Elias pôs-se a cuspir através da janela do carro. Colocava a cabeça inteira para fora da janela e cuspia. Em uma das vezes, ainda com o corpo dependurado, ele começou a bater na lataria do carro e a gritar freneticamente. Só depois de um tempo, por conta do vento, pudemos entender o que ele urrava:

- Pára!!! Pára!!! Pára!!!

Com muito traquejo, consegui parar o carro na avenida mais veloz da cidade. Mal encostamos e Elias saiu correndo pela calçada que nem um louco, em sentido contrário ao que vínhamos. Se aquela fosse uma prova de 100 metros rasos, ele certamente ganharia. Elias se afastou tanto que tivemos que dar a volta para buscá-lo. O encontramos sentado na calçada, olhar desolado. Segurava um pequeno pedaço de ferro na mão, parecia um arame. Demoramos a entender do que se tratava: aquilo era o que havia restado de seu Armani depois de ter caído na pista durante uma das cusparadas. Um ônibus tinha passado por cima. Elias, com o queixo trêmulo e lágrimas nos olhos, suplicou:

- Não riam... por favor, não riam...

Antes daquele fatídico dia, nem eu, nem Pico, havíamos rido tão alto e com tanto gosto quanto rimos durante aquele belíssimo fim de tarde do verão da Bahia.

Domingo, Setembro 21, 2008

Homenagem ao morto. (Ou as histórias do Boliche Humano e do Rodeio de Empregada)


Outro dia fui a um velório do pai de um amigo. Definitivamente não é meu programa favorito. Primeiro que a gente nunca sabe direito como se portar. Eu pelo menos não sei. Normalmente não se tem nenhuma intimidade com o morto – quando vivo, obviamente -, mas é necessário fazer um semblante carregado, falar com a família quando não se tem o que dizer, chegar à beira do caixão, olhar o morto como se estivesse lamentando a sua ida. Eu odeio olhar o morto. Nessa hora eu costumo mirar uma coroa de flores e desfoco a imagem do defunto.

Já ouvi casos engraçados sobre velórios e enterros que são fruto do desconforto que as pessoas sentem nestas ocasiões. Uma vez me contaram que uma pessoa foi falar com a viúva e ao invés de dizer “sinto muito” falou “parabéns”. Ouvi também sobre outra que mal conhecia o finado, chegou perto do caixão, olhou, olhou e deu dois beijos no morto, um em cada bochecha, como quem diz “oi, tudo bem?”. É muita piração pra minha cabeça.

Mas, vou voltar ao velório que deu origem a este post. Cheguei a uma das saletas do Jardim da Saudade e cumprimentei meu amigo, sua mãe e seus irmãos. Depois, completamente deslocado, me juntei a uma rodinha de pessoas. Nesse tipo de reunião sempre tem alguém mais saudosista que fica contando histórias do sujeito que se foi. E o pior: o pobre do morto nem pode se defender. Para minha surpresa, as lembranças não eram do tipo “Beltrano era uma pessoa espetacular”, “O céu ganhou mais um santo”, “Poucas são as pessoas iguais a Beltrano”. Um senhor, primo do finado, foi o encarregado da oratória de rodinha de velório. Falava ele em tom solene:

- Beltrano vai deixar saudade. Lembro de quando éramos jovens, ele tinha um Karmann Guia e adorava fazer boliche humano.

Eu que nem estava prestando muita atenção na conversa, me perguntei: será que eu ouvi boliche humano? Uma das pessoas da roda perguntou do que se tratava. Ainda bem, senão eu ia acabar perguntando. O tiozão continuou. Contava como se realmente fosse algo épico:

- A gente voltava das festas de madrugada, o dia amanhecendo. E Beltrano sempre pedia pra fazer boliche humano. Ele ficava em cima do capô do carro, agachado, e eu ia dirigindo. Quando desenvolvíamos uma boa velocidade, eu apontava o carro pra algum ponto de ônibus que tivesse gente e freava de vez. Ele era lançado como uma bola em direção às pessoas e derrubava boa parte delas.

O sujeito contou a história sem rir. Já eu não consegui, dei risada e acabou saindo alto. Foi sem dúvida o hobby mais esquisito que eu já ouvi. Principalmente contado em um velório.

Não satisfeito com sua nobre lembrança do morto, o cara engrenou outra:

- Tinha também o rodeio de empregada...

Não era possível, eu pensava. Ou é pegadinha ou esse cara é doido ou o próprio defunto era pirado. Após uma pequena pausa de reverência ao passado o tio sem-noção continuou:

- Beltrano não podia ver uma empregada andando na rua que pulava nas costas dela e a gente cronometrava quanto tempo ele conseguia permanecer com ela se debatendo.

Não só eu, mas todo mundo começou a rir e a rodinha se desfez, cada um pra um canto buscando evitar constrangimentos. Me despedi de todos e segui em direção à porta de saída da salinha. Desviei os passos e fui até o caixão. Olhei o morto sem sentir agonia, apenas admiração. Pena que não o conheci em vida. Tinha virado fã póstumo de Beltrano.

Sexta-feira, Setembro 19, 2008

Dan Tech e seu colchão da NASA.


Daniel sempre foi meio Professor Pardal. Desde pequeno o cara era aficcionado por tecnologia, fato que lhe rendeu o apelido de Dan Tech. Enquanto todo mundo tinha um iô-iô peba da Coca-Cola, Dan Tech se divertia com um de pilha que acendia luzes. Enquanto todo mundo tinha um Pogobol, Dan Tech tinha uma engenhoca de molas que pulava o triplo da altura que nosso simples brinquedo alcançava. Dan Tech era aquele pentelho que sabia consertar qualquer coisa. Desmontava aparelhos, os remontava, sobravam parafusos e ainda assim tudo funcionava no final. Você consegue imaginar uma criança de 10 anos fascinada por uma Centrífuga Wallita? Esse era o menino Dan Tech. Hoje Daniel é engenheiro de áudio e ganha a vida mexendo em mesas de som mais complexas que qualquer painel de avião.

Mas, ainda na nossa infância, Daniel um dia interfonou para meu apartamento eufórico:

- Pedro, suba aqui, velho! Minha mãe comprou um colchão desenvolvido pela Nasa.

O máximo de tecnologia que eu curtia era meu Master System. Qual seria a graça de um colchão?

- Tá bom, Daniel, tô indo aí... – falei com o entusiasmo de uma criança num aniversário de 80 anos.

Peguei o elevador e cheguei na casa de Dan. Sorte dele que morávamos no mesmo prédio. Não daria mais 5 passos do que já tinha dado para ver um colchão tecnológico. Ele me aguardava ansiosamente na porta. Fomos até o quarto de sua mãe. Diante da cama, ele puxou de vez o lençol como quem descortina uma placa de inauguração. Seus olhos transbordavam orgulho. Pra mim parecia um colchão normal. Antes de eu verbalizar isso, Daniel começou sua explicação com ar de professor do Massachusetts Institute of Technology:

- Dentro dessas fibras mais pontiagudas, existem esferas magnetizadas que reenergizam o corpo humano.

Aquilo teria vindo da Nasa ou de um terreiro de candomblé? Não quis perguntar pra não estragar o grande momento do cara.

- Está comprovado cientificamente que cada hora dormida nesse colchão equivale a 8 horas de sono em um colchão normal. – disse Dan realmente convencido da bobagem que estava falando.

- Deite aí e me diga se você não se sente mais descansado. – insistiu Daniel.

Por alguns instantes achei que Daniel tinha virado viado. Conversa estranha de deitar na cama pra ver se eu me sentia mais descansado. Mas não. O cara realmente queria me convencer de que aquele absurdo era verdade. Deitei.

- Porra Daniel, tem prego nessa cama é? – imediatamente eu já estava de pé de novo.

A sensação era de estar deitado em uma cama de faquir. Mais dez segundos deitado no colchão e as tais esferas magnetizadas teriam perfurado as minhas costas. Daniel me olhou com desdém, fez um sinal pedindo licença e deitou na cama. Fechou os olhos por cerca de um minuto. Uma verdadeira eternidade.

- Daniel, que diabo você tá fazendo? – perguntei já de saco cheio, provavelmente lembrando que estava perdendo um capítulo de Carrossel.

- Shhhhhhh! – retrucou Dan Tech sem abrir os olhos.

Mais alguns segundos e, de repente, Daniel deu um pulo da cama, aliás, quase um salto ornamental e caiu em minha frente dizendo:

- Bicho... parece que dormi por 2 horas! Incrível, tô novo.

Fui pra casa imaginando como devia ser chato pros pais de Dan Tech passarem a madrugada inteira acordados. Provavelmente assistiam Corujão, Sessão de Gala e Telecurso 2º Grau durante as horas de sono que o colchão roubava de suas noites.

Quinta-feira, Setembro 18, 2008

A bomba dentro do elevador.

Antes que você me ache um louco, vou tentar dar uma explicação freudiana – a única que encontrei, inclusive - para o meu fascínio por este assunto. Talvez, por ser um cara meio introspectivo com certa dificuldade para explodir, me realizo explodindo outras coisas.

Soltar fogos de artifício sempre foi um grande hobby meu. Bombas, rojões, vulcões, adrianinos, girândolas, espadas, enfim, tudo o que contém pólvora e pode causar queimaduras graves. Por conta dessa paixão, já consegui fazer algo que hoje seria inimaginável: quando fui à Disney com 12 anos de idade, embarquei no avião com 10 bombas de mil dentro da mala. Nos dias atuais, no mínimo, eu seria preso como um membro-mirim da Al-Qaeda. Outra prova deste amor pela pirotecnia foi quando eu ganhei meu primeiro salário de estagiário. Recebi o contra-cheque às vésperas do São João, peguei os pioneiros 300 contos que ganhei com meu suor e investi tudo em fogos. Quase perco a namorada da época. Mas olhe como é a vida: logo depois o namoro morreu de causas naturais e, se eu tivesse ouvido seus lamentos, perderia a inédita oportunidade de chegar numa fazenda com 2 malas recheadas de bombas e afins. Sensação inexplicável.

Bom, lá pelos meus 12 anos, em plenas férias, cansado de jogar vídeo-game, assistir Sessão da Tarde e comer Bono de chocolate, tive uma das idéias mais brilhantes de minha vida. Havia uma sobra de bombas de mil que restaram do último São João. Pra quem não conhece, este explosivo carinhosamente apelidado de “arranca-mão” é uma mini-dinamite que tem a venda proibida nas feiras de fogos.

Fiz o seguinte: retirei cuidadosamente toda a pólvora de dentro da bomba e então recoloquei o pavio. Sem pólvora, sem explosão. Depois, peguei uma caixa de fósforos e fui até o apartamento de Juninho, um amigo do mesmo prédio. Chegando lá, nem o cumprimentei, apenas mostrei o artefato. Seus olhos brilharam. Ele havia mordido a isca.

- E então, vamos soltar? – perguntei em tom desafiador.

- Vou pegar minha sandália – disse Juninho e logo disparou em direção à porta.

Esperando o elevador, a ansiedade adolescente de meu grande amigo aflorava. Falava do estrago que uma bomba daquelas causava, que um dia conheceu um cara que havia perdido a mão acendendo uma, de outro que tinha ficado surdo por conta da explosão, de uma lata de leite Ninho que havia entrado em órbita ao ser colocada em cima da bomba e outras fantasias que a fertilidade de nossas mentes permitia. O elevador chegou, entramos.

Assim que a porta se fechou, comecei a passar levemente o pavio da bomba na esteira da caixa de fósforos. Juninho olhou pra mim incrédulo. Fazendo um gesto como se fosse me segurar, falou:

- Você tá louco? Quer explodir o elevador?

- Calma, não vai acender não... – respondi com muita serenidade.

Continuei arrastando o pavio contra a esteira da caixa e Juninho deu um grito:

- Pare! Você vai matar a gente!

Então, o pavio acendeu. Usei meus dons que a Globo ainda não descobriu, fiz uma cara de pânico e joguei a bomba no chão do elevador que devia ter menos de 1 x 1 metro. Juninho, num rompante de desespero, tentou escalar a parede. Ao perceber que seria impossível, espremeu-se numa quina, fechou os olhos com força, comprimiu os ouvidos com as mãos, parecia querer atravessar a parede. Curiosamente, talvez por instinto, ele colocou um dos pés sobre a bomba, como se quisesse proteger o resto do corpo. Obviamente, hoje, Juninho estaria perneta.

O elevador descia e Juninho se contorcia mais e mais. Tremia, apoiado em um pé só. Aguardava apenas a devastadora explosão. Após um tempo, o pavio foi completamente consumido, o elevador já tinha chegado no playground, mas Juninho não saía de seu posto. Perdera totalmente a noção de tempo. À essa altura, eu convulsionava de tanto rir. De repente, ele abriu um dos olhos e ficou olhando fixamente para a bomba no chão. Aguardou ainda mais uns 10 segundos sem parar de fitá-la. Quando notou que não havia mais perigo, olhou pra mim com olhos esbugalhados e falou:

- Puta que pariu! Hoje é nosso dia de sorte... deu chabu!

Segunda-feira, Setembro 15, 2008

Tio fulano e meu teste de HIV.


Assumo, sou um cara extremamente hipocondríaco. Cheguei a cultivar o sonho de ser médico, mas me convenci que jamais daria certo: a cada doença que eu estudasse, fatalmente sentiria os seus sintomas. Hoje, quando eu começo a ler alguma coisa e vejo que tem a ver com doença, pulo para outra matéria. Se eu estiver assistindo TV e o assunto também for doença, eu dou mute ou então começo a cantarolar alto. O negócio é não saber do que se trata, senão já era. Sou tão hipocondríaco que já tenho até o epitáfio para minha lápide: “Viu que eu estava doente?!”.

Bom, eu tenho um grande amigo de infância que é médico. Uma figura espetacular. Só tem um defeito: adora falar de doenças. Há uns 12 anos, quando havíamos acabado de entrar na faculdade, ele era até pior. Empolgado, vivia comentando de tudo que aprendia. Cada doença mais escabrosa que a outra. Ele contando e eu sentindo os sintomas.

Um belo dia, ele resolveu falar tudo o que havia aprendido sobre HIV. Eu entrei em pânico. E o pior, sem motivo algum. Mas o fato é que naquela época ainda não existia o coquetel que hoje faz os doentes conviverem relativamente bem com a doença. Era uma cruel sentença de morte. Enquanto ele falava sobre a AIDS como quem fala sobre a Disneylândia, eu me olhava no espelho do quarto e já estava me achando mais magro. Lembrei também que eu havia tido uma dor de barriga há mais ou menos duas semanas. Sem contar que eu estava sentindo um pouco de enjôo ouvindo tudo aquilo. Pronto. Eu estava com AIDS.

Não tive outro jeito a não ser apelar para Tio Fulano (vide post “- Dona Terezinha, Pedro não pode ser contrariado”). Fui até sua casa, precisava urgentemente de uma requisição de exame para HIV. Mas tinha um problema: por conhecer demais a mim e a minha hipocondria crônica, ele nunca me levava a sério. Cheguei lá e procurei disfarçar o nervosismo:

- Tio Fulano, tem muito tempo que eu não faço um exame de sangue, você pode me passar uma requisição?

Ele pegou seu receituário, rabiscou algumas coisas e me entregou. Consegui ler um monte de coisa, menos algo que falasse em HIV, AIDS ou ELISA e Western Blot (sim, eu já tinha pesquisado na internet tudo sobre a doença e seus exames diagnósticos). Aí perguntei a ele meio sem jeito:

- Tio Fulano, não tá faltando nenhum exame aqui não?

- Não, Pedro. Você não tem nada. – respondeu Tio Fulano com sua habitual falta de paciência diante de minha hipocondria.

Tive então que ser claro. Expliquei a ele que eu estava sentindo isso e aquilo, estava mais magro, dor de barriga, enjôo e todos os demais sintomas da AIDS. Ele perguntou se eu usava camisinha. Respondi que, como bom hipocondríaco, usava duas para garantir. O que falta a ele de paciência, muitas vezes também falta de tato:

- Isso é que não pode. Usar duas camisinhas aumenta o risco. Com o atrito entre elas, o látex pode fissurar...

Eu sabia. Tinha alguma coisa errada comigo. Eu estava com AIDS. Supliquei:

- Meu tio, me ajude, me dê logo essa requisição de exame.

Tio Fulano mandou eu ir ao hospital onde ele trabalha. Lá, iria agilizar as coisas no laboratório. Não dormi. Amanheci no posto de coleta de sangue. Após o exame, perguntei a ele:

- Fica pronto hoje?

Tio Fulano sorriu um sorriso irônico e respondeu:

- Uma semana, no mínimo.

Uma semana sem dormir. Nesse meio tempo, fiquei intrigado com uma coisa. Quando um exame desse tipo dá positivo, simplesmente entregam o resultado ao paciente? Não podia ser assim, ia ter um monte de gente cometendo loucuras diante de um envelope aberto. Sem agüentar as intermináveis perguntas e aproveitando a última gota de paciência que lhe restava, Tio Fulano respondeu:

- Funciona assim: caso dê positivo, o laboratório entra em contato com o paciente e diz que o sangue coagulou e que é necessário coletar outra amostra. Com esta segunda amostra, faz-se o teste confirmatório e, dando positivo de novo, o resultado é dado com acompanhamento psicológico.

Morrendo de medo do laboratório me ligar, todos os dias eu enchia a paciência de Tio Fulano perguntando a cada 10 minutos se o exame já estava pronto. Enfim, um dia liguei para seu celular e ele disse apressado:

- Tô no meio de uma cirurgia, seu exame está pronto e eu já mandei buscar no laboratório. Tchau.

Fui para a casa dele e descobri que 30 minutos podem demorar mais para passar do que 3 meses. Ele chegou e eu devo ter feito uma cara apavorada de “e aí?!?”. Ele fez um gesto de mão como quem diz: quem já esperou uma semana, espera eu chegar direito em casa. Fomos pro seu gabinete, eu suava frio. Pedi que não ligasse o ar-condicionado. Tio Fulano, de maneira inédita, andava a passos lentos, gesticulava de forma lenta. Parecia que tinha passado a tarde fazendo ioga.

- Sim, meu tio... – balbuciei, buscando acabar com o suplício.

- Só um minuto, vou ao banheiro. – disse ele, quase um monge.

Deve ter sido o xixi mais longo de toda a história. Ele retornou. Sentou diante de mim em sua enorme cadeira presidente. Nem forças para perguntar mais uma vez eu tinha. Silêncio. Olhando para mim, ele disse:

- “Meu tio”, você vai ter que voltar lá comigo amanhã... seu sangue coagulou.

Não lembro de muita coisa depois disso. Apenas de começar a ver tudo ficar preto. Tio Fulano conta que, com feições de fantasma, eu chorava, me apegava a Deus e Nossa Senhora e falava sem parar:

- Eu sabia que eu estava com AIDS! Meu tio, eu sabia! Por que eu??

Com um semblante de surpresa e preocupação, ele segurou em meu braço gelado e dizia entre gargalhadas estrondosas:

- “Meu tio”, é brincadeira! Deu negativo!

- Não, eu sei que eu tô doente! Eu vou morrer. Você só tá falando isso pra me confortar... – dizia, querendo me conformar com meu calvário.

Devo ter tomado uns dois tapas na cara pra voltar à realidade. E, depois desse dia, jamais tornei a pedir a Tio Fulano uma requisição de exame.

Quinta-feira, Setembro 11, 2008

Cicrano e seu nunchako.


Sabe aquela pessoa que todo mundo gosta e ninguém tem nada para falar mal? É Cicrano. Sou muito amigo de Cicrano, tive a honra de ser seu padrinho de casamento. Mas, se bem que, pensando melhor agora, Cicrano tinha um defeito: ele era um pouco machista, portanto, de vez em quando, demonstrava certo ciúme e se a gente vacilasse, ele partia pra cima de algum cara que fosse mais gaiato.

Na época, o restaurante da moda era o japonês Soho na ladeira da Barra. Cicrano foi jantar lá com a namorada e um casal amigo. Reservaram o tatame, o ambiente mais cobiçado do lugar. Estavam os 4 lá dentro, bem acomodados, dando boas risadas, aproveitando os melhores sushis e sashimis, quando de repente algum desavisado abriu a porta do tatame, talvez imaginando que ali fosse o banheiro. O rapaz sorriu e voltou a fechar a porta. Foi o suficiente.

Após este acontecimento, Cicrano já não mais conseguia prestar atenção na conversa da mesa. Ficou quieto e contemplativo. Após um tempo, levantou-se sem dizer nada e saiu do tatame. Passou pela mesa do suposto paquerador de mulher alheia, olhou fixamente para o cara com sangue nos olhos. O azarado retribuiu o olhar com um gesto de cabeça como quem pergunta: “qual o problema?”.

Cicrano manteve a calma e saiu andando em direção à porta. Só Deus sabe como ele se controlou. Lutador de artes marciais desde pequeno, talvez tenha retirado de dentro de si a maior lição que o oriente o ensinou: a paciência.

Ele foi até o carro e, embaixo do banco, encontrou o que queria: seu nunchako (seja lá como se chama). Pra quem não sabe, o nunchako é uma arma letal composta por duas barras de ferro interligadas por uma corrente. Nada muito delicado. Esta modalidade quando bem lutada parece um verdadeiro malabarismo cheio de movimentos e passagens rápidas de uma mão para a outra. O lutador se movimenta mais ou menos como o Tazmania.

Cicrano não pensou duas vezes. Deu um chute na porta do restaurante e entrou girando o seu nunchako, passando por entre as mesas em uma coreografia alucinante. Os garçons, assustados, tiravam suas bandejas da frente e alguns correram para a cozinha. Naquela fatídica noite, Cicrano mostrou tudo o que havia aprendido nas aulas de Kung Fu com ênfase em nunchako.

No primeiro momento, os presentes no restaurante também levaram um susto. Logo em seguida, começaram a aplaudir com empolgação, imaginando ser aquilo uma performance contratada pelo estabelecimento. Afinal, a especialidade da cozinha do lugar era oriental.

Percebendo a movimentação diferente no restaurante e também a demora de Cicrano, sua namorada e o casal amigo saíram do tatame para ver o que estava acontecendo. Surpresos com tudo aquilo, foram em direção a Cicrano, um verdadeiro liquidificador humano girando por entre as mesas. Seguraram o rapaz e o levaram de volta para dentro do tatame com nunchako e tudo. Lá dentro ele aparentemente se acalmou. Mas só aparentemente. Ficou aguardando com paciência a silhueta de seu desafeto levantar da mesa e ir embora. Quando isso aconteceu, ele pediu licença para ir ao banheiro, abriu a porta do tatame e apressou o passo para alcançar os rapazes que já estavam indo embora. Não houve tempo. Todos entraram no carro e já estavam subindo a ladeira quando Cicrano, esbaforido, apareceu na porta. Num ato de nobreza, o rapaz que estava na mesa e que agora ocupava um lugar no carona chamou Cicrano, estendeu a mão direita aguardando um aperto de mãos, um acordo de paz. Cicrano, mais uma vez, não titubeou: apertou a mão do cara e o puxou com toda força para fora do carro. O rapaz ficou pendurado. Os amigos segurando sua perna e o puxando de volta para dentro e Cicrano tentando vigorosamente puxá-lo para fora. Como este era um cabo de guerra de 3 contra 1, os amigos do sortudo venceram. Aos cânticos barulhentos dos pneus, rapidamente o carro sumiu do lugar.

Quando perguntei a Cicrano porque ele havia feito aquilo, ouvi uma resposta cheia de segurança:

- Sou otário? Ele queria era me segurar e arrastar o carro. Já fiz isso uma vez...

Quarta-feira, Setembro 10, 2008

- Você é porco, é, Márcio?!


Tenho um grande amigo chamado Gera que já prometeu parar de falar comigo caso eu pedisse mais uma vez que ele contasse a história do porco. Eu assumo, às vezes insisto tanto que me torno um sujeito chato.

E então, Gera, você vai contar? Conta só mais uma vez a história do Porco. Conta, Gera?

Ok, já que ele não vai contar, eu conto.


Era uma vez duas amigas de Gera em uma casa de praia. Sol, mar, verão. Tudo iria muito bem se não fosse um problema: Betinho, um rapaz com síndrome de down e que passava o dia inteiro provocando as meninas.

- Vocês duas, hein? São namoradas que eu sei, hein? Estão namorando, vocês duas... ficam até nuas uma na frente da outra... – dizia Betinho, sem dar trégua às pobres coitadas.

Elas, já sem a menor paciência, em determinado momento explodiram pra cima do inconveniente rapaz:

- Pára de encher o saco, Betinho! Fica aí dizendo bobagem, aposto que nunca viu uma mulher pelada.

Betinho defendeu-se prontamente:

- Eu já vi sim! Já vi uma mulher peladinha...

- Ah, é?! E quem foi? – perguntou uma delas.

- A namorada de meu primo Márcio – disse Betinho cheio de orgulho.

O tal Márcio era conhecido das meninas. Logo, a curiosidade era inevitável. Perguntaram o que havia acontecido e Betinho, triunfante, contou:

- A gente estava na casa de praia, um monte de gente, a casa cheia. Minha avó mandou eu dormir no mesmo quarto de Márcio e a namorada. Aí eu fui bem cedo pra cama, fiquei lá deitado, todo coberto, fingindo que estava dormindo, um olho aberto e o outro fechado... já estava cansando de tanto esperar, o corpo todo doendo, mas aí os dois entraram no quarto. E eu lá, fingindo que estava dormindo, um olho aberto e o outro fechado... aí eles começaram a se beijar e ficaram se beijando um tempão... Márcio beijou o pescoço dela, ficou beijando, beijando... depois tirou a blusa dela e começou a beijar até o peito da menina!

As meninas fizeram um esforço hercúleo para não rir. Betinho continuou:

- Depois, Márcio colocou ela de costas, tirou a calça dela, tirou até a calcinha! Ela ficou pelada! Aí ele beijou as costas, foi descendo e beijando, descendo, beijando... aí começou a beijar o c* dela... nesse momento eu não aguentei. Dei um pulo da cama e gritei: você é porco, é, Márcio?!?

As duas se desfizeram em gargalhadas. Betinho, não perdeu o embalo:

- Aí os dois tomaram um susto, saíram da cama, foram correndo pro banheiro e se trancaram. Eu fui atrás e fiquei olhando pelo buraco da fechadura, vendo tudo e gritando: eu tô vendo viu, seu porco! Pare com isso, Márcio! Seu porco!!

Não preciso dizer o quanto essas meninas deram risada. Elas e todos que já tiveram a oportunidade de ouvir Gera contar a história. Mas uma coisa não sai de minha cabeça: o que teria tomado Márcio para não sair do clima e ainda continuar a brincadeira no banheiro?

Segunda-feira, Setembro 08, 2008

Duda Mendonça, eu e, infelizmente, Jane.


Eu tenho um ídolo na propaganda: Duda Mendonça. Penso que ninguém consegue criar comerciais que consigam emocionar tanto quanto ele. A campanha de Lula 2002 foi uma prova disso. Afinal, quem não “se sentiu um pouco PT”?

O fato é que, um pouco antes da campanha de 2002, eu aguardava ansiosamente o lançamento do livro de Duda, Casos & Coisas. Foi quando soube que a Rádio Metrópole iria entrevistá-lo e quem telefonasse para lá e respondesse corretamente uma pergunta relacionada a propaganda ganharia, em primeira mão, seu livro autografado.

A entrevista estava marcada para meio dia, meio dia e poucos minutos. Meio dia em ponto eu saí correndo da Propeg, a agência que eu trabalhava na época. Liguei o som do carro, sintonizei na Metrópole e fui tentando telefonar do celular repetidas vezes para a rádio. Ocupado. Fui da ladeira da Barra até minha casa tentando. Ocupado.

Cheguei em casa, estacionei o carro do jeito que deu, não esperei o elevador e subi correndo pelas escadas. Passei como uma flecha pela cozinha, só deu tempo de ouvir Jane, a empregada, dizendo que já ia colocar o almoço na mesa. Nem respondi, peguei o telefone sem fio e me tranquei no quarto. Ligando do celular e do fixo ao mesmo tempo dobravam-se as minhas chances de conseguir falar com Duda e ganhar o livro.

Redial, redial, redial. Depois de muitas tentativas, consegui através do fixo.

- Senhor, por favor aguarde na linha que o senhor é o próximo a entrar no ar. – disse a moça da rádio.

Jane trabalhava lá em casa há uns 2 anos. Mas quem via a forma com que ela me tratava, sempre achava que ela tinha me visto nascer. Era do tipo mãezona: - menino, você não está comendo direito... menino, essa roupa está amarrotada, me dê que eu vou passar...

Mas, às vezes, Jane se passava. Enquanto eu, concentrado, esperava a minha hora de ir ao ar, pensando em coisas inteligentes para falar com Duda, Jane começou a bater na porta do meu quarto de 2 em 2 minutos:

- Pedro, o almoço tá na mesa!

- Já vou Jane!! – eu respondia cada vez mais impaciente.

Continuei com o telefone no ouvido. A mulher da rádio fez de novo contato comigo:

- Senhor, vamos colocar no ar os comerciais e o senhor entra assim que eles terminarem.

Aproveitei, destranquei a porta, fui até a cozinha e bradei com Jane:

- Jane, pare de bater em minha porta, eu sei que o almoço está na mesa, já estou indo.

- Vai esfriar... – Jane deu de ombros.

Voltei para o quarto, tranquei a porta e retomei o meu raciocínio. O que eu ia dizer quando falasse com Duda? Todo mundo fica meio babaca quando vai falar com alguém que admira. Principalmente se é alguém muito inteligente. Pelo menos já tinha dado um jeito na inconveniente da Jane. Opa, de novo a mulher:

- Senhor? Mário Kértsz (o apresentador do programa) vai chamar o seu nome agora.

Eis que acontece o seguinte diálogo no programa de maior audiência da Bahia:

- Pedro Valente na linha 6. Boa tarde, Pedro! Duda está ouvindo, pode falar. – disse Mário.

Com toda reverência, comecei:

- Boa tarde Duda. Queria dizer que te admiro muito como criativo. Ninguém consegue tocar tanto o coração das pessoas através da propaganda quanto você. Quero desejar também muita sorte na campanha deste ano e blá, blá, blá...

Ainda não tinha terminado a puxa-saquice quando ouvi um barulho de alguém pegando na extensão:

- Ó, já disse que o almoço tá na mesa! Sua mãe tá esperando... venha logo almoçar, menino! – disse Jane, gritando ao vivo na rádio para Duda e todo o estado.

Incrédulo, eu dizia rangendo os dentes:

- Desliga! Desliga!

Mário Kértzs:

- Entrou linha cruzada na 6!

- ... venha logo que já são quase 1 hora da tarde! – desligou Jane.

Eu não sabia mais o que falar. Tive vontade de desligar o telefone. A mais genuína vontade de sumir. Então Duda falou:

- Pedro, obrigado! Me diga o nome de 3 grandes agências de Salvador que o livro é seu.

- Idéia 3, Propeg e Publivendas. – falei atropelando, vomitando palavras, louco para acabar com aquilo.

- Ok, ganhou o livro! – disse Duda fazendo uma pequena pausa e continuando logo em seguida – Mas olha Pedro... é melhor você ir almoçar, a comida já deve estar fria.

Desliguei o telefone e fui andando em direção a cozinha com um claro objetivo: cometer um assassinato. Mas meu celular tocou, voltei para atender. Aquela foi a primeira de uma centena de ligações que recebi ao longo do dia de amigos publicitários perguntando se eu já tinha ido almoçar e se o almoço estava frio.

Sexta-feira, Setembro 05, 2008

- Dona Terezinha, Pedro não pode ser contrariado.


Em muitas situações complicadas da minha vida, sempre pude contar com Tio Fulano. Tio Fulano é um cara que tem uma personalidade forte, às vezes tem um jeito meio ACM de ser. Eu explico: se ele vai com sua cara, você é a melhor pessoa do mundo, ele mata e morre por você. Mas, se o santo não bater, quando encontrar com ele, passe para o outro lado da calçada. Enfim... ainda bem que pertenço ao primeiro grupo e, desde que eu era pivete, ele sempre esteve pronto para me ajudar no que fosse preciso. Tio Fulano é um grande médico, diretor de hospital, um cara realmente bom no que faz e reconhecido nacionalmente.

Eu estudava no Anchieta e estava prestes a perder o 2º ano do ensino médio. Naquela época, existia uma saída para alunos aplicados como eu: o Colégio São José, apelidado carinhosamente pelos alunos – normalmente filhos de famílias abastadas de Salvador – de San Joseph High School.

No São José só faltava a chaminé. Aquilo era uma fábrica. Pagou, passou. Mas tinha um porém: só quem tinha muita influência ou dinheiro conseguia a proeza de não assistir aula e nem nunca aparecer no colégio. Como eu queria fazer cursinho pré-vestibular, eu precisava conseguir ser liberado das aulas. O jeito foi apelar a Tio Fulano.
Fomos no seu carro em direção ao San Joseph conversando amenidades. Não esqueço da cena, ele de terno, gravata e maleta, parado na frente do colégio e me perguntando:

- Vem cá, o que é que eu tenho que dizer?

Eu respondi:

- Meu tio, não sei... eu só sei que eu não posso ficar vindo nesta espelunca assistir aula. Preciso me preparar pro vestibular.

Tio Fulano, homem de decisões rápidas e gestos bruscos, retrucou antes de eu terminar:

- Ok, deixe comigo.

Andando pelo corredor deserto do colégio, ele completou:

- Não fale nada, fique calado.

Apareceu então uma senhora baixa, notoriamente acima do peso e com fartos anéis dourados nos dedos. Era Dona Terezinha, diretora do colégio ou, como queiram, superintendente da fábrica. Nos convidou a entrar em sua sala. Obedeci Tio Fulano: mal dei bom dia, sentei na cadeira e calado fiquei. Primeiro, ele se apresentou, deu todas as suas credenciais, as suas altas patentes. Astuto, ele queria mostrar prestígio para conseguir o que queria. Dona Terezinha prontamente entendeu o recado e começou a tratá-lo com muita distinção. Puxação de saco mesmo.

Ali naquela cadeira eu era um mero detalhe, quase um vaso de planta. Tio Fulano rapidamente conseguiu dominar a situação e, se valendo do tratamento quase servil de Dona Terezinha, ele que já tem um tom de voz grave, começou a falar ainda mais firme e mais alto enquanto gesticulava com o dedo:

- Dona Terezinha, me escute com atenção: Pedro não pode assistir aula.

Achei que Tio Fulano tinha pesado a mão, foi muito rápido ao ponto. Um respeitado professor de medicina exigia, sem pudor algum, que seu sobrinho não freqüentasse a escola.

Dona Terezinha, talvez um pouco amedrontada, respondeu:

- Não se preocupe, doutor! Não se preocupe...

Ele aproximou o rosto e o dedo em riste da face assustada da diretora e continuou falando:

- Dona Terezinha, Pedro não pode ser contrariado. Pedro é doente. A senhora está entendendo?

Nesse momento a minha vontade era explodir em gargalhada. Mas continuei calado, ombros baixos e fitei o chão. Dona Terezinha talvez nunca tivesse visto tanta objetividade. Rapidamente ela resolveu o problema:

- Doutor, não se preocupe... Pedro já está passado. Estou garantindo ao senhor.

Tio Fulano me chama de “meu tio”. Ele olhou pra mim e falou alto:

- Você ouviu meu tio? O problema está resolvido.

Dona Terezinha repetiu baixo:

- ... está resolvido.

Tio Fulano apertou a mão de Dona Terezinha, deu um cartão de visitas e falou com firmeza:

- Qualquer coisa que a senhora precise, me procure.

A partir daquele dia, todo dia 5 eu passava lá para pagar a mensalidade. Nunca comprei o uniforme. Ao fim do ano, recebi meu boletim: História – 7,4. Português – 6,75 e por aí vai.

Sabendo desta história, um amigo meu que estudava no São José foi até a sala da diretora perguntar por que eu tinha sido liberado de assistir aula e ele não.

Impaciente, Dona Terezinha respondeu:

- Porque Pedro é doente!

Quarta-feira, Setembro 03, 2008

Atropela que é feia

Tem um amigo meu que é uma figura. Aliás, abrindo um parênteses, Deus gosta de mim, pois só me deu amigos figuras. Pelos nomes já dá pra ter uma noção: Donono (não é italiano, é que o sujeito mora no 9º andar), Bob, Cara-de-Mau, Chokito, Lívia Graúda, Paulinha mão-de-Playmobil e por aí vai… mas vou voltar a meu amigo protagonista deste post. O nome dele é Campelo. Alguém um pouco mais chegado a trocadilhos e que talvez já tenha vislumbrado suas vergonhas, o apelidou de “com pêlo”.

Publiciotário como eu, um excelente diretor de arte, talvez um dos 1.500 melhores de Salvador. O fato é que um dia, numa roda de amigos, conversando sobre os maiores foras de que a gente já tinha ouvido falar, eis que ele nos conta o que, na minha opinião, é o melhor. E mais: assim como neste post, ele era o personagem principal. Eu vou contar pra vocês, mas não contem a ele que fui eu que contei.
Ele tinha acabado de mudar de agência. Os novos colegas de trabalho, dando as boas-vindas, o chamaram para almoçar. Entraram 4 criativos no carro. Nosso amigo foi no carona, ao lado do motorista. Movido pela alegria da situação e perturbado por natureza, Campelo ia gritando coisas pela janela do carro. Como, por exemplo, ao passar por um ponto de ônibus cheio de trabalhadores, expressava-se:
- Olha o ooooooooooovo!
E que ninguém o julgue. Quem nunca fez ou teve vontade de fazer isso? (de gritar, não de jogar o ovo).
E assim foram. A cada oportunidade, uma nova manifestação de Campelo e novas gargalhadas dos passageiros. De repente, há uns 50 metros, uma mulher não muito favorecida fisicamente atravessa a faixa de pedestres. Sem pensar duas vezes, o efusivo rapaz colocou meio corpo pra fora do carro e soltou um grito alucinante:
- Atropela que é feeeeeeeeeeeeeeeeiaaaaaaaaaaaaaaaa!

O grito parecia não acabar mais, foi sem dúvida o mais empolgado do dia. E, para sua surpresa, o carro foi reduzindo a velocidade, reduzindo, reduzindo, reduzindo… até que o carro parou ao lado da mulher, ele ainda com metade do corpo para fora da janela. Sério, sem olhar para Campelo, disse o motorista:

- Você pode passar para o banco de trás para minha namorada entrar?

E seguiram os cinco. O som da alegria substituído por um silêncio fúnebre. No máximo, alguns risos quase mudos vindos dos dois amigos ao lado de Campelo.

Ribeira do Pombal X ginastas brasileiras

Pior de tudo… lembrei que eu também já fui protagonista de um fora Top Ten. Aliás, tenho dado foras com tanta freqüência que eu devia andar com uma pá pra facilitar cavar um buraco e me enterrar. Outro dia, andando na praia de Mar Grande, encontrei um vizinho, um cara mais velho, que só vejo de verão em verão. Vínhamos andando, um em direção ao outro. Quando nos aproximamos, falei com entusiasmo:

- Armando! Tudo bem?

Ele respondeu:

- Tudo ótimo. Mas meu nome é Tom Zé.

É, Armando e Tom Zé não são lá nomes muito parecidos.

Mas na verdade não era esse fora que eu ia contar, pois esse é um fora comum, padrão. Como dizem que problema e mulher só prestam grandes, o que eu vou contar é uma série de foras.
O fato é que eu estava na casa de um grande amigo meu, Limão. Ele e Mimi, sua noiva, haviam chamado eu e Letícia (minha namorada na época) pra tomar um vinho. Chegamos lá e fomos apresentados à irmã de Mimi, o namorado dela e uma prima das duas. No início, eu estava meio monossilábico, afinal não tinha intimidade com o pessoal. Depois da terceira taça eu fiquei tagarela e cheio de razão. Então aconteceu o primeiro fora da série. Na verdade, uma trilogia.
Comecei contando um caso. Todo mundo riu e alguém perguntou:

- Onde foi que isso aconteceu?

Eu disse:

- Ah, num interior bem brabo aí, no meio do nada, Ribeira do Pombal…

O cunhado de Mimi:

- Eu sou de lá.

A Bahia tem 417 cidades e eu acertei justamente a do cara. Dei duas gaguejadas e, pra rebater o embaraço, habilmente mudei de assunto. Olimpíadas chegando e eu soltei:

- Vocês já repararam como as ginastas brasileiras não têm o mínimo controle emocional? E digo mais, também não sabem aterrissar. Podem reparar: quando não caem de bunda, dão dez passos pra frente ou cinco pra trás, catam ficha e ainda têm a cara-de-pau de levantar os dois braços pra cima como se nada de errado tivesse acontecido.

Percebi que todos concordavam com uma cara meio sem graça. Até que a prima de Mimi, demonstrando bastante controle emocional, respondeu:

- Eu sou ginasta. Sou da equipe pernambucana de ginástica olímpica.

Foi meu último comentário da noite.
No dia seguinte, liguei pra Mimi agradecendo a hospitalidade de sempre e, querendo ser simpático com o cunhado de Ribeira do Pombal, falei:

- Manda um abraço pra Marcos.

Ela respondeu meio sem jeito:

- Ah, claro, mando sim, pode deixar…

Passado algum tempo, descobri que o nome do cara não era Marcos. Era Gustavo. Por uma trágica coincidência, Marcos era o nome do ex-namorado da irmã, um rival e provável desafeto do sertanejo Gustavo.

Lanchinha da Carreira

Nada mais frugal do que pegar uma lanchinha da carreira, atravessar a Baía de Todos os Santos e ir pra Mar Grande. Principalmente no verão, quando a fila deste transporte costuma percorrer meia cidade baixa. Mas a ilha é um paraíso e, como dizem, pra conhecer o paraíso, é preciso passar pelo purgatório.

Pra começar, uma curiosidade: ninguém sabe porque se chama “lanchinha”, muito menos “da carreira”. Afinal, trata-se de um barco grande de madeira do qual, sem muito esforço, seria possível ultrapassá-lo a nado.

Quando as pessoas falam que vai gato, cachorro e periquito, não é metáfora. A aventura começa quando o “staff” abre o estreito portão de acesso ao píer de embarque. A sensação que se tem é que estavam todos presos em uma casa pegando fogo há pelo menos 2 horas e uma porta se abre. As pessoas correm desesperadas, gritos de sai da frente, empurrões, carrinho-de-mão derrubando manga pelo chão, gente escorregando, mãe puxando menino pelo braço.Esse é o estágio 1.

Ultrapassado o portãozinho, começa o estágio 2. Apesar do espaço aumentar logo no início do píer, não há tempo para comemorar: uma ponte ainda mais estreita aguarda os passageiros. O corre-corre tem fundamento: a capacidade da lanchinha deve ser algo em torno de 120 pessoas. Embarcam umas 300.

Existe uma forma alternativa de ultrapassar este estágio e galgar preciosas posições – artifício normalmente utilizado pelos nativos da ilha. Como se fosse um lançamento de disco olímpico, eles arremessam sua bagagem para além-ponte. Para esta manobra é necessário destreza, já que o espaço do outro lado é pequeno e você corre dois riscos: atingir algum passageiro ou ver seus pertences afundarem no mar. Este plano B é perigoso porque, depois de “despachar” sua bagagem, é hora de você sair pulando pelos barcos atracados até chegar à sua embarcação. Sem o impulso suficiente seu destino é a água.

Estágio 3. Ok, você chegou diante de sua preciosa lanchinha. É hora de disputar o tão sonhado embarque com o menino do “menduins”, o menino da paçoca, o menino da gelada, o menino do nêgo bom, o menino da mineral, o menino do “halles” e o maldito cara do carrinho-de-mão das mangas.Agora, é conquistar na cotovelada os seus 10 cm de banco. Se você for bom no chega pra lá, tente disputar os bancos na sombra. Caso não se garanta, contente-se em pegar um bronze.

Ótimo, a lancha vai partir. O marinheiro vai soltando as amarrações, mas, sem esboçar surpresa, assiste mais uns 3 passageiros correndo pelo píer e se atirando para dentro do barco. A viagem enfim começa.

Nas primeiras marolas do mar calmo da baía, a lanchinha se comporta como um João-bobo, balança de um lado pro outro, provavelmente desestabilizada pelo excesso de peso. Mais pro meio da baía, as marolas viram pequenas ondas. O suficiente para o show de engulhos começar. Se pra dançar créu tem que ter habilidade, imagine pra desviar de vômitos vindos de todos os lados em um barcoque você mal consegue se mexer. E como sensibilidade não é o forte de vendedores ambulantes, os caras saem gritando entre o povo passando mal: “olha o menduins torrado!”.

Vencidos os inacabáveis 15 km que separam Salvador da ilha, aproximando-se da ponte de desembarque, outra cena inusitada dá início ao 4º e último estágio: quem estava passando mal se recupera automaticamente e um novo estouro de boiada acontece pra sair da lancha. Depois, é simples. Basta driblar os meninos que pedem pra carregar sua sacola por uns trocados, entrar numa “kombis” com mais de 15 pessoas dentro e aproveitar um verdadeiro pedaço de céu na terra.
Ah, eu amo a ilha de Itaparica.


A Fantástica história da mala de cocô


Eu tenho um cliente que tem um Táxi Aéreo. Outro dia, fui com ele em um verdadeiro paraíso: Boipeba. Se você ainda não conhece, trate de conhecer. Principalmente se você tem namorada (o), esposa (o), amante, amiga(o)-colorida(o). É simplesmente fantástico. Mais eficiente que amendoim, catuaba, caldo de sururu, ostra ou viagra (suponho eu).

O fato é que sobrevoar com um teco-teco a Baía de Todos os Santos deu o maior cagaço. E o espaço interno de um teco-teco é igual ao de um Celta: você vai no banco de trás vendo tudo o que o piloto tá fazendo, tá olhando ou falando. Tem até que encolher a perna pra não incomodar as costas do comandante.
Logo após a aterrissagem, já caminhando descalço pela praia, puxei assunto com o piloto e fiz mil perguntas-padrão, como por exemplo, o que acontece quando o (único) motor pára de funcionar. Plana? E, justamente por conta do meu cagaço e da óbvia ausência de um banheiro a bordo, arrisquei:


- Diz uma coisa, você nunca teve uma dor de barriga em pleno vôo?

Ele respondeu:

- Já sim.

Era o prenúncio da fantástica história da mala de cocô. Eu estava ávido pra saber o que houve, já que prontamente imaginei não ser possível pousar um avião instantaneamente por conta de uma diarréia – muito menos possível seria segurar a dita cuja. Ele continuou:

- Era época de eleição e fomos contratados para buscar uns políticos em Jequié (cidade do interior baiano). Estávamos eu e um co-piloto, colega de tempos, voando em direção à cidade. Senti uma pontada na barriga e percebi que uma catástrofe estava prestes a acontecer a 8.000 pés de altitude. Tive que pensar rápido e com praticidade. Afinal, não poderia encontrar com os clientes de calça suja. Expliquei ao meu colega a situação, pedi a ele que assumisse o manche e pulei para o banco de trás em busca de algum recipiente que me salvasse. Só havia a minha mochila e a maleta – aquelas de rodinha – do co-piloto. Minha mochila não dava um bom penico, seu formato mudava conforme os movimentos bruscos que faz um monomotor. Supliquei ao meu amigo por sua maleta, prometi que comprava outra pra ele e, comovido com a situação, ele concordou. Rapidamente, retirei todas as suas roupas e pertences de dentro da maleta e soquei tudo em minha mochila. Me agachei em cima da maleta e fiz o que tinha que fazer. Aliviado, fechei o zíper da mala, vesti a calça e voltei pro comando.

Ouvindo a história, eu pensava: e se não tivesse co-piloto? Em vôos de monomotor normalmente não tem. Deve ser por isso que esses aviõezinhos caem tanto. Ou então, deve ser por isso que existem co-piloto e maleta de co-piloto.

Bom, ele continuou:

- Eu tinha um problema do qual precisava me livrar. Fomos nos aproximando do aeródromo da cidade e era possível ver outros aviões na lateral da pista e um grande movimento de políticos e assessores. Utilizei a pista toda e, quando já estava afastado de toda aquela gente, abri a porta do avião e joguei a mala de cocô no mato, bem na cabeceira da pista. Problema resolvido. Desembarcamos e fomos ao encontro de todos. Enquanto um dos assessores identificava-se como sendo do gabinete do nosso contratante, um garoto apareceu correndo pela pista com a maleta na mão gritando “moço, moço! A mala caiu do avião!”. Agradeci o garoto querendo matá-lo e eis que a mala de cocô voltou às minhas mãos. O assessor então explicou que iríamos para o hotel almoçar com a comitiva e, imediatamente, pegou minha maleta e colocou na mala do carro. Entraram 2 deputados, eu e o co-piloto que também não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Quando chegamos no hotel, o assessor e os deputados saíram do carro olhando para as solas dos sapatos, buscando entender de onde vinha aquele cheiro. Junto com a comitiva, entramos eu e a mala de cocô no lobby do hotel. Enquanto estavam todos distraídos, eu examinava desesperadamente o local, buscando um lugar para dar fim definitivo à maleta. Em um canto, no início do corredor, vi um lixo de boca larga. Fui puxando a bagagem, usando as rodinhas e torcendo para que o seu conteúdo não vazasse. Peguei a maleta na mão e soquei com vontade pra dentro do lixo. Quando ela já estava quase desaparecendo diante de meus empurrões, aparece um faxineiro do hotel. “O senhor não quer mais essa mala não? Eu quero…”. Dei as costas e apressei o passo.

Depois de muitas risadas de quem ouviu a história do piloto, fomos almoçar. Apesar da fome, quase não comi aquela bela moqueca de camarão. Lembrei que ainda iríamos voar de volta para Salvador logo em seguida. E o pior: não havia maleta alguma dentro do avião. Quem arriscaria uma dor de barriga?

Segunda-feira, Setembro 16, 2002

Pensamento do dia:
"Crianças no banco traseiro causam acidentes. Acidentes no banco traseiro causam crianças."

Sexta-feira, Setembro 13, 2002

A piada mais sem graça que eu já ouvi.

Um cara, meio fracote pega o elevador. Junto entra um negão imenso.
O cara fica meio assustado e olha o negão de cima a baixo.
O negão percebe e fala:
- 2 metros de altura, 180 quilos, pau de 30 centímetros, saco
pesando três quilos, Felipe Costa, seu criado.
O cara desmaia, no ato!
O negão então dá uns tapas na cara do coitado, o acorda e pergunta:
- O que houve, cara, porque você desmaiou?
O cara, ainda meio desacordado responde:
- Desculpe o que você disse?
- Eu disse: 2 metros de altura, 180 quilos, pau de 30
centímetros, saco pesando três quilos, Felipe Costa, seu criado.
– Ah! Eu tinha entendido: fique de costa, seu viado!

Quinta-feira, Setembro 12, 2002

New York, 11 de setembro de 2001.

Oi, pessoal! Acabo de chegar no escritório para mais um dia de rotina. São mais de cem andares e nada de interessante acontece! Normal, estamos aqui pra trabalhar. Ôpa! um barulhão no prédkdkfdmcmnb

Sexta-feira, Agosto 23, 2002

Início do BLOG. Aqui começa a desinformação.


Free Hit Counter
Free Counter